Cartas do Papai Noel: um fragmento da intimidade de J. R. R. Tolkien

Estava em uma das minhas infindáveis visitas mensais à Saraiva quando me deparei com uma capa de livro do estilo que gosto: a primeira coisa que vi foi o rubro, em tons diferentes, que lembravam um encadernado em couro. No centro da capa, um discreto desenho de um dos personagens mais conhecidos no mundo: o Papai Noel. Abaixo dele, um nome tão inconfundível quanto respeitado para qualquer leitor assíduo: J. R. R. Tolkien (Sir John Ronald Reuel Tolkien). Apesar de ter tido vasta e admirável atuação em outras áreas, sobretudo a acadêmica, é impossível não associar imediatamente o nome com a literatura fantástica, sobretudo com o admirável mundo de “O Senhor dos Anéis”.

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“Cartas do Papai Noel”, contudo, não traz o universo da Terra Média, nem muito menos anões, orcs e hobbits. Até mesmo os elfos dos dois mundos criados são diferentes. O livro, que é descrito em sua capa como sendo “as memoráveis cartas e desenhos de Tolkien para os filhos”, tem como protagonistas o Papai Noel, ursos polares, e elfos que vivem na chamada “Casa do Penhasco”, no Polo Norte. Obviamente, os quatro filhos de Tolkien (John, Michael, Christopher e Priscilla) também ocupam papel fundamental nas histórias, uma vez que cada carta escrita e desenho feito por Tolkien durante 1920 a 1943 foram direcionados para as crianças, acompanhando seus crescimentos e estimulando a fantasia em suas vidas, enquanto ainda podiam crer nela.

Leitura Dez
Capa do livro “Cartas do Papai Noel”, publicado pela Martins Fontes

Quando peguei o livro imaginei cartaz sensíveis, em que Tolkien se fazia passar pelo bom velhinho, e dava dicas com viés moral e conselhos para os filhos. Ledo engano, em se tratando de um legítimo criador e contador de histórias. Tolkien se mostra tão cuidadoso com as histórias que seriam lidas unicamente pelos filhos quanto com as narrativas que ganharam as estantes de milhares de outras crianças e adolescentes. Talvez por isso a editora inglesa HarperCollins primeiramente decidiu transformar as cartas em um livro, e a ideia foi copiada pela brasileira Martins Fontes, que presenteou os leitores do Brasil com uma linda e bem feita edição dos momentos familiares de Tolkien, nos quais ele se dedicou, através de sua arte, a sua família, provando que sempre foi, antes de tudo, um admirável escritor.

Em 168 páginas, “Cartas do Papai Noel” é um apanhado de todas as correspondências natalinas enviadas por Tolkien para os filhos, quase sempre acompanhadas de um (ou mais de um) desenho. Nas cartas, Tolkien monta seus personagens de forma a facilitar a identificação e a construção de suas personalidades. É impossível, ao fim das cartas, não ter criado uma afeição pelo “Father Nicholas Christmas” ou Papai Noel, ou mesmo não ter se acostumado com os erros e graças do seu fiel escudeiro, o Urso Polar.

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No decorrer das páginas do livro, conhecemos também elfos, partilhamos das aventuras do Papai Noel (como por exemplo quando precisa mudar de casa, ou no episódio da guerras dos trasgos) ao mesmo tempo em que acompanhamos o crescimentos dos filhos de Tolkien. Progressivamente, os destinatários vão sendo alterados: no início as cartas eram destinadas ao filho mais velho, John; com o tempo o nome de Michael entrou no campo de endereço, depois Christopher, ao mesmo tempo em que os outros nomes eram retirados. A última carta é direcionada apenas à filha caçula, Priscilla Tolkien, sempre com os votos de felicidades para os outros três irmãos.

Também nessa obra, que poderia ser algo um pouco mais “descuidada”, visto que é (primeiramente) direcionada a um público menor e menos exigente, Tolkien faz questão de ser genial. Cria um alfabeto próprio, sotaques e formas para cada personagem. Preocupa-se com a montagem de um universo próprio e às vezes as cartas chegam a várias laudas, apenas narrando os acontecidos do ano na Casa do Penhasco.

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Os desenhos são uma obra de arte à parte, revelando um multiartista que, além de escritor, é também um tímido mas competente desenhista. Também aspectos da história mundial são mencionados nas cartas, revelando que até mesmo o Papai Noel de Tolkien era atingido por eventos como a II Guerra Mundial, por exemplo. Contudo, o que mais chama atenção na obra como um todo é a disciplina e determinação de Tolkien na missão de manter vivo o espírito do Natal e o mundo da fantasia no imaginário de seus filhos. O que poderia ser uma carta pontual, sem sequência, se tornou uma coletânea linda que ultrapassou os limites das caixas de correio durante vinte e três anos para se tornar uma notável obra literária, digna de um dos maiores gênios da literatura moderna. Tolkien não desaponta, e consegue fundir perfeitamente duas grandes funções: a de escritor e a de pai.