Terra em Transe e o Cinema Novo de Glauber Rocha

A importância da obra do diretor baiano Glauber Rocha (1939-1981) ainda continua sendo motivo de discussões, tanto no que se refere a sua técnica embasada nos princípios do Cinema Novo (escola estética que ajudou a fundar),quanto no conteúdo emblemático de seus filmes; estes últimos utilizavam uma narrativa técnica pouco usual para os padrões comerciais da época, priorizando uma estética mais viva e crua,visivelmente inspirada no Neo-Realismo italiano, e que, posteriormente serviu de referência para o manifesto cinematográfico Dogma 95.

 

 

As temáticas abordadas pelo Cinema Novo estavam fortemente ligadas à condição social do Brasil na época da ditadura militar. O lema do movimento: “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”;e é nesta esfera que se desenrola Terra em Transe, considerado a insígnia do movimento.

O filme passa-se em Eldorado, país fictício localizado na America Latina. O jornalista e poeta Paulo Martins trava uma luta em combate a miséria que assola seu povo. Ele planeja a ascensão a presidência do político oposicionista Filipe Vieira; contudo, esta meta entra em embate com os objetivos do senador Porfírio Dias, um teocrata que também almeja a liderança do país e que enxerga em Vieira uma ameaça aos princípios conservadores aos quais defende. Com o tempo, Martins questiona a idoneidade destes políticos, e a subtração dos valores democráticos em benefício de uma casta política.

Terra em Transe foi o grande vencedor do prêmio da crítica no festival de Cannes em 1967. É considerado por muitos a obra-prima de Glauber e um dos filmes mais importantes do cinema latino. O diretor exercita todo a sua crítica ao modelo político-social brasileiro, a decadência dos valores moral/democrático, a corrupção, a suposta imparcialidade da mídia, e com isso constrói uma alegoria lúcida sobre as ideologias que posteriormente enervariam os turbilhões políticos na América Latina da segunda metade do século XX.  

As longas tomadas e o descuidado proposital nos cortes dá a película um “ar” de cinema documental, cru, desnudo de grandes arroubos estéticos ou maneirismos estilísticos. Essas singularidades corroboram a visão de Glauber sobre o que era a América Latina dos anos 60 ( e talvez ainda hoje o seja): um continente ideologicamente fragmentado, onde o povo era refém da ambição de castas políticas, que utilizavam-se de manobras populistas – ao mesmo tempo de um estado autoritário – para conservar-se no poder.

 

Terra em Transe é um libelo da contra-cultura política. Um filme carregado da acidez crítica que tanto amedontrava os militares na ditadura. Em termos substâncias, é uma obra incapaz de gerar sentimentos intermediários entre o amor e o ódio. É na habilidade de despertar no expectador sentimentos tão contrastantes , que reside sua importância.