Capa do livro Pó de Lua, de Clarice Freire

Em “Pó de Lua”, Clarice Freire mistura desenho, poesia e cotidiano

Após diversas procrastinadas, eu consegui um tempo para ler “Pó de Lua”, escrito por Clarice Freire, 26, também conhecida por ser prima de Marcelino Freire. Ela começou de uma forma parecida com Pedro Gabriel (os dois são publicitários, por coincidência), do projeto “Eu me Chamo Antônio”, colocando os seus trabalhos através das redes sociais. Ela tem mais de 1 milhão de seguidores apenas em sua página no Facebook. Assim como a sua xará de sobrenome Falcão, Clarice nasceu em Recife, estado de Pernambuco.

Capa do livro Pó de Lua, de Clarice Freire
Capa do livro Pó de Lua, de Clarice Freire

O sucesso da página foi tão grande que acabou indo parar nos livros impressos, através da editora Intrínseca. A obra é dividida em quatro partes, cada uma denominada com as fases da lua: minguante, nova, crescente e, por último, cheia.  Cada parte reúne temas cotidianos, como o amor, saudade, anseios, desespero, e mexem com os sentimentos do leitor causando identificação. Freire simplesmente escreveu coisas que são normais, simples, porém as pessoas precisam de uma resposta, algo que elas possam olhar e falar: “Poxa, ela escreveu isso para mim”. E, garanto, são muitos que vão pensar dessa forma ao ler “Pó de Lua”.

É um conjunto de poesias simples, sem firulas, mistura palavras com os desenhos também feitos por ela, pintados com lápis de cor e caneta porosa. Tanto que a capa do livro traz uma introdução do imaginário e do que será apresentado em quase 200 páginas. Os poemas utilizam jogos de imagens, palavras e rimas.

Por exemplo, um dos poemas usa a imagem de um dado ao qual ela liga algumas palavras para dar forma a um poema, um dos que mais gostei, por sinal.

Jogo de palavras é um dos destaques do livro
Jogo de palavras é um dos destaques do livro

Uma forma nova de desbravar a poesia, usar a imaginação que foi enferrujada na vida adulta e ótimo para brincar com a língua portuguesa, que é tão imaculada e da qual muitos morrem de medo, sobretudo de ousar e fazer besteira. São poemas visuais, o tipo que já consagrou Haroldo de Campos e Ronaldo Azevedo.

Misturar imagem com palavras é uma coisa que está crescendo ultimamente, os livros como “Pó de Lua” e “Eu Me Chamo Antônio” são exemplos fantásticos disso. Além desses dois, a editora Intrínseca trabalha bastante com obras que estimulem a interação entre público e autor, eles lançaram a edição brasileira de “Destrua Esse Diário”.

Fases do livro de Clarice
Fases do livro de Clarice

Ao contrário do que a poeta e colaboradora deste blog, Regina Azevedo, falou em seu artigo no qual ela critica o status de poesia do projeto “Eu me Chamo Antônio” (livro bastante similar com o de Clarice Freire), na minha opinião, sim, são poemas, mesmo tendo apenas rimas e sendo feito de forma livre (sem as sílabas poéticas). Ainda traz um sentimento ao leitor e sugere emoções, boas ou ruins. Eu acho esse tipo de literatura fantástica e é um resgate para aqueles que têm preguiça doentia de ler livros.

Vamos falar a verdade, a leitura impressa, infelizmente, está em crise e precisamos ajudá-la a sair do abismo. Se as três primeiras palavras não forem agradáveis, esqueça! O leitor, infelizmente, não vai ler. Entretanto, em um texto que seja dinâmico e objetivo ao mesmo tempo, vai acontecer um feedback entre leitor e autor. Por isso que os jornais, no intuito de se mordernizarem, utilizam bastante fotos, QR Codes e, principalmente, infográficos para não limitar o leitor a um texto cansativo, e assim forçar uma interação com a notícia ou reportagem.

As novas prosas e poesias deveriam procurar meios que busquem essa interação tanto dentro de um livro quanto fora. Acredito que como toda a forma de arte, esta tem que ser reinventada e aperfeiçoada aos poucos. Por isso que o livro “Pó de Lua” está alcançando um grande sucesso.