O ator campinense Fabiano Raposo, formado em Arte e Mídia pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG),  estreou nas telas no curta “Depois da Curva”, de 2008, dirigido por Helton Paulino. Fabiano é um dos fundadores da produtora Vermelho Profundo, que esse ano venceu o edital Net Lab realizado pela empresa de TV a cabo NET.

Frame do filme "Ato Institucional"

Frame do filme “Ato Institucional”

O que fez você se interessar por cinema e como você conheceu o curso de Arte e Mídia?

Meu interesse por cinema surgiu com 16 anos – foi com essa idade que decidi estudar Cinema. Mas Cinema sempre foi uma lembrança muito boa na minha vida porque minha mãe e meu pai gostavam muito. Um dos filmes que marcou minha infância foi “Fantasia”, da Disney, e as lembranças que tenho de ir ao cinema ver “Jurassic Park”, “Batman – o Retorno” são muito simbólicas. Já o curso de Arte e Mídia eu conheci por intermédio da minha escola que estudei o ensino médio. Na época do primeiro ano, tínhamos uma atividade extracurricular que era a Escola de Profissões. Juntos com uns amigos escolhemos Arte e Mídia pra tirar uma onda só, mas acabou chamando minha atenção, mesmo na época eu querendo fazer Química Industrial ou Engenharia Química.

Você estrou nas telas em “Depois da Curva”, como foi essa primeira experiência e como surgiu o convite?

Fiz “Depois da Curva” em consequência de vários acontecimentos: eu já fazia o Curso de Formação de Atores para Cinema e Vídeo de André da Costa Pinto; Helton estava procurando um motorista de verdade pra fazer o papel de Paulo. Helton me ligou pra conversar um pouco sobre o personagem que ele estava criando e queria tirar umas dúvidas comigo (a homofobia do personagem veio de reações e experiências minhas, que já fui razoavelmente homofóbico há alguns tristes anos) sobre as reações que ele queria colocar na tela. Só que Helton começou a ensaiar com o cara mas ele não conseguia decorar as falas; Helton decidiu conversar comigo pra saber se eu topava e falei que com certeza faria.

Queria que você falasse qual os principais empecilhos para trabalhar como ator na Paraíba. Há alguma possibilidade de criar um mercado que possa gerar lucros para quem trabalha nessa área?

O que eu vou comentar eu acho válido pra qualquer lugar: você trabalhar com atuação é como o cara muito rico: você só ganha mais dinheiro tendo dinheiro! Quanto mais trabalho você faz mais você é reconhecido e mais trabalhos você acaba fazendo. O problema é que a demanda de material aqui na Paraíba que vai precisar do meu “physique de rolle” não vai ser tão grande como, por exemplo, no Rio de Janeiro, e isso dificulta a manutenção de renda pra quem vive disso. Trabalhar na área aqui na Paraíba é possível, mas sempre com algum trabalho que seja sua renda principal ou fazendo parte de algum grupo de teatro que recebe apoio. Em outras circunstâncias, acho bem complicado.

Frame do filme Depois da Curva

Frame do filme “Depois da Curva”

Ano passado você foi um dos atores de Ato Institucional, filme esse que busca como tema a Ditadura Militar. Como foi para você construir um personagem que teria como obrigação conhecer mais sobre essa obscura época do Brasil?

Esse personagem de Ato Institucional foi construído todo na mesa. Íamos pra casa de Élio ou para o set para ensaiarmos e conversarmos sobre o roteiro. O que surgia de dúvida ou apontamento era discutido por todos, tanto por Helton (que estudou bastante o tema) quanto com Élio (que foi uma vítima da ditadura e que no filme faz o papel de um dos seus prováveis “interrogadores” na época).

Quais filmes foram mais marcantes de fazer?

Parece balela de ator da Globo mas todos os filmes têm seu mérito. Se for pra elencar alguns que gostei bastante de fazer foram “Depois da Curva” e “Mais denso que sangue” (de Ian Abé).

44410_633663856653100_1362053945_nRecentemente você se juntou com Ramon Porto, Ian Abé e Jhesus Tribuzi e montaram a produtora Vermelho Profundo. Como surgiu essa ideia e como está sendo a recepção da produtora?

Já era uma ideia razoavelmente antiga dos meninos de abrir uma produtora. A demanda de editais mais gordos, mas a necessidade de vínculo de pessoa jurídica foi o principal motivo pra nos movimentarmos para abrir a produtora. Os melhores editais agora estão com esse pedido e estão relacionados à produção televisiva, como documentários e séries. Como não voltei mais para o Rio de Janeiro, Ramon me fez o convite pra ser sócio na empresa e aceitei na hora! Como estamos começando ainda a produtora ainda vai galgar o espaço e o reconhecimento, mas todos já têm seus trabalhos individuais produzidos e reconhecidos, acho que isso só melhora a primeira vista que terão com a empresa.

Recentemente a Vermelho Profundo conseguiu vencer o Net Lab e está a poucos passos de desenvolver uma serie para uma emissora da TV a cabo e que terá transmissão a nível nacional. Como vocês se sentiram e qual a importância dessa vitória para a produtora? 

Isso está sendo um dos trabalhos mais aleatórios que vamos produzir, na minha opinião. A gente sabe o que fazer, mas até onde essa história pode ir é que a gente não faz ideia. A sensação de conquista foi incrível; conseguir se destacar entre 1,8 mil projetos do Brasil inteiro e dividir espaço com Rio/São Paulo (junto com Pernambuco também) nas produções ganhadoras é algo incrível. Jhésus e Ramon vão viajar agora dia 10 de novembro para São Paulo pra assistir às oficinas e os workshops e quando retornarem vamos saber de algo mais sobre como “Voragem” vai se encaminhar. E para a produtora é algo realmente fantástico: o primeiro edital vencedor com o nome da produtora é um projeto televisivo de nível nacional. Espero que seja o primeiro passo para uma conquista de espaço num patamar nacional.

Por último, eu queria você falasse um pouco de sua estadia no Rio de Janeiro e como ele ajudou na construção de sua carreira.

Estar no Rio de Janeiro pra trabalhar com o que você quer é uma doidera. Existem milhões de pessoas fazendo o mesmo e os interesses realmente são diferentes. Tem gente que vai pra lá pra trabalhar exclusivamente na Globo ou na TV; tem gente que vai pra ser ator de teatro e ganhar espaço; mas todos os interesses estão relacionados com uma coisa que a cidade do Rio de Janeiro tem como atitude cultural: você se mostra, se apresenta para os outros, no bar, na praia, no festival, na Lapa, e isso se expande para o trabalho cênico. E é fantástico ver como as coisas, mesmo aumentando, giram em torno do mesmo ciclo. É fácil você se encontrar com artistas e diretores bebendo no mesmo bar que você frequenta e ele se interessar pelo seu trabalho que você apresentou no teatro. E a sensação de que o trabalho que você construiu aqui na Paraíba (quase entre amigos) funciona quando você vai pra outro lugar. É maravilhoso você apresentar um trabalho cênico pra Inez Viana (participei de uma oficina com ela e fui dirigido por ela em uma leitura dramatizada) e ela se agradar daquilo. A sensação é meio “Rocky Balboa”, que treinava dando murro numa tora de carne e ganha a luta no final. Foi uma experiência maravilhosa que eu realmente quero repetir em outras instâncias, principalmente se for pra viajar com o trabalho garantido.

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