Festival do Rio 2013: condução de ‘Diana’ desagrada a brasileiros, gregos e britânicos

Lady Di foi uma das mulheres mais famosas da segunda metade do Século XX. Realizou o sonho dela e de muitas outras mulheres, tornando-se Princesa de Gales, mas depois que o caso extraconjugal do Príncipe Charles veio a tona, sua vida tornou-se um inferno: o divórcio foi demorado, foi praticamente extirpada de suas funções maternas e passou a ser perseguida pelos paparazzis. Mesmo assim, deixou grandes contribuições ao mundo, entre as quais estão as referências na moda e o apoio a várias campanhas humanitárias, entre elas a AIDS e à abolição das minas terrestres na África. Mas todos esses elementos foram poucos explorados pela primeira cinebiografia da Princesa, “Diana”, de Oliver Hirschbiegel (2013).

Cartaz Oficial do Filme: Naomi Watts aprendeu muito bem os olhares e trejeitos de Lady Di

O diretor resolve mostrar os dois últimos anos da Lady Di, que é interpretada pela atriz neozelandesa Naomi Watts. O filme já se inicia no fatídico 31 de agosto de 1997, logo depois do jantar entre a princesa e seu affair, Dodi Al-Fayed, no Hotel Ritz, em Paris. Mas após alguns minutos, a tela fica preta, com legendas que contextualizam a história. Em seguida, o diretor convida os espectadores a mergulharem em um flashback para descobrir que o grande amor de sua vida foi um homem simples e discreto: o cardiologista paquistanês Hasnat Khan (Naveen Andrews, da série “Lost”). E é essa trama que a obra explora excessivamente.

Diana sendo assediada pelos papparazzi

É caso impossível: Diana, criada como uma Lady desde seu nascimento, acostumada a ter muita gente a seu redor se apaixona justamente pelo contraditório, um cirurgião que não aspira mais que exercer de maneira tranquila sua profissão. “Nunca seremos um casal normal”, comenta em um dos diálogos o médico. Mesmo assim, um dos poucos pontos altos da cinebiografia é mostrar uma Diana não tão frágil assim – algumas cenas mostram a mulher mais amada da Inglaterra lavando a louça, passando roupa e arrumando o modesto apartamento de Hasnat. Além disso, a relação dela com a imprensa sensacionalista é posta em dúvida, uma vez que Oliver Hirschbiegel explora uma Lady Di também manipuladora. Nesse sentido, o destaque vai para a maneira como Al-Fayed é colocado na história: a ampla divulgação do tórrido romance seria uma artimanha da princesa para provocar ciúmes no paquistanês, depois deste ter encerrado o relacionamento e tê-la deixado devastada por causa disso.

Mas nada consegue substituir a má impressão da biografia dessa uma grande mulher. O filme mais parece aqueles quadros “A Princesa e o Plebeu” comumente exibidos nos finais de semana na maioria dos programas de auditório brasileiros. Ou, pior, aquelas poucas novelas das 18h que não são de época, mas que têm um tom de romance cor-de-rosa. Nem a atriz Naomi Watts consegue tornar o filme mais atraente. O sotaque formal e caloroso, bem como os olhares da Princesa – que em nada lembram alguém que já passou pela realeza britânica – foi muito bem copiado pela atriz, mas sua atuação pouco remete à ampla doçura no trato com as pessoas e à firmeza em se tratando no apoio a causas humanitárias. A transformação também não ficou tão fantástica como a de Meryl Streep para o filme “Dama de Ferro” (2011). Mas não a culpo, pois acredito que o desenvolvimento do papel tenha sido prejudicado pela má direção e roteiro. Outros aspectos como trilha sonora e fotografia são, em geral, fracamente explorados, mesmo que em algumas cenas da “lua-de-mel” entre Hasnat e Diana sejam mostradas belas paisagens da Grã-Bretanha.

Diana (Naomi Watts) e seu amor secreto no período de 1995 a 1997, Hasnat Khan (Naveen Andrews)

A imprensa britânica, é claro, não perdoou. Segundo a coluna de Heloisa Tolipan, do Jornal do Brasil, o “The Guardian” classificou o filme como “a segunda e dolorosa morte da princesa”. Já o “The Mirror” acredita que “até a Bridget Jones cruzaria a rua para não cumprimentar este retrato triste de Diana”. E isso não se trata de recalque nacionalista, do mesmo jeito que aconteceu na Argentina quando Madonna foi a escolhida para interpretar “Evita”, de 1996. Os nossos hermanos podem não querer admitir, mas o resultado da cinebiografia da primeira-dama mais famosa do mundo foi excelente, culminando em dois Globos de Ouro e um Oscar. É frustrante que não possamos prever o mesmo para o filme da princesa mais famosa.