O escritor, ilustrador, ator e roteirista Gabriel Pardal lançou, no mês passado, um livro com o seu mais novo projeto: o Canibal Vegetariano. Publicado pela editora Rocco, reúne frases curtas e ilustrações despretensiosas que saíram das anotações diárias do caderno de Pardal para a internet. Conversamos um pouco com o autor sobre o trabalho recém-lançado e alguns outros projetos. Confira a seguir:

Resultado de imagem para livro canibal vegetarianoO CHAPLIN: Você se define como um artista multidisciplinar? Como é isso?

GABRIEL PARDAL: Esse nome artista multidisciplinar é feio, não é? Parece resultado de um curso hermético dado em uma faculdade obscura. Como vivemos numa sociedade que insiste em rotular as pessoas de acordo com o trabalho que exercem, aí acabam me classificando como multidisciplinar, mas é muito mais simples. Eu escrevo. Posso escrever como escritor como também posso escrever ator, ilustrador, músico… A materialidade da escrita independe do suporte. Se alguém não concorda com isso então é porque tem uma ideia antiga sobre as possibilidades de suporte para a escrita.
 
“O que importa para mim como artista é a substância da obra, que pode ser chamada de ideia, conteúdo, mensagem, etc. Então tanto faz se é um romance, um filme, um clipe, um desenho; o que me interessa como criador e espectador não é o formato, é a sua questão. Aí se quiser podemos discutir o que são esses formatos, o que é um romance, um filme, quero dizer, se uma foto não pode ser uma pintura, se um filme não pode ser um poema, se letra de música não pode ser literatura. Claro que pode. Bob Dylan acabou de ganhar o Nobel de Literatura e rolou essa polêmica medíocre, pessoas achando que ele não deveria ganhar. Essas pessoas não entenderam nada, elas têm uma ideia muito fechada acerca das coisas, e ter uma ideia fechada não tem nada a ver com arte”, acrescentou Pardal.
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O autor acrescentou ainda: “Digo tudo isso, e as pessoas podem confundir com arrogância, mas é o contrário. Não sou formado em literatura, em cinema, em dança, em sei lá, e é por isso mesmo que me permito não saber definir o que são essas coisas. Na prática eu acabei desenvolvendo um jeito próprio de fazer os trabalhos que eu faço. Vou fazer esses desenhos, mas não sou desenhista, e daí? O estilo do artista está justamente nas suas limitações. Então assim, publiquei uns livros, fiz teatro e cinema, escrevo uns poemas, ensaios, músicas, mas se um entendido dizer que “isso aqui não é ensaio”, provavelmente a partir de uma certa convenção ele vai estar certo, mas eu escrevi pensando como um ensaio, então para mim é ensaio. Acho muito careta quem diz o que é e o que não é”.
 
Por isso que, voltado à sua pergunta inicial sobre como eu me defino, prefiro pensar que sou um amador profissional.

O CHAPLIN: Como você chegou ao desenho?

106GABRIEL PARDAL: Sempre gostei de tirinhas, HQs, cartuns, graphic novel, mangá. Sempre fui fascinado por essa coisa da tirinha de ser rápida, ser simples e ao mesmo tempo dizer um monte de coisa. Há um tempo, eu tentei fazer umas tirinhas com personagens e tal, mas meu desenho não me agradava. Achava feio. Bom, então eu pensei “e seu eu fizer as tirinhas, mas sem os desenhos, só com o texto?” Aí eu fiz. Fui fazendo e percebendo que a palavra escrita no papel já era por si um desenho. Daí fica essa coisa meio confusa, as pessoas não sabem se é literatura ou desenho, que é a mesma questão que respondi antes. Para confundir ainda mais, eu respondo que “estou escrevendo uns desenhos”. Tenho sempre comigo um caderno e uma caneta. Escrevo ou faço anotações durante o dia inteiro. Às vezes uma ideia surge de um sentimento interno e, outras vezes, da observação dos acontecimentos externos. Publicando na internet, pude experimentar e, com o tempo, o trabalho foi ganhando eco na troca e no contágio com as pessoas, e assim fui entendendo o que estava fazendo durante o processo de fazê-lo. Eu gosto de fazer o que eu não sei fazer, portanto, para a continuidade do trabalho, preciso estar sempre desaprendendo. Então chegou uma hora que eu achei que tinha que dar um nome para o trabalho e assim surgiu o Canibal Vegetariano.

O CHAPLIN: E como funciona essa questão de não ser um desenhista por formação? Rola insegurança, receio?

