Não entrei na sala de cinema preparada para enfrentar as quase três horas de filme as quais eu seria submetida ao optar por assistir o longa “A Viagem”, dirigido pela tríade composta por Andy Wachowski, Lana Wachowski e Tom Tykwer. Contudo, acho que os 172 minutos ainda não foram suficientes para que um filme um tanto confuso e que mistura narrativas ficcionais, discursos filosóficos, e espiritismo, mostrasse, de fato, a que veio.

Tom Hanks e Jim Broadbent em cena do filme

“A Viagem” tenta. Tenta ser profundo. Tentar desenvolver seis histórias interligadas. Tenta ser compreendido. Tenta fazer sentido. As histórias que se desenrolam no filme acontecem em temporalidades diferentes, e você força a mente a acompanhar as mudanças súbitas entre as cenas que – em geral – são curtas. Eu, pessoalmente, utilizei-me do artifício de me situar pelo cabelo-moita da personagem de Halle Berry, os coletes e chapéus de época e as tatuagens de uma espécie de tribo indígena futurista.

Vez ou outra você identifica personagens diferentes, interpretados por um mesmo ator/atriz, e aí você se empolga e acha que está começando a entender a coisa. Então se frustra ao verificar que não há, aparentemente, relação alguma entre um e outro. E aí continua perdido, estreitando os olhos, queimando desesperadamente os neurônios e esperando a luz que só se revela quase ao fim da sessão.

Tom Hanks e Halle Berry em uma encarnação futurista – em outro mundo

Entretanto, o filme tem ritmo e instiga o espectador a manter a chama da esperança acesa. Não acho que filmes devam mastigar seus roteiros e subestimar a inteligência de quem os assiste. Creio que elipses são necessárias. Mas buracos negros são bastante frustrantes e inconvenientes em um longa metragem. Isso não acontece nas sub-narrativas, que vistas individualmente são compreensíveis e interessantes. Mas pouco no filme esclarece o que há de comum entre uma e outra – justificando a sua coexistência em uma mesma sessão cinematográfica.

Tentei me apegar a uma estrela cadente que brota em alguns personagens – que sequer são interpretados pelos mesmos atores. Às vezes até via um fiasco de esperança em dèja vus que “sem ver nem pra quê” alguns caracteres têm, mas em vão. Nada parece de fato interligar-se. Apesar disso, o filme acaba utilizando-se de diálogos de efeito e de um crédito explicativo – o que eu absolutamente abomino – para não ser, de todo, perdido.

Doona Bae interpreta uma empregada de um fast-food futurista e a filha de

um aristocrata, no passado

Os atores tentam fazer um bom trabalho, mas nenhum consegue se destacar, e não é por falta de nomes – temos aqui Halle Berry, Tom Hanks, Susan Sarandon, Hugo Weaving, Jim Broadbent, entre outros. Eu não os culpo, afinal, quem não se perderia ao interpretar seis personagens em uma mesma produção? No fim das contas, todos se tornam superficiais e nenhuma correlação aparente convence.

O que temos em “A Viagem” é um apanhado de situações que nos fazem pensar sobre a “moral da história”: a posição que ocupamos no mundo e para com as pessoas a nossa volta – e que pode ser completamente diferente em um passado ou futuro do qual não nos recordarmos. O filme bate na tecla das relações interpessoais como parte da formação do ser humano, em um espaço de existência que é muito maior que uma vida. Falha, contudo, ao adaptar para o cinema um conceito bonito e recheado de possibilidades.

Apesar de tudo, são em (poucas) cenas que abordam os dramas dos personagens, e não tentam martelar o conceito da trama na cabeça do espectador, que reside a beleza do filme. Quanto à parte técnica, não há o que comentar, afinal, estamos falando dos irmãos Wachowski que, aparentemente, tiveram na trilogia Matrix o ápice de suas carreiras e por isso, sempre os respeitarei. Apesar de “A Viagem”.

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