Baile Perfumado: um grande marco para o cinema brasileiro contemporâneo

Continuando com a série de críticas de filmes pernambucanos, chegou a vez do novo: o filme “Baile Perfumado (1997), de Lírio Ferreira (mesmo diretor de “Árido Movie”, minha última crítica) e Paulo Caldas. Mas como é que um filme com mais de 16 anos desde a data de lançamento pode ainda ser considerado novo? Porque foi o primeiro filme a tratar o imaginário que a coletividade tem do Nordeste (cangaço, coronelismo, seca, dentre outros aspectos) a partir de um ponto de vista diferenciado, até mesmo criativo e bem-humorado.

“Baile Perfumado” ilustra a saga do lendário comerciante do Líbano, Benjamin Abrahão (no filme, interpretado por Duda Mamberti). Achando que ficaria rico com a venda de imagens de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião (Luiz Carlos Vasconcelos), o comerciante infiltra-se no grupo para colher as imagens do famoso criminoso. Para chegar ao cangaceiro, o libanês conta, além de suas habilidades mercantilistas, com a amizade de Padre Cícero, outra personagem importantíssima da história da região.

Registro feito pelo comerciante libanês do bando de Lampião

Na sinopse, nada demais. Mas os dez primeiros minutos (e o restante de “Baile Perfumado”) já são capazes de desconstruir a principal idealização do movimento cangaceiro: aqui, Lampião é descrito como um homem burguês encantado pelos avanços tecnológicos que chegavam a região – o cinematógrafo, a câmera fotográfica, a garrafa térmica. Além disso, o filme mostra o rei do cangaço apaixonado por uísque escocês, por perfume francês e por bailes promovidos no meio do sertão (daí o nome do filme, “Baile Perfumado”). Ninguém poderia imaginar uma das figuras mais sisudas da história do Brasil por uma perspectiva tão boêmia. Pois bem, toda essa descrição acima não partiu da cabeça dos diretores. Na montagem da obra, a dupla de direção utiliza algumas pontuais cenas filmadas por Benjamin em 1936 para o longa “Lampião, o Rei do Cangaço”, exibido em 1959. São justamente as tais cenas com caráter real que documentam um lado pitoresco do herói dos pobres.

Baile Perfumado traz a história de Benjamin Abrahão, único que registrou imagens de Lampião

Nesse sentido, ao construir um roteiro um tanto que fantasioso para contar esse acontecimento histórico, a equipe técnica evita a unilateralidade do tom documental, mas não o perde completamente de vista. Assim, “Baile Perfumado” traz uma reflexão atemporal, madura e rica em diversidade, assim como a região de que trata o filme. O “Lampião Pop” é embalado pela voz de Chico Science e pelo manguebeat da Nação Zumbi, dois fenômenos musicais efervescentes no Recife dos anos 1990. Outro elemento técnico que desperta a atenção do espectador é a qualidade do elenco: Duda Mamberte está inspiradíssimo e nos presenteia com um Benjamin de sotaque libanês marcante e Luiz Carlos Vasconcelos, nordestino nato, é bastante convincente como o temido cangaceiro. Uma fotografia aérea, mostrando um sertão verde também é um elemento que corrobora para o diferencial do filme.

A realidade se mistura com a ficção (ou vice-versa): filme
brinca com os registros originais e tem cenas em preto e branco

Com tantos novos elementos, agora fica um pouco mais fácil compreender que o filme inaugurou a mudança de paradigma da representação do Sertão no cinema nacional, ainda mais em 1997 – período no qual o Brasil engatinhava no movimento de retomada das produções audiovisuais depois que Collor extinguiu a Embrafilme, no começo da década. O filme fez fãs e conquistou a crítica especializada da época, sendo considerado duplamente essencial: para o cinema pernambucano e nacional. Mas também é essencial para aqueles cinéfilos amantes de obras originais e de propostas cinematográficas diferenciadas. Como diz a frase de um crítico de cinema da folha de São Paulo: “Baile Perfumado é uma entrada lateral no sertão: pela imagem, pelo que existe, não pelo que já conhecemos”.