Após o diretor Robert Weide questionar as acusações de Mia Farrow contra o ex-marido, o diretor Woody Allen, a filha do casal, Dylan Farrow, divulgou uma carta aberta no qual falou pela primeira vez sobre o suposto caso de pedofilia. Apesar das acusações, a carta mostra uma menina destruída após a separação dos pais e que realmente passou por problemas.
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Allan Stewart Königsberg, natural de Nova Iorque, começou sua carreira como escritor de comédia para televisão e se transformou em um respeitável comediante e ator. Na década de 60, começou a produzir filmes, vindo a conquistar os primeiros prêmios apenas com Annie Hall (1977). Não sabem quem é Allan? Mas você conhece o Woody Allen, nome que lhe deu a fama. Além da comédia, ele também trabalhou com filmes conhecidos por falarem de dramas do cotidiano, como traição, divórcio, relacionamentos, entre outras coisas.

Entretanto, as recentes (ou não tão recentes assim) notícias relacionadas com Allen podem render um roteiro para a próxima película dele (ou de Pedro Almodóvar, talvez), uma vez que os fantasmas da sua polêmica separação com a consagrada atriz Mia Farrow voltaram à tona, junto com a acusação de o diretor ter cometido pedofilia com sua filha Dylan (quando tinha sete anos), após a indicação ao Oscar pelo filme “Blue Jasmine” e a homenagem que lhe fizeram na cerimônia do Globo de Ouro.

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Woody Allen, Mia Farrow e Soon-Yi

A protagonista de “O Bebê de Rosemary” e Allen “casaram” (entre aspas, porque eles nunca moraram juntos) em 1980. A atriz já tinha se divorciado de Frank Sinatra, casado com o maestro André Pervin e adotado a coreana Soon-Yi e as vietnamitas Lark e Summer Previn (hoje, ela tem 15 filhos). Após o casamento com Allen, ele adotou Dylan (que é a peça central da nova polêmica do diretor) e Moses. Além disso, eles tiveram um filho biológico chamado Ronan (que depois Farrow afirmou que pode ser de Frank Sinatra).

Na década de 1990, Allen e Farrow se separaram após a atriz ter descoberto uma traição por alguém mais jovem. Poderia ser parecido com a relação de um homem mais velho e hipocondríaco com uma jovem otimista, igual ao filme “Tudo Pode Dar Certo”, se a menina não fosse Soon-Yi, filha da atriz e com quem depois casou. Durante a batalha judicial do ex-casal, Mia também afirmou que o Woody havia abusado sexualmente de sua filha Dylan, porém o caso não foi adiante e acabou voltando à tona após duas décadas.

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Dylan Farrow

No último sábado (01), a filha do casal escreveu uma carta aberta ao jornal New York Times, periódico da cidade que Allen tanto usou de cenário, no qual admitiu pela primeira vez os supostos abusos que o seu pai havia cometido quando tinha sete anos em um sótão da casa dele. “Ele falou para eu deitar de bruços e brincar com um conjunto de trem do meu irmão. Então, ele me abusou sexualmente. Falava comigo enquanto fazia aquilo, sussurrava que eu era uma boa garota e este era o nosso segredo, prometeu que viajaríamos a Paris e eu seria estrela dos filmes dele”, disse Dylan em um dos trechos da carta.

A filha de Allen e Farrow disse que por muito tempo se sentiu culpada e que chegou a fazer automutilação e ter distúrbios alimentares por conta disso. Justificou que não falou isso antes porque a fama do seu pai fazia com que a mantivesse calada e que foi estimulada a falar do seu caso após ouvir outras vítimas.

“Atores lhe veneravam em premiações. Canais lhe colocavam na TV. Toda hora via o rosto do meu molestador – em pôsteres, camisetas, televisão – podia apenas esconder meu pânico até encontrar um lugar que pudesse ficar sozinha e entrar em prantos”, afirma. Ela também disse que sente náuseas ao escutar o nome dele.

De acordo com Dylan, ela foi estimulada a soltar esta angústia após ele ter sido indicado ao filme “Blue Jasmine” e a homenagem feita no Globo de Ouro. Esta mesma homenagem da qual Mia e seu filho Ronan zombaram e ainda soltaram indiretas ao diretor via Twitter no qual declaravam que ele é um pedófilo.

