Extraordinário (2017): Enfrentando os Desafios de Cada Dia

Existir é difícil. Todos nós nos movemos ao longo da vida em meio a altos e baixos, em um ciclo sem muito sentido que invariavelmente termina no vácuo escuro da inexistência.

Ok, isso ficou pesado muito rápido.

O ponto é que não há um outro lado do arco-íris para ser encontrado e todos nós temos momentos de felicidade, tristeza e frustração que se revezam. Os desafios mudam, seja você um milionário norueguês solitário e deprimido ou uma moradora da periferia com seis filhos para criar. Todos nós recebemos um conjunto de cartas aleatórias no começo da partida, algumas recomendações (as regras mudam o tempo inteiro) e daí para frente é cada um por si.

Extraordinário (Wonder, 2017) é um bom filme sobre isto, explorando a vida de Auggie (Jacob Trembley) e daqueles que o cercam, cada um enfrentando seus desafios particulares ao seu próprio modo.

Owen Wilson, Izabela Vidovic, Julia Roberts e Jacob Tremblay em Extraordinário.

Auggie é um garoto de 10 anos e em primeira vista sua vida parece até muito boa. Um pai engraçado e parceiro, uma mãe carinhosa e dedicada à sua educação, uma irmã mais velha amável e apoiadora. Sua família vive feliz em um estilo de vida confortável da classe média alta americana. Além disso, Auggie demonstra uma inteligência acima da média para a sua idade, com um dom especial para as ciências. Se fosse apenas por isso, seria possível dizer que não haveria limites para o que Auggie poderia ser na vida: um ganhador do prêmio Nobel, presidente do país ou, seu grande sonho, astronauta.

Mas a vida lhe deu uma carta muito furada logo no começo: Auggie possui uma severa deformidade de nascença (Síndrome de Treacher Collins) e se 27 cirurgias o ajudaram a falar, ver, escutar e melhoraram um pouco a sua aparência, nenhuma delas foi suficiente para lhe dar uma feição considerada normal. Seu rosto é uma barreira permanente entre ele e o mundo e os mal disfarçados olhares de espanto/curiosidade/medo da sociedade o destroem por dentro, mesmo com todo o apoio da sua família.

É fácil visualizar como um filme sobre este tema (baseado no best-seller de mesmo nome) possa descambar para o sentimentalismo apelativo. Verdade seja dita, baseado na publicidade anterior ao filme, minha expectativa era justamente essa: uma história de superação com frases e momentos ao longo do filme posicionados especialmente para arrancar lágrimas da plateia. O drama de Auggie, no entanto, se é a nossa porta de entrada e fio condutor da história, não é apenas a única perspectiva que observamos.

Quando o diretor destaca o nome de Via (Izabela Vidovic), irmã de Auggie, na porta de seu quarto, o filme começa a mostrar o seu grande diferencial. Deixamos ali Auggie e assumimos o ponto de vista de sua irmã: uma adolescente que enfrenta todos os desafios normais da idade. Via, ao mesmo tempo em que busca apoiar o irmão e entender a displicência dos pais com seus problemas, tenta manter a sanidade criando espaços de resistência onde a sua própria vida possa existir fora da esfera de necessidades de Auggie. Os sacrifícios silenciosos de Via e a força que ainda possui para ajudar o irmão dão muito caráter ao filme, que evita o caminho fácil de se dedicar apenas ao problema físico do garoto.

Jacob Tremblay como Auggie em Extraordinário.

Assim, revezando entre o ponto de vista de Auggie e daqueles afetados pela sua presenta, Extraordinário evita tornar-se apenas mais um filme de Sessão da Tarde que a sua tia lhe recomenda insistentemente. É óbvio que frases de efeito e momentos para arrancar lágrimas estão lá, mas o diretor acerta na mão, evitando que o filme abuse demais do melodrama.

É certo que o caso de Auggie é mais dramático pelo fato de sua aparência ser uma barreira que o impede de ter uma vida plena. Mas, ao mesmo tempo, Auggie é capaz de superar este desafio aos trancos e barrancos com o apoio de todas as pessoas que habitam o seu universo. Sua vida nunca será fácil, mas talvez possua melhor sorte do que muitas crianças com dramas distintos e futuros incertos. Este exercício de empatia pelos problemas alheios dá grande caráter ao filme e faz com que valha a pena a ida ao cinema.

Compartilhe

Diego Paes
Formado em Relações Internacionais, Mestre e talvez Doutor (me dê alguns meses) em Administração, mas que tem certeza de que está na área errada. Pode ser encontrado com facilidade em seu habitat natural: salas de cinema. Já viu três filmes no cinema no mesmo dia mais de uma vez e tem todas as fichas do IMDb na cabeça. Ainda está na metade da lista dos Kurosawa e vai tentar te convencer que Kieslowski é o melhor diretor de todos os tempos.
Picture of Diego Paes

Diego Paes

Formado em Relações Internacionais, Mestre e talvez Doutor (me dê alguns meses) em Administração, mas que tem certeza de que está na área errada. Pode ser encontrado com facilidade em seu habitat natural: salas de cinema. Já viu três filmes no cinema no mesmo dia mais de uma vez e tem todas as fichas do IMDb na cabeça. Ainda está na metade da lista dos Kurosawa e vai tentar te convencer que Kieslowski é o melhor diretor de todos os tempos.

Postagens Relacionadas

Rugido_2
Lista: 3 séries feministas para assistir na Apple TV+
Não é de hoje que sou entusiasta emocionada do streaming da Apple, o Apple TV+. Dentre os motivos, estão...
foto da revista capituras
Capituras: revista cultural potiguar com foco em produção de mulheres é lançada
O Rio Grande do Norte acaba de ganhar a primeira revista cultural com foco na produção artística realizada...

Deixe uma resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Revista Pagu
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.