Boyhood é um extraordinário filme ordinário

Para o título desse texto, tomei a liberdade de parafrasear a fala de Patricia Arquette ao receber o prêmio de melhor atriz no prêmio da Academia Britânica 2015 por sua atuação em Boyhood: “Richard Linklater transformou um filme normal em extraordinário”. Foi a definição mais precisa e certeira que já tive para a obra.

O grande destaque de Boyhood é a direção honesta, esforçada e determinada de Richard Linklater. Ora, não é fácil manter a crença e o gás por um projeto durante tanto tempo. Richard não só o fez como foi também o responsável por estimular um equipe de produtores, atores, fotógrafos e outros a continuar acreditando no resultado daquela ideia. O diretor foi ambicioso, confrontou as regras básicas do cinema e misturou sua arte com a vida real, entregando um produto admirável.

Para tornar o filme mais realista, Richard, além da escolha por conservar um mesmo elenco pelo espaço de tempo de doze anos, optou por contar uma história sobre a vida real. O espectador não deve esperar clímax, muito menos momentos de tensão ou uma narrativa pensada para desaguar em um final incrível. Em Boyhood vemos literalmente a vida passar. Em algum momento da obra, as mudanças mais curiosas que percebemos são as transformações de visual dos personagens (em especial, do cabelo do protagonista). Nem por isso o filme se torna menos grandioso. Penso que é justamente a coragem de desafiar os dogmas cinematográficos e se propor a ser mais que um filme, mas um retrato fiel da passagem do tempo, sob o ponto de vista de um personagem que inicia sua saga criança e termina adentrando a fase adulta, que torna Boyhood um filme tão primoroso.

Ethan Hawke em cena com Lorelei Linklater e
Ethan Hawke em cena com Lorelei Linklater e Ellar Coltrane

A configuração escolhida por Linklater para seu roteiro trouxe pontos positivos e negativos para a obra. Comecemos pelos méritos. Uma das características que mais cativam no filme são as referências de gerações que o diretor fez questão de inserir: Harry Potter, Britney Spears, desenhos animados, a popularização dos computadores são detalhes mínimos que se maximizam na proposta do filme e cativam o espectador que se relacionou de certa forma com alguma (ou várias) dessas referências.

Patricia Arquette e Ellar Coltrane
Patricia Arquette e Ellar Coltrane

Richard Linklater também conseguiu, arrisco dizer, alcançar o máximo de realismo que se pode obter de um filme de ficção. Por várias vezes, enquanto assistia ao filme, me perguntava o quanto daquela história estaria relacionada à vida do elenco escalado. Por sinal, o elenco é todo formado por atores desconhecidos ou não tão conhecidos (como é o caso de Ethan Hawke e Patricia Arquette) e podemos perceber com clareza o crescimento (ou decrescimento) de seus trabalhos durante o filme. Patricia Arquette, por exemplo, começou como uma apática mãe solteira em uma interpretação quase amadora e, ao fim da obra, sua postura era a de uma mulher forte que conquistara seu espaço na vida e na tela, em uma atuação muito mais convincente. O caminho oposto foi percorrido por Lorelei Linklater, que destaca-se no início do filme e parece quase desinteressada ao final da obra. A constante foi mantida por Ethan Hawke (sempre incrível como Mason Evans) e pelo protagonista Ellar Coltrane, que não cativa em nenhum momento como Mason Evans Jr.

Sobre pontos negativos, creio que o maior acerto de Boyhood é também o seu maior comprometimento: a escolha de fugir aos padrões acarreta em um filme cansativo de quase três horas e que parece muitas vezes sem foco, impacientando o espectador que não consegue encantar-se pela proposta.

Contudo, no pesar da balança, temos aqui um filme cujo maior mérito é desafiar a ordem. Como produto cinematográfico, Boyhood deixa a desejar. Mas é um erro analisá-lo apenas dessa forma, quando temos em xeque um trabalho quase antropológico de um diretor corajoso. Por esse motivo, Boyhood é um marco, se tornará referência para muitos, e merece, sim, quantos prêmios puder arrebatar.