As nostalgias de Krishna Monteiro em “O que não existe Mais”

Você conhece Krishna Monteiro? Não? Vai conhecer agora, pois o paranaense estreou recentemente no universo literário com o seu primeiro livro intitulado “O que não existe mais”. Primeiramente, é preciso deixar bem claro algumas coisas, tais como: o âmago da obra e o gênero em que ela se apresenta. Toda obra tem um centro, uma estrela ao qual toda a sua narrativa deve orbitar e a de Monteiro é a nostalgia, ou melhor, a saudade de um ente muito querido, seu pai. O livro é dedicado a ele e por esta persona masculina toda a sua narrativa orbita.  O gênero escolhido para a obra foi o conto, sete contos na verdade. São sete histórias cadenciadas e independentes, não importando tanto a ordem que sejam lidas.

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Krishna Monteiro conciliou seu tempo das questões diplomáticas com a paixão pela literatura e fez seu debut na literatura este ano

Graduado em economia, o escritor de 42 anos também fez mestrado em ciências políticas. Por um breve momento passou pelo jornalismo, mas em 2008 ingressou na carreira diplomática. Entre os anos de 2010 a 2012 trabalhou como vice-chefe de missão da embaixada brasileira no Sudão. Foi editor de textos literários na revista “Juca – diplomacia e humanidades”, além de criar o blog “Jovens Diplomatas” e atualmente é cônsul adjunto em Londres.

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Tordesilhas, 2015

O autor começa abordar o âmago da obra de uma forma agradável e poética logo a partir do primeiro conto, que leva o mesmo título do livro. Como já mencionado, presença do pai do escritor será uma companhia constante durante todas as páginas, às vezes até disposta frente ao leitor, num diálogo direto, em que muitas vezes você se confunde com o narrador, pois não tem como em certos momentos você não se identificar com aspirações, anseios e questionamentos abordados na obra e que muitas vezes você também já fez. Isso me agrada, pois particularmente eu acho extremamente inteligente criar pontos de convergências entre o leitor e a obra em mãos.

Mas é uma pena, pois logo em seguida todo atrito e até em certos pontos, uma identificação que tive com o narrador, se desfazem como fumaça e passamos para uma viagem mais profunda do autor, mas sem tanto espaço para a imersão do leitor. Os contos “As encruzilhadas do Doutor Rosa”, “Quando dormires, Cantarei” e “Um Âmbito Cerrado como um Sonho” trazem uma narrativa ainda mais nostálgica, tendo um forte elo entre o presente e o passado do escritor, porém de uma forma um pouco confusa. A gente se perde diante de alguns personagens, tais como os galos de briga, que ocupam o vasto espaço do terceiro conto e não levam a uma conclusão tão clara como o autor esperou.

O livro continua por mais três contos, sendo “Monte Castelo” o conto que mais me agradou, pois apresenta um cenário lúdico de uma infância cheia de imaginação, mas também o confronto desta inocência com a crua realidade. Voltamos para aquele confronto que tinha falado antes, né? Daquela convergência que faz o leitor se identificar com personagens e suas histórias. Dá pra sentir também certa vitalidade, tanto da criança como do escritor; dá pra ver, sob “o mastro da pedra da Gávea, a batalha entre a noite o dia”, como o autor descreve. Neste conto a gente consegue realmente se projetar na obra.

No geral, O que não existe mais é um livro fácil de ser lido, com suas complexidades, mas também com seus bancos de areia, deixando em alguns momentos pontos rasos para o leitor. Mas a obra tem o seus méritos, sim. Apresenta perspectivas do passado do escritor, onde o mesmo não identifica até onde a realidade destes fatos se misturam com a ficção, e essa proposital não identificação nos detalhes é especial por obrigar o leitor a entender até onde nossas vidas são compostas dessa maneira. Parafraseando agora um amigo meu, posso terminar este texto com uma colocação importante dita por ele, “que a vida é feita de ficções e o papel da literatura é o de pôr os dragões e os duendes”.