Em tempos de tanta violência estampada nas chamadas dos jornais, nas relações cotidianas e até dentro de nós,  não é nada raro ouvir que estamos vivendo o fim do mundo. O que não imaginávamos – ou pelo menos não prevemos – era que em meio ao caos teríamos uma surpresa tão boa quanto é o show ”A mulher do fim do mundo”, de Elza Soares. O álbum, a cantora e o show foram premiadíssimos e comentados e mesmo assim quem foi ao show nesta última sexta, 22, em Natal, pôde se surpreender.

Pontualmente às 21h iniciou-se o show de abertura com a cantora potiguar Khrystal, que ganhou uma grande e merecida projeção nacional, inclusive, ao cantar ”A carne”, de Elza, durante sua participação no programa The Voice Brasil. Khrystal, orgulhosa por estar ali, fez um show bonito para um público que quase em sua totalidade ainda não educou-se a valorizar o artista potiguar. Com 20 minutos de show, pouco mais da metade da plateia estava sentada. O resto foi chegando durante a apresentação, fazendo barulho e ainda sem saber onde eram seus lugares. O brilho máximo e mais animado do show aconteceu quando subiram ao palco Sami Tarik e seu pandeiro.

Khrystal fez o show de abertura da noite

Khrystal fez o show de abertura da noite

O show ”A mulher do fim do mundo”, realmente, começou às 22h. A primeira música, à capela, emociona e arrepia em seus primeiros minutos. A cortina se abre e vemos um cenário e figurinos diferentérrimos, literalmente coisa ”do fim do mundo”. Um altar pautado em sacolas plásticas de lixo, 9 músicos distribuídos pelo palco e Elza em cima de uma espécie de trono, acima de tudo isso. É extremamente gratificante ver o protagonismo feminino sendo representado e reforçado durante todo o show, e também ir pensando nas metáforas que estão presentes desde os sacos de lixo cenográficos até, claro, as letras das músicas.

Outra coisa que torna o show diferente e especial é que todas as músicas do álbum são inéditas. Então, logo na primeira música vemos Elza trocar uma palavra. E foi muito bom pra todo o público ver aquilo, em especial para aqueles que, assim como eu, já tinham ouvido o álbum tantas e tantas vezes que puderam perceber essa especificidades da apresentação. É ótimo porque nos reforça a emoção com que Elza estava cantando, reforça que, acima de tudo, aquilo ali é algo vivo, é o show e consegue ser ainda melhor que o álbum.

Já em ”Benedita”, música que trata da transexualidade, Elza cantou emocionada e contou com uma linda participação do ator Rubi, que além de cantar junto desenvolveu uma performance extremamente sensível.

Além de todas as 9 faixas do álbum, Elza cantou mais 4 já conhecidas de outros tempos. O destaque mesmo foi sua interpretação de ”A Carne”, que contou com um discurso da cantora reforçando a força da mulher negra e o orgulho que ela tem de ser quem é. Emocionante.

Outras palavras que arrepiaram e levantaram toda a plateia vieram depois da música ”A mulher da Vila Matilde”, que trata o tema da violência doméstica. Mais uma vez, uma mulher cheia de força e firmeza entoa:”Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”. Elza pediu ao público que denuncie toda e qualquer violência, e finalizou, levantando aplausos e risadas calorosas: ”Nós mulheres não podemos mais sofrer caladas. Temos que gritar! A mulher tem que gritar na hora da violência, porque no resto do tempo a gente quer gemer gostoso.”

No fim, fica a sensação de ter comparecido a um show lendário, inovador, cheio de coragem, emoção e que solta um grito de coragem que engole toda a violência e todo medo.

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