Watchmen: uma graphic novel de 27 anos com conceitos mais atuais do que você imagina

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Com todo prazer e honra do mundo vamos falar sobre esse que é considerado como uma das melhores histórias em quadrinhos já feitas: Watchmen! Mas antes de analisarmos, vamos falar um pouco de sua história. A década de 80 foi um período não tão turbulento, mas que pôs à prova ideologias, luta por direitos humanos, isso em plena Guerra Fria, então foi um momento de muitas mudanças, com leis, constituição, tratados e etc. E nesse clima, as mídias, como filmes e séries, começaram a abordar assuntos mais sérios, como Star Trek que não foi apenas um seriado nerd de ficção científica, com alienígenas e espaçonaves, não. Nele havia discussões sobre direitos humanos, conceitos éticos, havia toda uma abordagem de assuntos atuais que empregava aquele universo deixando mais realista de como seria se aquilo realmente fosse acontecer.

Então nessa “vibe”, a DC Comics tinha heróis mais urbanos e realistas que faziam jus a causa. A DC. interessada nesse contexto, foi até a Inglaterra, lá encontraram dois caras com grande potencial. Eles eram os mestres louva-deuses Alan Moore e Dave Gibbons, o primeiro, escritor, e o segundo, ilustrador.

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Alan Moore e Dave Gibbons cortando o bolo em comemoração ao sucesso de “Watchmen”

Com isso a DC dera plena liberdade a eles para fazerem algo novo, originalmente a história deveria se passar com esses heróis mais realistas que o selo já tinha, mas como a ideia deles era muito grande, tiveram que fazer personagens novos, com elementos dos já existentes.

Foi aí que veio Watchmen, uma HQ diferente de qualquer outra já feita, com elementos mais sérios, e heróis tão humanos como qualquer um de nós, dotados de dúvidas e problemas. Watchmen é a chamada “graphic novel”, uma espécie de quadrinho que tem uma história longa que se inicia e é fechada em um único exemplar. Muitas vezes, essas HQs não tem qualquer relação com outro universo. Com uma pegada mais autoral, as narrativas são diferentes de qualquer outra, por serem menos lúdicas. As graphic novels surgiram em meados dos anos oitenta em uma época de ideologias e discussões, porém não tinham tanta visibilidade. As coisas mudaram quando Watchmen foi lançada, sendo um sucesso imbatível, considerada a HQ precursora desse novo estilo. A HQ trazia conteúdo mais adulto, realista, com discussões éticas e étnicas, o que fez dela um sucesso, mudou tudo a partir dali.

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Dr. Manhattan

Agora vamos ao que interessa. “Watchmen” é um livro que contém elementos da ação e aventura, escrito por Alan Moore (Batman: A piada mortal; V de Vingança; Monstro do Pântano) e desenhado por Dave Gibbons. Watchmen foi distribuída pela DC Comics em 12 volumes no ano de 1986.

A história se passa no ano de 1985, nos Estados Unidos, em um mundo distópico. Nessa história alternativa, heróis e vigilantes são normais, a ciência está avançada, graças ao Dr. Manhattan. A trama principal investiga coisas estranhas que acontecem com as pessoas (que antes eram heróis) e o estopim é o assassinato do, já aposentado, Edward Blake, mais conhecido por seu nome de super herói, Comediante. Watchmen tem uma metalinguística muito peculiar, pois não é só uma história, mas é o desenrolar de várias outras.

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Os Vigilantes

Na história, os Estados Unidos contratam esses heróis, chamados de “vigilantes”, para lutarem na Guerra do Vietnã, fazendo deles  a grande potência mundial temida por todos no front. Os protagonistas são a terceira geração do  grupo Os Minutemen, ou “homens-minuto”, heróis da década de 1940 que foram obrigados a revelar suas identidades para o governo, deixando de ser heróis. Esta primeira geração estava mais para um bando de pessoas que gostavam de super-heróis e se fantasiavam como eles. Na segunda geração que a coisa fica mais séria com pessoas habilidosas e fazendo jus a causa e a terceira é onde temos nossos personagens principais e também os mais fortes, os quais vão para essa guerra.