GABRIEL PARDAL: Não rola insegurança porque… A Marguerite Duras tem uma citação que é mais ou menos assim: “escrever dá medo, mas eu não tenho medo do medo”. Eu acredito nisso. Eu posso não ter talento, e sem dúvidas não tenho mesmo o talento de desenhar, escrever, atuar, mas eu sinto que tenho a vocação, sabe? Não sei fazer tudo, mas eu faço as minhas coisas porque tenho muita necessidade de me expressar e isso me coloca na atividade sem receios ou insegurança. Eu gosto de fazer o que eu não sei fazer. É assim que desperto para a liberdade imprescindível no processo criativo. O fato de que eu não sei desenhar é o que me faz desenhar. Não saber escrever é o que me faz escrever. E eu digo que tenho vocação principalmente porque não tenho outra alternativa, sabe? Não escrever não é uma opção. Se parar pra pensar direito, de jeito nenhum eu queria fazer isso, é uma vida desgraçada, a gente morre pobre com um monte de gente nos detestando, a família não entende, e ainda tem a competição entre os amigos. É uma condenação.
 
Um dia desses tomei um café com um amigo escritor que me contou que, pela manhã, por pelo menos duas horas, vem se dedicando a escrever seu romance. Falei que também estou escrevendo um livro e que tento todo dia rabiscar alguma coisa, mas quase sempre é difícil, doloroso, exige uma energia difícil de arrancar. Muitos escritores falam disso aí, do quão difícil é escrever. E aqui no Brasil é mais difícil ainda, ser escritor não é nada. Não paga as contas. Não levam à sério. Diga que é escritor que vão te perguntar como que você sobrevive.
 
Segundo pesquisas, a média de leitura do brasileiro é de 1,7 livros por ano. Pode pôr nessa conta a Bíblia, livros de auto-ajuda, best sellers internacionais… Se a situação é essa, então porque o escritor brasileiro contemporâneo passa seu tempo fazendo essa atividade cheia de dor, avencas, tortuosa? Porque, para o escritor, não há outra alternativa. Não tem jeito. Eu posso evitar – procrastino bastante – mas não adianta, acabo sentando e escrevendo. É como uma maldição. O escritor não tem escolha, é preciso fazer.

O CHAPLIN: Como você vê a relevância do humor – ou, pelo menos, de algum conteúdo artístico bem humorado – neste momento no cenário do país?

141GABRIEL PARDAL: Dias atrás eu estava conversando com um amigo e nos perguntávamos se existe um Dostoiévski no Brasil. E se existe, ele seria publicado? E se for publicado, ele será lido, terá reconhecimento? Hoje em dia se fala muito do norueguês Karl Ove Knausgard, mas, e se fosse no Brasil, nós leríamos seis livros de um escritor prolixo que escreve sobre a morte do seu pai em Palmas, Tocantins?
 
O Brasil tem essa personalidade de ser um país cheio de problemas, cheio de tensões e ao mesmo tempo é leve, tem uma alegria. E isso tem a ver também com o fato de como o humor e o carisma é um sucesso. O humor agrega, é sucesso, gera lucro. É uma potência incrível, é muito sedutor e pode dar porrada ao mesmo tempo que diverte. Os humoristas estão cansados de responder qual o limite do humor, mas acontece que o humor ainda não chegou no seu limite, pode ir mais além. O problema que eu vejo é que muitas vezes o humor é redutivo. Ele pode reduzir uma reflexão profunda em uma risada, aí você ri e diz “que engraçado” e esquece, passa para a próxima.
 
Você deve estar perguntando isso porque no Canibal Vegetariano tem muita coisa de humor. Geralmente esse é o primeiro contato que as pessoas tem com os desenhos, mas depois descobrem que tem outras coisas também e que até mesmo o que lhes fez rir antes pode causar outra sensação depois. Eu não sou um humorista, jamais serei, mas sou bem humorado. Os textos que escrevo no ORNITORRINCO e que publiquei na coletânea Tédio e Diversão raramente são engraçados.
 
E vou ser sincero, tem uma hora que esses humoristas de hoje com seus stand ups, programas de TV, youtube… Tem uma hora que eu acho todos eles meio narcisistas, porque acontece que, no fundo, o humorista quer agradar, mesmo que esteja falando de algo desagradável. No final, o comediante sabe que o espectador vai acabar pensando “nossa, ele é demais”, e assim você encerra todo o assunto em si mesmo.

O CHAPLIN: O que você lê?

