Sofia Coppola até tentou. Pegou ela mesma os direitos da história da gangue de adolescentes que furtou, entre 2008 e 2009, o equivalente a três milhões de dólares de celebridades norte-americanas e debruçou-se na difícil tarefa de escrever um roteiro e dirigir o filme. A certa altura, a filha de Francis Ford Coppola (um dos produtores executivos do longa) deve ter tido consciência de que seu projeto não “vingaria” da forma esperada, mas talvez fosse muito tarde para voltar atrás. O resultado foi decepcionante. Um filme sem conteúdo, ação, aprofundamento, ou mesmo recursos técnicos, para manchar um currículo que não podemos chamar de excelente, mas bastante elogioso.

 

“Bling Ring – A Gangue de Hollywood”, ou apenas “The Bling Ring” (título original nos Estados Unidos) conta uma história que não merece mais que uma matéria de revista, tanto que o filme foi baseado justamente em um artigo para a Vanity Fair, assinado por Nancy Jo Sales. A jornalista, inclusive, se torna uma dos personagens do filme de Sofia Coppola, mas é apresentada de forma superficial. Bem, nada mais justo para um filme que não consegue sequer aprofundar os seus protagonistas, a gangue de jovens que, encantada pela fama e pela proximidade com seus ídolos e o mundo que eles representavam, começam a arrombar casas de celebridades e furtar roupas, joias e objetos. Dentre as vítimas (reais, que também são as mesmas no filme) estão: Paris Hilton, Lindsay Lohan, Rachel Bilson, Audrina Patridge e Orlando Bloom.

Cogito a possibilidade de que o “vazio” que o filme representa seja uma analogia ao vazio do caminho da fama explorado pelos jovens. Contudo, penso que se foi essa mesma a intenção da diretora, trata-se de uma escolha arriscada e que, ao meu ver, não funcionou. No filme, os nomes dos personagens reais são alterados e nenhum parece fisicamente com os seus equivalentes reais. Sofia não aprofunda verdadeiramente a personalidade de nenhum dos cinco integrantes do grupo. Os que mais ganham visibilidade no decorrer do filme são Rebecca (nome falso para Rachel Lee) e Marc (nome falso de Nick Prugo), interpretados por Katie Chang e Israel Broussard, respectivamente. Ainda assim, ao fim da obra (que ainda consegue o prodígio de durar 90 minutos) pouco sabemos sobre suas vidas, além do fato de serem imprudentes e terem participado dos roubos em questão.

Emma Watson interpreta a personagem Nicki, que na realidade chama-se Alexis Neiers

Durante todo o longa, uma mesma situação é retratada, o que torna o filme um tanto entendiante: os adolescentes stalkeiam seus ídolos online, descobrem onde moram e quando estarão fora de suas casas, então planejam a “visita”, facilmente burlam as seguranças das casas (algumas locações são as casas reais das estrelas), mexem em todos os cômodos, divertem-se, tiram fotos e levam algumas “lembranças” do passeio. Em seguida, é claro, terminam as noites em baladas onde podem exibir os novos artigos de luxo furtados. A mesma situação se repete inúmeras vezes, em um ritmo quase agoniante, chegando a forçar a barra da câmera lenta em cenas sem qualquer importância ou densidade. O filme só muda um pouco o rumo quase ao fim da história, quando a gangue é descoberta e julgada. Um alívio para o espectador que a essa altura já se pergunta qual a necessidade de repetir tantas vezes detalhadamente uma mesma ação. A resposta é simples: Sofia não tinha o que espremer de uma história dessas. Uma saída seria fazer uma nova pesquisa com os integrantes da gangue e tentar focar um pouco em suas vidas pessoais e personalidades. Isso talvez (e apenas talvez) tornaria a história mais interessante. Mas, nas atuais circunstâncias, um documentário de vinte minutos seria mais que suficiente.

Para tentar fazer do filme mais atraente, Sofia Coppola aposta em alguns elementos: a presença de Emma Watson, que não é a líder da gangue, mas possui lugar de destaque na história; a rápida aparição de algumas celebridades, como Paris Hilton e Kirsten Dunst (que deve ter aceitado o convite como um favor para a diretora, que é amiga e parceira de longa data da atriz); e a trilha sonora pop eletrônica, que a todo instante aparece na tentativa de dinamizar mais as cenas. Emma Watson tem se mostrado a cada nova produção uma atriz de talento e livre dos estigmas que sua personagem mais famosa (Hermione Granger, da saga Harry Potter) poderia lhe deixar. Contudo, em “The Bling Ring”, não aparece o suficiente para reafirmar sua competência e a ausência de densidade de sua personagem também se torna um entrave. “The Bling Ring” pode ter sido uma boa porta de entrada para outros protagonistas, mas para Watson, não passa de um trabalho completamente dispensável em seu currículo.

Parte do elenco do filme: Katie Chang (Rebecca), Israel Broussard (Marc) e Claire Julien (Chloe)

“The Bling Ring” é um daqueles filmes que, mesmo curto, se tornam longos. A questão aqui não é a competência dos atores, ou mesmo da diretora em seu papel. A impressão que fica é que a tentativa foi válida, e houve esforço, mas nem mesmo a experiência de Sofia Coppola foi suficiente para fazer a história render. Há quem possa colocar a culpa nos singelos 8 milhões direcionados para o orçamento do filme. A minha opinião é que se houvesse mais dinheiro envolvido só seria mais vergonhoso para uma produção cujo argumento já era fracassado.

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