Não é de hoje que o americano David O. Russell emplaca seus filmes nas principais categorias de todas as maiores premiações estadunidenses e algumas estrangeiras. O Vencedor (2010) recebeu sete indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, tendo vencido duas delas: Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante, para Christian Bale e Melissa Leo, respectivamente. Dois anos depois, em 2012, veio O Lado Bom da Vida. Esse, por sua vez, conseguiu oito indicações, sete das quais em categorias consideradas mais relevantes (melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor atriz, melhor ator coadjuvante, melhor atriz coadjuvante e melhor roteiro), mas ganhou apenas uma estatueta, a de Melhor Atriz para Jennifer Lawrence que, a partir daí, se tornou a atriz da nova geração mais querida e cobiçada de Hollywood. A atriz não tinha um elenco de grandes concorrentes no ano, mas derrubou duas veteranas, Naomi Watts, por O Impossível, e a grande merecedora do prêmio, a francesa Emmanuelle Riva, pelo belíssimo filme austríaco Amour.

Jennifer Lawrence (Rosalyn Rosenfeld) e Amy Adams (Sydney Prosser) se destacam como duas mulheres de personalidade forte  em "Trapaça"

Jennifer Lawrence (Rosalyn Rosenfeld) e Amy Adams (Sydney Prosser) se destacam como duas mulheres de personalidade forte em “Trapaça”

Se o prêmio foi justo ou não, esse é material para discussões de Facebook, mas a questão é que ele veio, e agregou mais valor para o filme seguinte de Russell, American Hustle, em português, Trapaça, que também tem Jennifer Lawrence em seu elenco. Sabiamente, a garota não foi colocada como protagonista, considerando que é muito improvável que a Academia conceda dois Oscars seguidos para um mesmo ator nas mesmas categorias. Apesar de ser o mais fraco dos três filmes, Trapaça emplacou dez indicações. Como já era de se esperar, uma delas é a de melhor atriz coadjuvante para Lawrence, e as outras são: melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor atriz, melhor ator coadjuvante, melhor roteiro, melhor edição, melhor figurino e melhor direção de arte. Além disso, atribuo um mérito a mais a David O. Russell: conseguir elencar um esforçado, porém fraco Bradley Cooper na lista dos indicados a melhor ator (principal e coadjuvante) por dois anos seguidos.

Bradley Cooper e Christian Bale são o agente Richie DiMaso e o vigarista Irving Rosenfeld

Bradley Cooper e Christian Bale são o agente Richie DiMaso e o vigarista Irving Rosenfeld

Feita toda a introdução para situar o leitor, vamos à crítica de Trapaça. O filme é inspirado na operação do FBI ABSCAM, que aconteceu no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. O diretor foi prudente em alertar, já no início do filme, que “alguns desses fatos realmente aconteceram”, deixando claro que trata-se de uma adaptação livre, sem a pretensão de ser realmente fiel a história. Outros diretores poderiam utilizar-se da mesma técnica quando tivessem a intenção de mudar os fatos em prol da comercialização da sua obra.

No filme, temos como protagonistas Irving Rosenfeld (Christian Bale) e Sydney Prosser (Amy Adams), dois golpistas que são convocados pelo agente do FBI, Richie DiMaso (Bradley Cooper), para participar de uma operação que visava desmascarar as operações corruptas de políticos e mafiosos. Como tempero da história, temos Rosalyn (Jennifer Lawrence), a neurótica, manipuladora e imprevisível esposa de Irving, que a cada aparição traz consigo boas risadas e um desequilíbrio positivo para o roteiro.

Jennifer Lawrence em uma das cenas mais cômicas do filme

Jennifer Lawrence em uma das cenas mais cômicas do filme

Todo o elenco principal já trabalhara anteriormente com Russell em O Vencedor ou O Lado Bom da Vida, e tanto Bale como Lawrence (ambos indicados este ano) já receberam o Oscar antes por suas parcerias com o diretor. Além deles, também temos a ilustre aparição de Robert De Niro, também parceiro de filmes de Russell, em um papel com o qual ele está bastante familiarizado: um gângster. O elenco como um todo está afiado. À propósito, se existisse uma categoria de “melhor elenco” no Oscar, tal qual no SAG Awards, certamente iria para a compatibilidade dos atores e atrizes de Trapaça. Individualmente, todos também fazem um trabalho primoroso, mas nada excepcional. Bradley Cooper é o mais fraco do grupo, mas esforça-se para acompanhar o ritmo dos colegas de elenco.

