Entre o choro, o (des)controle e um milhão de sensações

Ao fim da sessão do espetáculo “Entre o choro e o controle” apresentada no último sábado, 22, durante a palestra da professora Patrícia Leal, a atriz Yasmin Cabral fez um comentário interessante. Tentando reproduzir o que a memória me permitiu guardar: “Às vezes até prefiro sair de um espetáculo sem palavras, sem ter o que dizer. Acho que quando isso acontece é que realmente somos tocados”. Mesmo sem saber, Yasmin descreveu perfeitamente o que senti ao fim do espetáculo da Sociedade T, que continua em cartaz por mais um fim de semana em apresentações no sábado (29) e domingo (30), sempre às 18h, no TECESol.

Fotos: Sociedade T
Heloísa Sousa | Fotos: Sociedade T

O espetáculo híbrido, que integra dança, teatro e, por que não dizer, cinema, em seu roteiro, explora a presença dos três atores, Moisés Ferreira, Yasmin Cabral e Heloísa Sousa. Eu jamais poderia falar de “Entre o choro e o controle” através de uma sinopse, essa é uma experiência que precisa ser sentida, vivida, e não necessariamente compreendida – mesmo que, em caso de essa compreensão vir, tenho quase absoluta certeza que chegará em formatos diferentes para cada referencial.

Contudo, uma forte percepção que me ficou do espetáculo é que se trata – também – de um desvelamento dos atores. Não consigo dizer se o espetáculo já nasceu dessa forma ou se esse foi um aspecto adquirido durante o processo de maturação, mas fica evidente a necessidade de introduzir a história dos três no contexto. A impressão que fica é que Moisés, Yasmin e Heloísa são fundamentais. Qualquer alteração no trio descaracterizaria a construção do espetáculo – ao contrário das alternâncias comuns e esperadas em espetáculos de grande porte, em que os atores frequentemente são trocados por substitutos de acordo com a rotina dos intérpretes e da produção.

Moisés Ferreira e Heloísa Sousa em cena
Moisés Ferreira e Heloísa Sousa em cena

Esse aspecto fica bem explícito em alguns momentos do espetáculo, mas principalmente no primeiro ato, quando o público é recebido em uma sala quadrada à meia luz com porta-retratos espalhados por todas as paredes. Não há distanciamento, você não deve apenas apreciar. Devido à luz baixa, é necessário ir até o porta retrato e ligar uma luz embutida em cada quadro, só assim você conseguirá ver as fotos dos mais jovens Moisés, Yasmin e Heloísa. É um convite inicial a conhecê-los. Os atores transitam por entre os visitantes, às vezes dialogam com conhecidos, até que uma música alta começa a tocar e o público sabe que agora está, definitivamente, inserido na arte – mesmo que ela já tenha iniciado desde o momento em que adentraram a sala quadrada e sentiram-se curiosos pelas dezenas de quadros na parede.

Yasmin Cabral
Yasmin Cabral

Não posso terminar esse texto sem falar um pouco sobre os três atores em cena. Moisés é de uma técnica e segurança admiráveis. Seus movimentos exalam precisão e destreza, mesmo aqueles trabalhados para serem imperfeitos. Um trabalho de cena impecável. Yasmin, por sua vez, passa uma sutileza comovente. É envolvente observá-la em cena. Já Heloísa foi, dos três, a que mais me emocionou. Dona de um dos atos mais impactantes do espetáculo, a atriz prende, seduz, amedronta, e possui aquele brilho e desenvoltura que são comuns de serem encontrados em grandes intérpretes. Contudo, em nenhum momento Heloísa ofusca os dois colegas, ao contrário: os três se complementam, como em um produto que não seria possível sem os ingredientes específicos de cada um deles. Em cena, o trio trabalha em sincronia.

“Entre o choro e o controle” utiliza-se de tudo o que está ao seu alcance: do espaço do TECESol, das paredes, das luzes, da voz, dos corpos – dos deles e dos nossos. É impossível não se manter atento, curioso, angustiado, e a cada novo ato, um turbilhão de sensações nos assola e você sabe que está mudando.

Chego ao fim deste texto expressando a minha alegria pelo momento em que a arte contemporânea de Natal vive. É gratificante ver grupos como a Sociedade T sendo formados e tendo espetáculos contemplados por editais nacionais, como foi o caso de “Entre o choro e o controle”, cujos recursos partiram do Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna. “Entre o choro e o controle” está aqui, mas poderia estar em qualquer lugar. Mas que bom que está aqui. Uma experiência estética tocante.