Allen sempre negou as acusações de Farrow e Dylan. Ele afirmava que era coisa da atriz e que ela plantou essa informação na cabeça da menina. Neste domingo (02), Leslee Dart, assessora de imprensa do diretor, divulgou uma nota no qual afirmava novamente que as alegações eram mentirosas e ele iria responder em breve sobre as declarações. Além disso, Dart enfatizou que a Justiça não havia encontrado indícios de violência sexual quando houve as primeiras investigações sobre o assunto.

Após a publicação do documento, muitos ficaram a favor da filha de Woody Allen, entretanto existem artigos que defendem o diretor e afirmam que Mia enlouqueceu após o cineasta ter lhe trocado pela Soon-Yi.

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Mia Farrow e Roman Polanski durante as gravações de “O Bebê de Rosemary”

Verdade ou mentira, todo mundo sabe que quando ocorre uma traição numa família (principalmente no caso de Farrow, visto que você dificilmente imaginaria que uma filha faria isso com a mãe), esta sempre fica desajustada. Os filhos de Allen com Farrow cortaram a relação com o pai e Mia ficou com fama de “louca” e nunca conseguiu ter a mesma glória de quando foi estrela de “O Bebê de Rosemary”, dirigido por Roman Polanski.

Por falar em Roman Polanski, este também foi acusado de abusar sexualmente de uma aspirante a modelo de 13 anos, em meados da década de 1970, fazendo com que ele nunca colocasse os pés em solos americanos. Será que foi a famosa maldição do filme? Reza a lenda que a película de terror foi gravada no edifício Dakota, em Nova Iorque (mesmo lugar que John Lennon foi assassinado), e vários acontecimentos ocorreram após as filmagens.

Coincidência ou não, Allen foi um dos astros que pediu a inocência de Polanski na justiça estadunidense. Ambos têm um currículo cinematográfico invejável e filmes que inspiraram diversos outros amantes da sétima arte.

Sabemos que as palavras da Dylan mostram uma menina que passou por um turbilhão de problemas e merece um momento de reflexão. “Dá para separar o lado profissional do pessoal?”, “Ainda vamos amar Allen e sua incrível obra?”, “A carreira dele está em xeque?” ou “Qual é a realidade?”.

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A atriz Cate Blanchett em cena do último longa de Allen, “Blue Jasmine”

Este questionamento foi feito por Dylan, que indagou aos atores que seu pai trabalhou o seguinte questionamento: “O que faria se fosse seu filho, Cate Blanchett? Louis CK? Alec Baldwin? Se tivesse sido com você, Emma Stone? Ou você, Scarlett Johansson? Você me conhecia quando eu era criança, Diane Keaton. Esqueceu-se de mim?“.

A carta mostra também a superação que a jovem de sete anos teve, da felicidade de ter conseguido arranjar um marido, apesar das desconfianças que teve pelos homens, e que tem sede de justiça (enfatizou várias vezes a vontade de mostrar o “verdadeiro” pai dela).

Esta não foi a primeira vez que um diretor é acusado de pedofilia e sabemos que este tipo de crime precisa ser divulgado e julgado cada vez mais: “Woody Allen é um testemunho vivo da maneira que a sociedade não age a favor dos sobreviventes de abuso sexual”, disse a Dylan.

Agora, vamos saber o desenrolar do filme da vida real que o próprio Woody Allen teceu, marcado por romance, traição, vingança e rancor. Veja abaixo a tradução da carta na íntegra e o artigo (em inglês) do diretor Robert Weide, que fez um documentário sobre a vida de Allen. Tirem suas próprias conclusões.

Qual seu filme favorito do Woody Allen? Antes que responda, você deveria saber: quando eu tinha sete anos, Woody Allen me pegou pela mão e me encaminhou no sótão que ficava no segundo andar da nossa casa. Ele falou para deitar de bruços e brincar com um conjunto de trem do meu irmão.  Então, ele me abusou sexualmente. Falava comigo enquanto fazia aquilo, sussurrava que eu era uma boa garota e que este era o nosso segredo, prometeu que viajaríamos a Paris e que eu seria estrela dos filmes dele. Lembro que olhava para o brinquedo, prestava atenção enquanto ele viajava em círculos em volta do sótão. Até hoje, eu encontro dificuldade de olhar para trens de brinquedo.

