Coringa, e suas variantes discussões ao cinema

O mês de outubro trouxe um lançamento aguardado pelos fãs da DC além de algumas discussões que acercam o filme do diretor Todd Phillips. Coringa narra a história do comediante Arthur Fleck e mostra um personagem com problemas mentais, sendo excluído por uma sociedade tão apática quanto a fria cidade de Gotham que fizeram o vilão sucumbir à loucura.

O Coringa de Phillips trouxe uma abordagem diferente do que é comum ver em adaptações dos quadrinhos para as telas do cinema, o filme solo do arqui-inimigo do Batman é sombrio e dramático, os problemas sociais de Arthur Fleck são realistas e muito bem desenvolvidas na produção. Todavia, ainda que o filme tenha sido aclamado por parte da crítica, e seja uma das grandes apostas para os indicados ao Oscar de 2020, ressaltando a brilhante atuação de Joaquin Phoenix, o longa vem levantando discussões quanto a incitação a violência.

Enquanto isso, a mídia levanta inúmeras discussões sobre como Coringa era um filme perigoso e que usava de gatilhos capazes de incitar situações de violência extrema, usando como exemplos massacres que aconteceram nos Estados Unidos, como o ataque ocorrido em 2012 quando um atirador invadiu o cinema de Aurora, no Colorado, durante a exibição do filme Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, que vitimou 12 pessoas deixando um total 70 feridos – o mesmo cinema recusou a exibição do filme, apesar de não ter divulgado nenhuma nota oficial a respeito.

Durante uma coletiva de imprensa em Los Angeles para o portal IGN, o ator Joaquin Phoenix expressou a seguinte opinião: “Bem, acho que a maioria de nós consegue dizer a diferença entre certo e errado. E aqueles que não conseguem, são capazes de interpretar qualquer coisa do jeito que eles possam querer. As pessoas interpretam mal letras de músicas. Interpretam mal passagens de livros. Então, não acho que seja responsabilidade do cineasta ensinar moralidade à audiência ou a diferença entre o certo e errado. Quer dizer, para mim, isso é muito óbvio”.

A arte não possui obrigação de educar

A jornada de Arthur Fleck mostra um personagem que aos poucos se deixa corromper pela exclusão e violência que sofre por uma sociedade extremamente apática e quase tão problemática quanto os distúrbios mentais do próprio protagonista. Coringa é de certo um filme que possui elementos violentos, porém, a construção da jornada e o tom de empatia com o público tornam-se um elemento essencial para compreender, mas não justificar, sua reação diante dos ataques sofridos, além dos problemas mentais ressaltados no roteiro de Todd Phillips e Scott Silver.

Enquanto aos poucos acompanhamos o surgimento de um vilão, constantemente a direção ressalta a imagem de personagem problemático, com sérios transtornos prestes a ter atitudes extremas. A maneira como a direção conduz as cenas de maior violência não isentam o ato e nem mesmo o protagonista de sua natureza atroz e criminosa.

Coringa levanta um discurso crítico sobre uma sociedade que também partem de atos agressivos. Em meio às polêmicas, a proposta de Phillips trouxe um filme provocativo e reflexivo, pois sejam os jogos, filmes, e a arte de modo geral possui a legitimidade de levantar discussões, entreter e educar sobre diversos temas, porém não existe, de fato, tal obrigação.