Trama simples. Cenário praticamente único. Duas personagens, sendo que uma delas aparece, no máximo, durante 30 minutos de filme. Essas são algumas características de “Gravity” (2013), de Alfonso Cuarón, exibido em poucas (e concorridas) sessões durante o Festival do Rio 2013, que terminou na última quinta-feira. Os espectadores e críticos da Cidade Maravilha seguiram a tendência mundial bastante positiva ao filme, tão positiva que até o renomado James Cameron, idealizador do carésimo “Avatar” (2009), afirmou que o novo filme protagonizado por Sandra Bullock é o melhor filme até hoje já feito sobre o espaço. Muitos de vocês devem estar se perguntando: por que a repercussão positiva é tão forte?

Cartaz Oficial: Doutora Ryan Stone (Sandra Bullock) em momentos de aflição vividos à deriva no espaço

Para um filme de ficção científica, o primeiro palpite vai para a utilização dos efeitos visuais. Sim, as tecnologias inovadoras e o 3D são muito bem aplicados, dando as condições para que praticamente toda a trama fosse contada em pleno universo. Sim, as imagens da Terra vista do espaço são absurdamente lindas e verossímeis. Mas a resposta estaria incompleta se só abrangesse isso. A parte técnica é o complemento usado na dose certa e inteligente de um roteiro elaborado minuciosamente, permitindo aos espectadores se desesperarem e ficarem aflitos junto das personagens Matt Kowalski (George Clooney), um astronauta experiente em missão de conserto ao telescópio Hubble, e Ryan Stone (Sandra Bullock), uma doutora em tecnologia espacial. Durante a missão, os dois são surpreendidos por uma chuva de destroços decorridos da destruição de um satélite por um míssil russo, que faz com que fiquem à deriva no espaço sem qualquer apoio ou comunicação com a NASA. Mesmo assim, eles precisam encontrar um meio de sobreviver num ambiente nada convidativo à vida humana.

A excelência nos efeitos sonoros também possibilitou que a história pudesse ser conduzida desta forma ímpar. Quando George e Sandra não estão juntos na mesma cena, não há conversas e, assim, os som “fabricados” tem uma grande importância. Os ruídos são mais um elemento a serem resgatados ou eliminados pela doutora Ryan. Resgatar refere-se a comunicação dela com a NASA, feita exclusivamente por rádio; já o eliminar relaciona-se com a parafernalha tecnológica dos transportes estelares, difíceis de serem assimilados até mesmo com a utilização de manuais.  A aflição aumenta à proporção que somem os ruídos do rádio. E quando não existe som algum, o silêncio preenche completamente todos de desespero. Além disso, a ausência de som também reforça a solidão da engenheira física.

George Clooney e Sandra Bullock ficam perdidos no espaço, presos um ao outro apenas por um cabo

Os caminhos escolhidos por Cuarón são os mais surpreendentes. A primeira sequência termina, simplesmente, depois de 20 minutos. Trocando em miúdos, o diretor ousa utilizar um longo plano sequência numa escola cinematográfica caracterizada, desde Griffith há mais de 100 anos, por cortes precisos. A câmera se move freneticamente entre o carismático personagem de George Clooney e da desesperada Ryan Stone, papel de Sandra Bullock. Os movimentos agitados só corroboram para deixar o pânico protagonizar num ambiente de calmaria, justamente o contrário das reações na sala de cinema. Ainda sobre a câmera, podemos considerar seu uso bastante muito versátil: closes (mesmo que prejudicados por causa do vidro do capacete) e até uma subjetiva (quando é possível ter visão do ponto de vista da personagem) também aprimoram a relação de proximidade entre a obra e seus espectadores.

Em meio a tantos elogios à técnica, as atuações merecem considerações à parte. George Clooney dá vez a uma personagem cômica, um astronauta experiente e racional que controla o aspecto emocional. Suas falas chegam a ser chatas algumas vezes, mas foram baseadas no fatídico comportamento dos astronautas, de acordo com a entrevista de um deles a um site de notícias. Sandra Bullock, contudo, traz mais humanidade à obra e seu comportamento parece muito com o nosso, leigos, se estivéssemos passando por uma angústia como essa. Vale salientar que a atriz sustenta, espetacularmente, o filme praticamente sozinha. Além disso, para o crítico Francisco Russo, do site AdoroCinema, os breves simbolismos implementados por Cuarón no decorrer do filme merecem destaque, como por exemplo a posição fetal que Sandra assume em determinada cena e o próprio desfecho da história, numa clara alusão à própria humanidade.

Belas imagens da Terra são o resultado de ótima utilização dos efeitos especiais por Cuarón

Depois de “Gravidade”, os odiosos do 3D vão ter trabalho para encontrar uma desculpa para convencer-nos da rejeição ao aparato tecnológico. Mesmo que sua cidade não ofereça um espaço com esse atributo, corra para o cinema o mais rápido possível. “Gravity” vai direto ao assunto e é sensacional do começo ao fim, mesmo que esse fim, depois de preciosos 85 minutos de exibição, chegue rápido demais.

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