Há cerca de três semanas assisti a um show lá no Parque das Dunas. Há cerca de três semanas eu me emocionei enormemente com uma artista que canta com alma, uma artista que toma pra si as canções que interpreta. Há cerca de três semanas eu deveria ter escrito um texto sobre Khrystal. Há cerca de três semanas… Infelizmente o corre corre da vida e as várias tarefas não me permitiram escrever em uma data próxima. Mas àqueles que compareceram ao anfiteatro Pau-Brasil do Parque das Dunas no dia 9 de novembro, com certeza sabem bem do que estou falando.

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Os puritanos vão me chamar de oportunista, por pegar o gancho da apresentação da última quinta-feira (28), no programa global, The Voice Brasil, para escrever meu texto. Não me importo com esse lance de que “após a visibilidade do programa agora todo mundo é fãs”, oras, qual o problema do povo querer ouvi-la? Antes Khrystal do que música de pior qualidade. Mas enfim, deixemos os exaltados de lado e falemos do que realmente importa: o talento da cantora.

Normalmente quando vou escrever sobre algum tema tento não ser passional, tento não ser “fã de carteirinha” e me apego aos dados científicos ou mesmo a informações relevantes ao leitor. O que sinto quando ouço Khrystal é uma inquietude, é uma vontade de cantar, de experienciar aqueles timbres e letras. Assistir ao um show de Khrystal é algo maior que isso, é uma experiência ainda mais apurada dos sentidos, certamente posso soar superlativa a você, mas, de fato, me sentir extasiada na ocasião. Apesar de já terem se passado três semanas eu ainda guardo muitas lembranças daquele dia.

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O show teve início às quatro e meia da tarde, era a primeira vez que a “neguinha”, como Khrystal se autodenomina, cantava no Parque das Dunas. Nitidamente contente por estar em contato com o público local, e a plateia igualmente, o resultado foi uma sinergia que há tempos não via. Todos os assentos estavam ocupados, gente que conhecia todas as músicas, a galera do gargalo que além de acompanhar todas as letras, ainda fazia performances. Encontrei vários conhecidos,aquele show mais parecia uma reunião de amigos que não via há tempos.

Por motivos de trabalho, não tive como chegar no início do show, quando cheguei, o bonde já estava andando. O que encontrei ao chegar foram pessoas curiosas, pessoas sorridentes e músicos pra lá de afinados no palco. O repertório trazia as canções do segundo disco da potiguar, “Dois Tempos” (2012), sobre o qual já falamos por aqui. As treze faixas foram muito bem recebidas pelo público, ao menos as que eu a vi cantar, foram elas: “Zona Norte Zona Sul”, “Potiguaras Guarani”, “Esse Meu Baião”, “Sendo Corrego”, “O Trem” e “Compositor”. Do álbum de estreia, Khrystal levantou todos da poltrona com “Coisa de Preto” e pra fechar com chave de ouro, outra música que falava da relação dos negros: “A Carne”.

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A composição que dá nome ao primeiro disco da cantora, “Coisa de Preto”, em seu segundo verso diz: “Sangue de preto tem seu pai, tem sua mãe/ Tem o bonito e o bacana/ Tem o feio e o fuleiro/ Coisa de preto é um passado de sofrença/ É um futuro de esperança/Que virou um samba enredo”. A Neguinha bota pra fora toda emoção e “verdades entaladas”, quando o assunto é falar aquilo que está diante dos nossos olhos e preferimos não ver. Quem já a viu no palco cantando “Zona Norte Zona Sul” com plena convicção “Não tape o sol com a peneira/ Maquiando o cartão postal/Me olhe dentro dos olhos/ Me trate de igual pra igual/ De que lado mora o seu preconceito/ Atravesse a ponte que eu vou lhe mostrar”, entende que a melhor maneira de se mostrar quem se é, é cantando aquilo em que acredita.

Ao final do show, batendo um papo com uma grande amiga que não via há tempos, decidimos comprar “Dois Tempos”, que estava sendo vendido pelo produtor musical, empresário e marido da cantora, Zé Dias. Minha amiga, empolgadíssima com o show disse: “Se você cantar com essa energia e desse jeito no programa, num vai ter pra ninguém, neguinha!”, sábias palavras, Lorraine, sábias palavras!

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Na última apresentação do programa global, Khrystal interpretou “A Carne”, composição de Marcelo Yuka, Seu Jorge, e Ulisses Cappelletti, e finalmente pude senti-la nos palcos globais como no show do Parque das Dunas, desinibida, com sua energia característica, viva e verdadeira! Cantada na voz única de Elza Soares, “A Carne” é um desabafo a vida dura, sofrida e cruel que os negros viveram e vivem. Dando tapa na cara, apontando pro público e sentindo-se na pele de todas as carnes negras que vão parar debaixo de plástico, que vão de graça pro subemprego e pros hospitais psiquiátricos.

Acho que o recado de Khrystal foi dado. Há gente fazendo arte, há gente de talento e com peixeira em punho pra encarar a vida árdua e dura de de ser artista, de ser trabalhador, de ser negro, de ser nordestino e de ser brasileiro por aí afora. Não poderia encerrar esse texto de outra forma senão com esse vídeo que diz muito mais do que eu tentei dizer nesses vários tantos parágrafos, porque na música tem coisas que não se explica, só se sente!

One Response

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    Telma Lucia Ferreira de Melo

    Khrystal me faz sentir ainda mais orgulho de ser nordestina, potiguar e natalense. E parabéns pelo texto, Leila.

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