Li muitos colegas e críticos dizerem que Jennifer Lawrence é a melhor parte do filme e destaca-se como a melhor atuação. Discordo. Penso que Amy Adams encontra-se em melhor forma que Lawrence, e dá vida a uma personagem que consegue ser sensual, inteligente e marcante. Ao contrário da Rosalyn de Lawrence, a Sydney de Amy Adams não é caricata ou tem características que podem servir de muleta para a sua atuação, o que a torna ainda mais complicada. Já Jennifer Lawrence ganha de presente uma personagem cheia de trejeitos, exagerada e engraçada, qualquer atriz com alguma competência poderia fazer um bom trabalho com Rosalyn. Durante o filme, inclusive, imaginei uma Scarlett Johansson no papel, que além de todo o talento, ainda tem mais maturidade e sensualidade que Lawrence. No auge de seus 23 anos, a atriz ainda tem uma expressão adolescente, o que não favorece a sensualidade necessária para compor Rosalyn. Ainda assim, vamos dar à atriz o mérito que lhe pertence: Lawrence conseguiu dar o seu melhor na personagem, e não deixou a desejar em sua atuação. Ao contrário: até surpreendeu.

Amy Adams está excelente como a  inteligente e sedutora golpista Sydney Prosser

Amy Adams está excelente como a inteligente e sedutora golpista Sydney Prosser

Outro ponto forte do filme é a trilha sonora. Assinada pelo prestigiado Danny Elfman (Alice no País das Maravilhas), devemos convir que o trilheiro não teve muito trabalho além do de selecionar músicas icônicas dos anos 70 e início dos anos 80. Contudo, a música do filme passeia por outras décadas, como é o caso da deliciosa “Jeeps Blues” (anos 50), de Duke Ellignton, que abre o filme. Todas as músicas se encaixam de uma forma tão peculiar às cenas que, após assistir ao filme, é impossível ouvir as faixas e não remeter à película. Para mim, esse trabalho merecia uma indicação ao Oscar, mas o filme acabou prejudicado pela ausência de uma trilha original. Um destaque é a performance de Jennifer Lawrence de Live and Let It Die, de Paul e Linda McCartney. Impagável!

Jennifer Lawrence em sua performance de "Live and Let It Die", canção presente na trilha sonora

Jennifer Lawrence em sua performance de “Live and Let It Die”, canção presente na trilha sonora

Contudo, apesar de emaranhar uma porção de pontos positivos (todos os já citados, para não falar do figurino, maquiagem, fotografia, direção de arte como um todo), Trapaça peca em um aspecto fundamental: o seu roteiro. Na tentativa de ser inteligente e engraçado, o texto de Russell acaba se perdendo, deixando alguns fios soltos. Quando se trata de um roteiro mais simples, como é o caso de O Lado Bom da Vida, David O. Russell sabe bem como transformá-lo em algo grandioso. Mas ao pegar uma histórica complexa e tentar atribuir-lhe sua marca, o diretor e roteirista acaba entregando uma porção de boas cenas que, juntas, não conseguem se unificar em um roteiro genial. O excesso de personagens também prejudica no desenvolvimento da história de alguns deles, e, mesmo após assistir ao filme pela segunda vez, ainda me senti um pouco perdida na história ao deixar a sala de cinema.

Cartaz de "Trapaça", em inglês

Cartaz de “Trapaça”, em inglês

Por fim, penso que para as premiações deste ano, a grife de Trapaça pesou mais que o filme em si.  Não me surpreenderia se, no resultado final do Oscar, o filme com maior número de indicações saísse como o grande fiasco da noite. Para finalizar o texto, como bônus, deixo com vocês um vídeo (divertidíssimo) a que tive acesso por esses dias. Trata-se de uma brincadeira ao fato de que Jennifer Lawrence caiu nas graças de todos, com referências a suas atuações, parcerias e aparições públicas. Assistam e deem boas risadas:

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