Esquadrão Suicida e o pecado do excesso
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Antes do lançamento de um filme, há sempre o longo período de “gestação”, em que a expectativa a respeito do enredo é alimentada com doses excessivas. Nesses casos, também pode vir o efeito colateral do filme tropeçar nos próprios pés. Esse foi o caso de Batman & Superman e também é o de Esquadrão Suicida.

Não me entenda mal. Divulgação de trailers, fotos de bastidores e uma boa trilha sonora (com uma enorme quantidade de rappers por metro quadrado, além de artistas como Grimes e Rolling Stones) são boas formas de ganhar atenção para um filme. O que excede esse limite é quando o marketing é permeado por rumores de que o ator que interpreta o coringa, Jared Leto, estaria fazendo pegadinhas no estilo do seu personagem em um filme que sequer é centrado nele.

Bom, pelo menos a versão que vimos no cinemas não é centrada, já que foi revelado que – após as reações ao primeiro trailer – a Warner decidiu meter o dedo na produção do diretor David Ayer (de Corações de Ferro) e mudou o tom sombrio do filme tão permanente nas produções da DC, fórmula que tem falhado nas últimos lançamentos. Também pesou para a Warner o sucesso inesperado que a Fox teve com o personagem controverso Deadpool. O resultado foi uma mudança para incluir os tão desejados elementos cômicos (receitinha de sucesso da concorrente Marvel), que incluiu regravação de cenas, corte de cenas do Coringa, reformulação dos trailers e uma alteração drástica nas cores usadas para a identidade do filme, que ficou linda! Confira na foto abaixo:

Do primeiro escuro ao definitivo com fundo colorido

Do primeiro escuro ao definitivo vibrante

Se o Coringa não é personagem  principal de Esquadrão Suicida, então, quem é? Boa pergunta. A DC resolveu apostar em alguns dos seus personagens menos conhecidos, com exceção da Arlequina, e por isso sem muita força comercial se comparados com Batman & Superman e até mesmo com personagens de outras divisões da empresa, como Sandman (escrita por Alan Moore para o selo Vertigo), que não é super herói e nunca teve uma adaptação para a TV ou cinema, mas que possui um roteiro muito superior ao de Esquadrão.

O filme conta a história de como o governo americano – por meio de chantagens (e de bombas detonáveis inseridas dentro dos personagens do Esquadrão) – consegue recrutar um grupo de mal feitores com poderes especiais. Para interligar a recente produção com a anterior, Batman versus Superman, os roteiristas de Esquadrão usam a justificativa de que precisam de pessoas que possam lidar com Meta-humanos que não sejam tão boazinhas como é o kryptoniano em questão.

O filme não faz introdução dos personagens como no velho clichê da DC de mostrar desde a infância até as motivações da idade adulta do Batman e do Super-homem (que já estamos cansados de saber), o que – dessa vez – seria necessário já que…eles não são tão famosos. A solução é pincelar o que cada um é à medida de cada aparição e mostrar com mais destaque os dois tidos como principais: Arlequina (Margot Robbie, de O Lobo de Wall Street), que está em um relacionamento abusivo com o Coringa, e Pistoleiro (Will Smith, de Eu Robô), ambos muito bem nos papéis; a primeira tentando carregar o alívio cômico e o segundo tentando construir o lado humano do seu personagem. Além dos dois, Viola Davis como a agente Amanda Waller, a inescrupulosa responsável por formar o grupo de criminosos, também tem sua interpretação salva.

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O restante dos personagens são alguns estereótipos. Há a “mulher asiática que quebra tudo” (com ajuda da espada que absorve almas) Katana (Karen Fukuhara); o “bom soldado  norte-americano” Rick Flagg (Joel Kinnamann, de Robocop); o “australiano louco” Capitão Bumerangue (Jai Courtney, de Divergente); o” indígena das cotas que só está ali para morrer no filme” Amarra (Adam Beach, de Códigos de Guerra); o “mexicano quente” Diablo (Jay Hernandez, de O Albergue); o “monstro repulsivo mas incrivelmente forte” Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje, de Thor: Mundo Sombrio) e finalmente o grande estereótipo do filme: “a modelo que colocaram para atuar em um filme e falhou miseravelmente” no papel de June Moone (Cara Delevnigne, de Cidades de Papel), uma vilã com motivações não explicadas para querer dar uma de Pinky e Cérebro com seu irmão feito de animação 3D. Além de, claro, o Coringa, interpretado por Jared Leto, que não faria diferença se cortado da história, já que foi usado apenas para ser acessório da história da Arlequina e não como um vilão consistente. Também temos uma aparição bem rápida de Ben Affleck como Batman.

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Apesar da confusão, o filme ainda possui alguns elementos que o tornam até um certo ponto um entretenimento divertido. Além da óbvia beleza dos figurinos (mesmo que por razões óbvias o Pistoleiro use pouco a sua máscara), Esquadrão Suicida conta com uma trilha sonora que casa com todos os momentos de ação, tornando as lutas um espetáculo que satisfaz a quem as imaginava nos quadrinhos, mas também para os acostumados com filmes de guerra e ação do tipo pancadaria.

Mesmo que de forma diferente que Deadpool (Fox), a Warner optou por diminuir a violência para baixar a faixa etária ($$$$). Nesse sentido, é um bom filme no estilo pipoca simplesmente pela diversão de assistir, sem pretensões. Espero que Esquadrão Suicida seja o primeiro passo para a DC perceber que alguns personagens simplesmente não se encaixam na eterna ideia de sobriedade sem alívio cômico em que o estúdio insiste em bater na tecla, e que enfim aprenda com a sua concorrente a inserir um pouco de humor nos seus filmes. Mas não a partir da reação de um trailer, e sim desde o início, com uma história menos confusa.

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