Viggo Mortensen e seu clã em Capitão Fantástico

‘Capitão Fantástico’: Uma Família Fantástica

Na cena mais genial de Capitão Fantástico (Captain Fantastic, 2016), um grupo de crianças levadas ao seu limite intelectual e físico e vivendo nos confins da civilização se depara com o americano “médio”, em seus corpos sobrecarregados de gordura e com movimentos lentos e inseguros. Em um misto de pena e curiosidade, as crianças se questionam: estariam eles doentes?

A resposta obviamente é sim, mas para os padrões da sociedade urbana ocidental contemporânea, alguns quilos a mais não assombram pelo potencial risco à saúde, mas sim pela estética. O mundo em que esses seres doentes e sobrecarregados vivem evoluiu para ser o mais cômodo possível, exigir pequeno gasto de energia, ao mesmo tempo em que aumenta a oferta de alimentos industrializados e gordos, muito gordos. É um mundo de entretenimento barato e de pouco raciocínio, onde as informações (assim como a carne dos hambúrgueres) são entregues previamente mastigadas e manipuladas e os eufemismos enterram verdades simples e as impede de ver a luz do sol.

Viggo Mortensen em Capitão Fantástico.

O diretor e roteirista Matt Ross apresenta uma história em iguais partes de fuga, resistência e descoberta. Seu personagem principal, Ben (em grande interpretação de Viggo Mortensen) e sua esposa, cansados da sociedade moderna, resolvem fugir e criar seus filhos nas florestas do Noroeste dos EUA, buscando formar uma micro sociedade livre das hipocrisias do mundo atual. Ali, o plástico e o descartável dão lugar à durabilidade dos potes de vidro reutilizáveis; as frutas e legumes não são comprados, mas plantados; a carne não surge magicamente em uma bandeja de isopor no supermercado, mas é caçada; o conhecimento não é picotado e regurgitado em artigos, revistas ou livros didáticos, mas construído através de livros e da discussão livre. E a verdade, não importa quão dura, impera, destroça eufemismos sem piedade.

Não há dúvidas de que há amor e carinho na relação, mas fica evidente que a obsessão de Ben na busca de criar “os futuros líderes do amanhã” acaba esbarrando no fascismo. Na vida do Clã, os dias são longos, os exercícios são extenuantes e a exigência intelectual idem, e os fracassos são corrigidos com treinamentos ainda mais intensos. É certo que os filhos de Ben se tornaram crianças e jovens extraordinários, mas a que custo? No final, impressiona que, por trás de todo o esforço, a verdade é que neste regime não se estão preparando os futuros líderes da sociedade, mas treinando pessoas a viver à margem da sociedade.

Samantha Isler em Capitão Fantástico.

É no enfrentamento da sociedade que surgem os melhores momentos do filme. Um acontecimento trágico leva o clã a se aventurar em um ônibus escolar fora de seu refúgio, mostrando claramente todas as virtudes e problemas do experimento de Ben. As crianças claramente foram muito bem preparadas. Mas para o que?

Há momentos de extraordinária beleza na fotografia do filme, em que é possível contemplar toda a natureza que ignoramos em nosso dia a dia em função da artificialidade do nosso meio, mas as ideias discutidas se sobressaem ao restante do espetáculo. Afinal, todos queremos ser bons pais, queremos o melhor para os nossos filhos, mas até que ponto deve-se controlar e sobrepor o desenvolvimento de uma criança ou ajudá-la a encontrar seu próprio caminho? Ao mesmo tempo, nos faz refletir sobre todas as “facilidades” da vida urbana, que acabam se tornando prisões construídas por nós mesmos.

A beleza dos grandes cenários naturais.

Capitão Fantástico não é um filme perfeito, mas é o tipo de filme independente com boas ideias e que trata o espectador como um ser inteligente, capaz de entender a complexidade da situação dos personagens e, ao meu ver, merece sua atenção.