O grande empecilho e problemática é a Lei Keene, onde os vigilantes têm de se registrarem no governo. E é aí que está o cerne de Watchmen: os heróis estavam ali para proteger a sociedade, queriam fazer o bem, foram para a guerra iludidos que estavam fazendo o bem, e ao regressarem e com a criação da lei, muitos mascarados se aposentam, porque ali eles não eram mais heróis. Moore cria outro conceito de herói, tanto que na trama ele os chama de “aventureiros fantasiados”.

Os Personagens

Silk Spectre

Espectal 2: Laurel, ou Lourie, é uma mulher forçada a viver a sombra da sua mãe que foi a primeira Espectral, na segunda geração, e pagar pelos erros que ela cometeu no passado. Depois da Lei Keene ela se aposentou, se casou com Dr. Manhanttan, o relacionamento vive uma tensão, uma vez que seu marido é quase uma divindade e enxergar o mundo de uma maneira diferente. Moore trazia metaforicamente com ela a mulher na sociedade, que na época ainda era muito discriminada.

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Ozymandias : Adrian Veidt, um visionário brilhante e ególatra movido por um obscuro senso de dever. Seu codinome vem de um poema de Percy Bysshe Shelley, que descreve a estátua do rei Ozymandias esquecida no deserto. É um bilionário excêntrico, considerado o homem mais inteligente do mundo. Sua inteligência é tamanha que o torna exímio atleta e lutador, consegue desviar de balas pois calcula a trajetória na hora do disparo. Ele, juntamente com Dr. Manhattam, fez o mundo evoluir bastante. Veidt depois da Lei Keene, se aposentou, mas ele anunciou sua identidade secreta.

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Coruja 2 : Dan Dreiberg, Dan é um intelectual rico, mestre em artes marciais e solitário, ele é o mais “herói” de todos, embora não seja o mais forte, no entanto é o que se identifica mais com aquilo. Dan gosta muito de fazer o bem a sociedade, quando era herói, ele se sentia muito vivo, mas depois da Lei Keene e sua aposentadoria, passou a se considerar um ser desprezível sem objetivo na vida.

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Dr. Manhattan: Jonathan Osterman, ou apenas Jon. Jon nunca pensou em ser um herói, ele era um cientista nuclear, prestes a casar, quando acidentalmente foi desintegrado em uma máquina. Após o incidente seu corpo se refaz com outra forma, o cientista passou a ter grandes poderes e o tornando quase Deus. Jon assume o nome de Dr Manhattan e vira um símbolo para os EUA. Ele consegue manipular a matéria, viajar a lugares muito longe como outros planetas em pouco tempo e ele é um ser onipresente, ele consegue ver apenas o seu passado, presente e futuro simultâneos pela a relatividade do tempo. Dr. Manhattam é o ser mais poderoso que já foi pensando, nem o Superman e o Goku juntos conseguiriam tocar nele, mas essa era a ideia de Alan Moore, ele queria mostrar como seria um cara que é quase um Deus na sociedade e as consequências que este traria à modernidade e religião. Jon enxerga o mundo de outra forma, ao contrário do que muitos pensam, ele tem sim humanidade consigo. Depois da Lei Keene ele se casa com Lourel e começa a trabalhar para o governo em laboratórios, fato que fez o mundo evoluir bastante.

Roscharsch

Rorschach: Walter Kovacs, personagem enigmático, pessimista e com muita força interior, é incapaz de se relacionar normalmente com a sociedade, é considerado por muitos o melhor dos personagens por essas características. Antes de começar como vigilante, ele era uma pessoa neurótica, que teve uma infância muito ruim, conhece bem a podridão do mundo e passou a usar seus conhecimentos contra o crime. Rorschach foi o único a continuar depois da Lei Keene, mas sem se registrar no governo, sendo assim um foragido. É ele quem move o enredo desde o início, investigando esses estranhos fatos que estavam acontecendo com os vigilantes, e reunindo a equipe novamente.

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Comediante:  Edward Blake. Comediante é o remanescente da segunda geração que está na terceira geração. Ele é muito antiético, todos o desprezam, porém é igualmente admirado. Conhecedor das feridas e dores de passar por uma guerra, da podridão que nos cerca no mundo, o Comediante tem esse nome por dizer que o mundo não passa de uma grande piada. A narrativa da trama principal de Watchmen, acrescida ao desenrolar da história e aos flashbacks, o faz ser por muitos, o personagem mais icônico da HQ. Tanto que o símbolo de Watchmen é seu botton, da carinha amarela sorrindo.

