“O segredo da força está na vontade”, dizia o político italiano Giuseppe Mazzini. É impressionante o que o ser humano pode realizar quando está munido de uma vontade inabalável. Também é incrível a capacidade que nossa raça tem de distorcer tudo.

Mens sana in corpore sano é um curta-metragem de ficção de 2011, dirigido pelo pernambucano Juliano Dornelles. O filme conta a história de um homem cuja vida gira em torno do próprio corpo. O personagem, sem nome, interpretado por Flávio Danilo, é um personal trainer que divide sua rotina entre seu trabalho em uma academia de elite e seu treino pessoal, realizado em condições precárias. O protagonista tem uma musculatura muito desenvolvida e se prepara, aparentemente, para competições de fisiculturismo.

 

 

No decorrer da história o espectador é imerso no dia-a-dia do protagonista, e nos diversos exercícios ao qual ele submete seu corpo. Fica claro que para o personagem, transformar seu corpo é a meta principal de sua vida, mesmo que tenha de sacrificar alguns prazeres e batalhar consigo mesmo. No entanto, cada resultado exige o seu preço, e em alguns casos o valor pode ser alto.

Pelo que escrevi pode não parecer, mas esta obra é um legítimo filme de terror, evidenciado pela ótima trilha incidental que exala muito suspense e tensão. Aliado a isso, a fotografia de Pedro Sotero, desenvolvida com maestria, nos faz mergulhar no universo do personagem, os diversos planos de músculos tencionados, do suor que brota do corpo, da força física empregada levam quem assiste a uma sensação de exaustão. O som de respiração ofegante e do bater de pesos e halteres também contribui para uma atmosfera agoniante.

O roteiro, escrito pelo diretor em parceria com Daniel Bandeira e Simone Jubert, é original, contém uma narrativa lenta, sem diálogos, mas que funciona perfeitamente, pois cria estranhamento à história, e isso é bom, quando bem feito. Com o passar do tempo as ações ficam mais intensas, ao passo em que a música fica mais caótica, criando o clímax perfeito para o grand finale.

Mens sana in corpore sano é um exemplo de filme em que quase tudo se casa de forma a contribuir positivamente para o resultado final, desde a ideia no papel até a execução da técnica, som e imagem, e a direção de Dornelles. Um dos pontos que poderia ser melhor a meu ver é a atuação de Flávio Danilo, que parece não ser um ator por profissão, o que dá até um caráter documental de início (que não é de todo mal, pois dá naturalidade); porém, entendo que seria uma tarefa difícil conseguir alguém com o perfil estético necessário para o papel e que fosse um ator de carreira.

 

 

O curta foi premiado em diversos festivais, levando estatuetas de melhor filme no CinePE e prêmio de aquisição Porta Curtas no Festival Internacional de Curtas de São Paulo. Este filme mostra uma metáfora do quão perigoso pode ser a vontade de alcançar algum objetivo, neste caso, a busca por um corpo perfeito. Há uma ironia quanto a ideia de “Mente sã em um corpo são”. Veja, canse, se assuste.

PS: Até pouco tempo o filme estava disponível em HD no Vimeo, no entanto agora requer uma senha para ser assistido. Se eu descobrir repasso aqui. Mas não precisa ficar na vontade, ele pode ser visto, porém com uma menor qualidade de imagem, no Porta Curtas.

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