Morreu Manoel. Quem? O de Barros. Aquele menino arteiro. De memórias inventadas, andarilhos e passarinhos. O de sapos e borboletas, de jardins e quintais. Conhece? Uma criança com atraso de nascença, que amava os restos e apanhava os desperdícios.

Aquele que nos ensinou a transver e também a tranversar. Ele aprendeu com um pintor boliviano ou talvez com um araquã. Aprendeu a desformar o mundo. A desinventar objetos. A tirar da natureza as naturalidades. A ser disponível para sonhar. O chamam de poeta. Poeta de linhas tortas. De gosto elevado para chão. Que escrevia em idioma de rãs o livro das ignorãças. E assim dialogava com águas. Eu o chamo de poeta, mas as garças o achavam árvore.

Eu também queria saber lisonjear palavras e torná-las faceiras. Delirar o verbo. Vadiar os recantos do idioma e com ele brincar de amarelinha. Escrever nem uma coisa, nem outra. Queria saber fazer da tolice um regalo. Mas ele me ensinou que sábio é o que adivinha. E que só a poesia é verdadeira.

Minha avó o lia antes de dormir, mas ele queria mesmo era ser lido pelas pedras. Mal sabe ele que sua voz ganhou formato de canto. E que ele renovou o homem usando borboletas. Que eu o amo por seus despropósitos.

As violetas preparam o dia para morrer. Manoel foi encontrar Bernardo. Ele bateu asas e avoou.

Também virou passarim.

Da outra vez que Bernardo e o poeta se perderam quase foi para sempre…

 

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