Watchmen movie image Jeffrey Dean Morgan as Edward Blake The ComedianWatchmen é um HQ peculiar, seus criadores não pouparam capricho, Alan Moore traz uma nova definição do que é ser um herói, e como seria se existissem no mundo real. O autor consegue explorar muito bem essa diferença entre os heróis maniqueistas vistos nas demais histórias em quadrinhos e os vigilantes de sua obra. Por exemplo, nas primeiras HQ’s do Superman só víamos uma consequência na sociedade, que era de segurança apenas, mas com Dr. Manhattan temos consequência políticas, científicas e religiosas também.

Na leitura, é possível ter uma visão crítica do mundo e de tudo que nos cerca, os governos manipuladores, a lei da sobrevivência, selvagem em que só os mais fortes sobrevivem. Os “vigilantes mascarados” querem proteger a sociedade, mas o governo e a mídia fazem a culpa parecer dos vigilantes. O Comediante consegue ser o mais icônico dos personagens, ele enxerga tudo aquilo e sabe que não tem como mudar aquilo, então trata o mundo como uma piada.

rorschach_relatorioOutra coisa que é bem atual na graphic novel são as ideologias, na história há manifestações contra os vigilantes, contra o governo, mulheres lutando por mais direitos. Também temos uma percepção no mundo geopolítico, onde petróleo não é mais a principal fonte de energia, guerras cessaram mas a rivalidade pelo poder permanece. A impressão é de quanto mais evoluído for o mundo, mais poder as nações desejarão. Então a globalização seria algo bom ou ruim?

Mas o que faz essa HQ ser esplêndida não é só a história mas também a metalinguística. Watchmen tem a trama principal, mas no meio de tudo isso, existe o desenrolar de outras que se completam na história, narrando as histórias de outras geração de vigilantes. Há também a história de um menino que lê em uma banca textos de jornais, citações de trechos de músicas podem ser encontrados nas páginas da obra. É uma leitura fantástica, sempre entre cada capítulo temos uns anexos que complementam o que virá a seguir, em outros momentos são páginas de jornais antigas, contando histórias das gerações passadas, isso é bem legal. São esses detalhes, essa riqueza de narrativa e escrita que fazem Watchmen ser único, não seria de se assustar que a partir dali tudo mudaria.

Depois de Watchmen vimos que os quadrinhos precisavam trazer uma abordagem mais realista e interessante. Então se você está a procura de uma boa literatura, Watchmen é um ótimo conselho, e se você não é muito fã de quadrinhos por não conhecer bem,  mas tem vontade de conhecer, também recomendo. Eu comecei a gostar de quadrinhos a partir da leitura deste clássico de Alan Moore e Dave Gibbons, até porque é só um arco fechado e pronto.

FILM Reviews 2

Elenco de “Watchmen” (2009), filme do diretor Zack Snyder

Com todo esse sucesso a obra derivou um filme, que ficou muito bom, recomendo também. Embora muita gente fale que o filme não tenha sido lá essas coisas, não leve em consideração porque todo fã é chato, ele quer que a adaptação para as telonas de sua HQ favorita seja tão boa quanto. Mas no longa metragem homônimo, Zack Snyder faz um bom trabalho, até me surpreendi. Quando se lê Watchmen você pensa que aquilo só pode funcionar naquela mídia impressa, em papel, e pensa que é inadaptável, mas o filme conseguiu mostrar muita coisa a mais, como a morte do Comediante (que na HQ todos sentem, mas ninguém consegue ver aquela emoção), os mais sensíveis podem chorar no filme na cena do funeral dele com a canção The Sound of Silence. O filme tem ótimos atores, bons efeitos especiais e uma trilha sonora impecável.

Before Watchmen, anúncio

Também foram lançadas novas HQ’s Antes de Watchmen, que pelo nome já informa tratar-se de um prelúdio de Watchmen, mas para o desgosto dos fãs, essas novas histórias não são de autoria de Alan Moore.

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