Por uma semana o Rio Grande do Norte pôde se banhar nos versos mais belos que a escrita pode proporcionar, pois neste mês de março aconteceu a Travessia Poética: Semana Potiguar de Poesia, um evento realizado em treze municípios entre os dias 08 e 15, organizado pela Fundação José Augusto em parceria com as Secretarias de Políticas para Mulheres e da Juventude. A ideia foi reunir as comemorações do Dia Internacional da Mulher (08) e da Poesia (14) com a participação efetiva da população.

Com uma programação que contou com shows, saraus, mesas redondas, oficinas, mostra de cinema, feiras e lançamentos de livros, o evento foi um sucesso, contando também com a presença do poeta, compositor e cantor pernambucano Tibério Azul, numa apresentação musical na noite de sábado, 14, no jardim da Pinacoteca Potiguar. Com uma referência poética muito forte, o cantor apresentou seu disco ‘Bandarra’, de 2011,  de uma forma belíssima. Ao longo das faixas dos disco, Tibério recitava aqueles que o inspiraram a produzir o álbum, são eles: Manoel de Barros, Cora Coralina e Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa). Todos poetas, que de forma direta ou indireta nortearam o cantor e que o guiam até hoje em sua caminhada pela arte.

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Foto: Gustavo Nogueira

“Ser poeta é ser mais alto, é ser maior do que os homens! […] É ter fome, é ter sede de infinito!”, foi isso que a poetisa portuguesa Florbela Espanca escreveu sobre esta figura tão mística, que sabe cativar através da palavra, empunhando o versos como sua arma. Pronto pra batalha, mais do que a cabeça o poeta sabe usar o coração e talvez por isso seja o mais humano em essência. Florbela estava certa e eu reconheço grande parte desta sede na música do Tibério Azul. Cantando clássicos como “Vamos ficar sol” e “Veja só” em um show de aproximadamente 1h30, o pernambucano também fez covers de Renato Teixeira e uma especial, cantando sua versão de ‘Bandeira‘, de Zeca Baleiro, atrelado a um poema de Alberto Caeiro.

[…]

Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

[…]

Sobre tudo isso, conversamos com o cantor sobre poesia, música e muito mais. Confira a entrevista:

O CHAPLIN: Em seu disco ‘Bandarra’, de 2011, você homenageia o poeta Manuel de Barros, e eu queria sabe qual a sua relação com ele?

Tibério Azul: Minha relação com ele é de encanto, pouco concreta e de um mundo que eu considero invisível. Então minha relação vai além dessa coisa mais objetiva.  Manoel de Barros é um cara que eu li, me reconheci e me reencontrei nele. E quando eu percebi, muito sem razão, o meu disco já estava totalmente inserido na obra do Manoel, que além disso, já estava inserido em outros lugares.

O CHAPLIN: A princípio nos iríamos lhe perguntar sobre outros poetas que você admira além do Manoel de Barros, mas você respondeu ali no palco ao citar poemas de Cora Coralina e Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa). Você poderia falar um pouco sobre eles?

Tibério Azul: Eu tenho muitos poetas que admiro, porque eu sou fissurado em literatura, mas eu posso te falar que o ‘Bandarra’, quando percebi, ele estava mais ou menos nesse mundo de uma tríade poética que o sustentava, que seria formada pela Cora Coralina, Alberto Caeiro e o Manuel de Barros, e de alguma forma eu estava dentro dos três quando fiz esse trabalho. Ultimamente, se serve de indicação, eu estou particularmente apaixonado por Mia Couto, que é um escritor moçambicano e neste último ano eu só fiz ler ele, aproximadamente uns 8 livros.

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Mia Couto

O CHAPLIN: Pode nos indicar um livro dele?

Tibério Azul:  Eu te indico ‘Terra Sonâmbula’, é um clássico dele e é incrível.

O CHAPLIN: Você é poeta, compositor e cantor. Diante de tantas facetas, queremos saber, como é formada a sua música?

Tibério Azul: Primeiro é formada num mundo invisível, o que me lembra uma fala de (Auguste) Rodin, onde ele foi questionado sobre o seu talento pra escultura e ele disse: “Eu só tiro da pedra o que não é estátua”. Ou seja, ele só tira os excessos e isso eu acho encantador.  Eu tento buscar uma composição assim, seguindo um processo natural, compondo através do instinto e depois polindo.  Esse polir às vezes me leva muito tempo. Em seguida eu sigo minhas inspirações, esvaziado o caminho para que a arte possa se comunicar e a partir daí eu só meço a cuidar dos detalhes.

O CHAPLIN: No palco você tocou uma nova faixa, intitulada “Mais abraço que razão”  e anunciou a produção do novo disco. Nós estamos muito interessados nessa novidade e queremos saber um pouco mais.

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Foto: Gustavo Nogueira

Tibério Azul: Minha ideia é lançar uma sequência de quatro discos, uma quadrilogia, inspirada nos elementos. Bem, na verdade eles não serão inspirados nos elementos, mas pra cada disco eu escolhi um elemento pra nortear esses caminhos. Então o primeiro disco, “Bandarra”, teve a terra como elemento norteador; o segundo disco vai ter a água como elemento e por enquanto tem o título provisório de ‘Líquido’, onde a faixa “Mais abraço que razão” se encontra; por fim vem o fogo e o ar. O que eu acredito é que estou significando os meus discos e acredito também que todos possuímos um elemento nos guiando e eu sou totalmente do ar.

O CHAPLIN: O segundo disco já está em que fase de processo?

Tibério Azul:  Como eu digo, eu realizo todo o processo do quarto para depois ir pra a rua, ou seja, todas as músicas de ‘Líquido’ já estão compostas. Devo no mês que vem começar as gravações e realizar esses detalhes mais concretos.

O CHAPLIN: E por fim, sei que você também está bem empenhado no movimento de ocupação urbano/social do Cais José Estelita, e isso nos interessa muito, pois ao mesmo tempo que é um movimento à favor da saúde urbana de Recife, também é um apoio à história e à cultura da cidade. Você pode nos falar um pouco sobre o sobre o seu envolvimento?

Tibério Azul: Eu me envolvi muito com o Grupo Estelita e outros movimentos sociais e políticos da minha terra (Pernambuco), além de outros pelo país. Teve uma hora que eu fiquei realmente angustiado com algumas coisas do mundo concreto e eu percebi que eu não tenho essa casca dura pra conseguir lhe dar de forma saudável com algumas situações, por isso fui ficando meio doente e resolvi me afastar um pouco emocionalmente pra ter mais saúde. Mas apesar de saber que eu posso fazer só uma pequena diferença, eu também percebo que os caminhos vão muito por uma afinidade coletiva. Eu tenho toda a fé do mundo no Grupo Estelita, pois é um erro absurdo o que as políticas das classes privadas podem fazer com a cidade de Recife, isso vai prejudicar todo mundo. Mas ainda assim esse desafio serviu para dar muito gás nos movimentos dos direitos humanos e ao Grupo, além da visibilidade que tiveram em jornais de destaques pelo Brasil e até no mundo.

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