Zezé (João Guilherme Ávila) é um garoto de seis anos criativo, alegre, um tanto genioso, bastante esperto e, por vezes, “tem o cão nos coros”, como costuma repetir a família. Sobretudo, o menino leva a vida a explorar, seja o que está fora ou dentro da sua cabeça. Nessa brincadeira, cria mundos, passeios, personagens e idealiza o “Portuga” dono do carro mais cobiçado da cidade como o tirano da pequena cidade do interior de Minas Gerais, onde vive. Também tem um pé de laranja lima só seu, a quem Zezé deu o nome de Minguinho, com quem ele conversa, discute e até se aventura pela cidade. Um garoto com imaginação fértil, é verdade, mas normal, certo?

Errado. Embora seja um garoto dócil e sociável na maior parte do tempo, Zezé guarda o rancor de uma vida pelos xingamentos que recebe sempre que faz uma traquinagem e das surras que leva do pai bêbado e das próprias irmãs, que parecem encontrar nesse meio uma forma de “acalmar” Zezé. A verdade é que o hábito pode deixar o garoto quieto por alguns momentos, mas as consequências daquilo ficam marcadas de forma bem particular na vida do menino, a ponto de ele se sentir ainda mais incitado a fazer coisas erradas.

O pequeno Zezé e o pé de laranja lima, Minguinho

“Meu Pé de Laranja Lima” é uma história que gosto de chamar de “universal”. Pode encantar crianças e fazer adultos se derramarem em lágrimas. Mas, no cinema, o formato foi para gente grande. Ou, no mínimo, grandinha. O carioca Marcos Bernstein é roteirista experiente (com sete grande títulos nas costas) e diretor quase amador, tendo sido “Meu Pé de Laranja Lima” o seu segundo longa produzido, fato jamais identificável pela qualidade encontrada em seu novo rebento.

Quem também mostra que o talento pode ultrapassar a necessidade da experiência é o pequeno João Guilherme Ávila, vulgo filho do cantor Leonardo, que encarna o personagem principal com sinceridade e sensibilidade admiráveis para um jovem ator da sua idade. Atrevo-me a dizer que, a nível de competência e presença, Guilherme dá uma surra até no experiente José de Abreu, que interpreta Portuga (ou Manuel), personagem que passa de inimigo imaginário a protetor do garoto no decorrer do filme.

“Meu Pé de Laranja Lima” é uma produção humilde, em todos os sentidos. O diretor tinha consciência dos modestos pouco mais de 3 milhões que detinha e fez uso do dinheiro da melhor forma possível. O segredo foi focar no roteiro, belíssimo por essência, e ser criterioso na seleção do protagonista. Fora isso, coloca-se o rosto familiar de José de Abreu no elenco e duas ou três pontas com Caco Ciocler (que faz Zezé na fase adulta) e já é estrelismo suficiente. O restante do elenco varia entre semi-celebridades e desconhecidos, nem por isso menos competentes.

O Portuga (José de Abreu) e Zezé (João Guilherme Ávila)

Também uso o termo humilde para me referir a ausência de efeitos chamativos e demais espetáculos audiovisuais, no sentido exagerado do termo. O filme tem como pilares diálogos e expressões. Os diálogos não duram mais do que necessitam e mesmo as conversas entre a criança e o pé de laranja lima são sensíveis e, algumas vezes, profundas. Muito também é dito pelos olhos dos atores e pequenos gestos, como por exemplo quando a fotografia faz questão de “fechar” a câmera em toques de mão, abraços e rostos.

Fotografia belíssima e trilha sonora sem exageros e coerente com a proposta do filme ajudam a finalizar o pacote. “Meu Pé de Laranja Lima” é sem dúvidas mais uma excelente produção do período pós-retomada do cinema brasileiro, ao qual, até onde sei, ainda não deram nome, mas pelo nível que vem apontando, bem que merecia.

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