Durante todo o tempo que consigo recordar, meu pai fazia que eu não gostava. Eu não gostava da frequência com que me levava para longe da minha mãe, dos meus irmãos e amigos para ficarmos a sós. Não gostava quando enfiava o polegar na minha boca. Não gostava quando íamos para cama, quando ele estava de cueca.  Eu não gostava quando ele colocava a cabeça dele sobre meu colo nu e inspirava e expirava. Escondia-me debaixo da cama e me trancava no banheiro para evitar os encontros, porém ele sempre me encontrava.  As coisas aconteciam tão frequentemente, tão rotineiramente e tão habilmente escondidas de uma mãe que teria me protegido se soubesse, que eu pensei que era normal. Achava que aquilo era como um pai cuidava de suas filhas. Entretanto, o que ele fez no sótão eu senti que foi diferente. Não podia manter este segredo.

Quando perguntei à minha mãe se o pai dela fazia a mesma coisa que o Woody Allen, eu sinceramente não sabia a resposta. Muito menos da tempestade que iria acontecer. Não sabia que o meu pai usaria a relação sexual dele com minha irmã para encobrir o abuso que causou em mim. Também não sabia que acusaria minha mãe de ter plantado este abuso na minha cabeça e a chamaria de mentirosa por me defender. Não sabia que eu teria de contar minha história diversas vezes, de médico a médico, sendo intimidada para ver se eu admitia que estava mentindo, pois fazia parte de uma batalha judicial a qual não compreendia. Em um determinado momento, minha mãe sentou comigo e disse que eu não estaria encrencada se estivesse mentindo – que poderia voltar atrás. Não podia. Era tudo verdade. Mas retirar as acusações contra o poderoso diretor era mais fácil. Havia especialistas dispostos a atacar minha credibilidade. Havia médicos prontos para ludibriar uma criança abusada.

Após ter negado os direitos de visita do meu pai na batalha judicial, minha mãe desistiu de avançar no processo, embora as descobertas da causa provável vinda do Estado de Connecticut – devido a, nas palavras do Promotor, fragilidade da “vítima menor de idade”. Woody Allen nunca foi punido pelo crime. Aquele que se safou pelo que fez comigo me atormentava conforme eu crescia. Sentia-me culpada porque tinha lhe permitido estar próximo de outras garotas. Morria de medo de ser tocada por outros homens. Desenvolvi distúrbio alimentar. Comecei a me cortar. Esse tormento foi agravado graças a Hollywood.  Todos, com exceção de alguns (meus heróis), ficaram cegos. Alguns achavam mais fácil aceitar a ambiguidade do que dizer “quem pode dizer o que aconteceu?”, para fingir que nada estava errado. Atores lhe veneravam em premiações. Canais lhe colocavam na TV. Toda hora via o rosto do meu molestador – em posteres, camisetas, televisão – podia apenas esconder meu pânico e encontrar um lugar onde pudesse ficar sozinha e cair em prantos.

Semana passada, Woody Allen foi nomeado ao Oscar pelo seu último filme. Mas desta vez eu me recusei a me esconder. Por muito tempo, a fama de Woody Allen me silenciou. Parecia uma repreensão pessoal, pois os prêmios e os elogios eram uma forma de dizer a mim para calar a boca e ir embora. Entretanto, sobreviventes de abusos sexuais estenderam a mão para mim – deram suporte e compartilharam seus medos de ir adiante, de ser taxado de mentiroso, de dizer que as minhas memórias não são reais – eles deram-me uma razão para não silenciar, para apenas então os outros saberem que não devem ficar calados.

Hoje, eu me considero sortuda. Eu sou bem casada. Tenho suporte dos melhores irmãos e irmãs. Tenho uma mãe que encontrou dentro de si uma fortaleza que nos salvou do caos de um predador que trouxa para nossa casa.

Porém, outros ainda estão assustados, vulneráveis e lutando para ter coragem de falar a verdade. A mensagem que Hollywood envia importa para eles.

O que faria se fosse seu filho, Cate Blanchett? Louis CK? Alec Baldwin? Se tivesse sido com você, Emma Stone? Ou você, Scarlett Johansson? Você me conhecia quando eu era criança, Diane Keaton. Esqueceu-se de mim?

Woody Allen é um testemunho vivo da maneira que a sociedade não age a favor dos sobreviventes de abuso sexual.

Então imagine sua filha de sete anos deitada no sótão com Woody Allen. Imagine ela passar a vida toda com náusea quando menciona seu nome. Imagine um mundo que celebra a sua atitude.

Imaginou? Agora, qual é seu filme favorito de Woody Allen?

Tradução: Lara Paiva

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