GABRIEL PARDAL: Pergunta difícil. Ficção, poesia, artigos, ensaios, crônicas, entrevistas, resenhas, filosofia, ciência, e-mail, ahhh…. enfim. Nos últimos anos, eu tenho lido muito textos de não ficção. Ensaios, estudos, pesquisas, reportagens, biografias, artigos, online ou em livro. Leio muito em e-book porque é muito fácil carregar trezentos livros para qualquer canto e fácil de achar livros raros, esgotados, que não foram traduzidos. Leio muita coisa na internet, sites, blogs, medium, tudo. Aliás, a internet é uma imensa biblioteca, não é? Começo lendo uma entrevista com o Roberto Bolaño e acabo lendo um artigo sobre porque o Quênia treina os melhores corredores do mundo.
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O CHAPLIN: Você mora no Rio, certo? Como a cidade influencia sua obra?

GABRIEL PARDAL: Eu vim pro Rio em 2007 por causa de uma namorada na época. O namoro acabou e eu fiquei porque já tinha feito amigos, criado laços afetivos e profissionais que não queria cortar. E assim estou aqui até hoje. O Rio me lembra muito Salvador, tem essa coisa da natureza fazer parte da geografia da cidade, isso é muito importante pra mim. Também afeta muito as pessoas, elas se relacionam de uma forma muito mais leve do que, por exemplo, São Paulo, onde a natureza não está tão presente. Mas enfim, não sei ainda te dizer propriamente como o Rio me influencia porque a minha vivência aqui se confunde com o meu desenvolvimento como artista. Quando eu saí de Salvador eu já escrevia e atuava, escrevia para teatro, fazia uns filmes, mas não tinha plena certeza de que faria isso no futuro. Aqui eu acabei encontrando uma turma, me envolvendo em uma cena artística que foi me estimulando, onde ainda troco com muita gente e é como uma universidade, sabe? Que nunca acaba porque estamos sempre aprendendo uns com os outros. Tem a turma da literatura, a turma das artes plásticas, da dança, do teatro, do cinema, da performance, e tem também a turma da psicologia, da filosofia, do jornalismo, a gente se encontra no mesmo bar, na mesma praia, e agora, nas mesmas festas de criança.

O CHAPLIN: Para finalizar,  fale um pouco sobre seu trabalho no Ornitorrinco. 

GABRIEL PARDAL: O ORNITORRINCO nasceu em 2011 como uma ideia muito simples: pensei em criar um espaço na internet para escrever, junto dos amigos, textos que contassem sobre o que estávamos pensando, que expusessem opiniões, reflexões. Convidei amigos e conhecidos. Meu critério foi: eu sabia que eles escreviam, e, sobretudo, gostava do que eles escreviam, e queria que eles escrevessem mais e que as pessoas os lessem. Uma coisa que percebemos muito dentro do coletivo é que é mais “fácil” escrever em conjunto com outras pessoas do que escrever sozinho. Sentimos que fazemos parte de um grupo porque estamos há muitos anos vivenciando esse exercício de acordar e ficar neste estado de prontidão onde tudo pode conter uma ideia para um texto. De 2011 pra cá, já publicamos mais de 700 textos de não ficção de autores de todo o país e acabou funcionando como uma excelente plataforma de exercício literário… O projeto me ensinou muita coisa e me enriqueceu intelectualmente graças à diversidade de vozes que misturamos.
foto-arthur-schmidtA média de leitura do brasileiro é de 1,7 livros por ano, mas acredito que as pessoas têm lido bastante na internet. A internet é o novo lugar de leitura. Está certo que a maioria passa mais tempo vendo vídeos e fotos, mas os sites de notícias, artigos, os blogs estão aí sendo compartilhados pelas mesmas pessoas que leram 1 livro ou nenhum. Um dia desses conheci uma garota que disse que gosta do que escrevo, mas nunca leu meu livro, tudo o que leu está no ORNITORRINCO. E aí? Um texto publicado na internet é menor do que no livro? Quando escrevo na internet eu o faço com menos vontade? Não e não. Até escrever nas redes sociais considero como atividade literária. É assim que é agora, que estamos sendo lidos, que se chega à literatura, é assim que se escreve e publica nos dias de hoje.
 
Escritor não é só o que escreve livros. O mercado editorial ainda não conseguiu se entender com isso. Mas tudo bem, os “especialistas” costumam levar mais tempo para aceitar o que as pessoas já estão fazendo naturalmente. A literatura, o escritor, os leitores, não estão presos aos livros.

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