Festival do Rio 2013: ousadia de ‘Tatuagem’ deve garantir prêmio de melhor filme também no Rio

Recife, 1978. Declínio do milagre econômico promovido pela ditadura militar. Crescentes são os pedidos para a promulgação da Anistia e do fim da censura. É nesse contexto que o grupo teatral de “Chão de Estrelas” (que, não por mera coincidência, é um bairro do Recife) cresce no cenário independente da capital pernambucana. O grupo é comandado pelo artista hedonista Clécio (Irandhir Santos) e tem como principal estrela Paulete (Rodrigo Garcia), um ator afetadíssimo e querido por todos na companhia. Em outra companhia, a do Exército, Fininha (Jesuíta Barbosa) é um jovem do interior recém-chegado à capital pernambucana que sofre com as hostilidade de seus colegas de trabalho. Numa das visitas a sua família, sua namoradinha entrega uma encomenda – destinada ao irmão, Paulete – para que o soldado faça a entrega. É assim que Fininha conhece o “Chão de Estrelas” e, como marinheiro – soldado dos mares – de primeira viagem, se apaixona por esse mundo transgressor e por seu criador, Clécio.

Casal gay: o soldado Fininha, à direita, e Clécio

A história acima faz parte da sinopse de “Tatuagem”, filme de Hilton Lacerda, que está lotando todas as sessões no Festival do Rio muitas horas antes das exibições. Vencedor de três kikitos no Festival de Gramado (Melhor Filme, Melhor Ator e Melhor Trilha Sonora), a expectativa é o que o filme consolide o sucesso também no Rio de Janeiro. Tem as mesmas características de tantos outros títulos produzidos no Recife que estão conquistando a crítica especializada: o fator transgressor, a crítica sociopolítica (presentes também em “Febre do Rato”, de 2011, cujo roteiro é assinado por Hilton), a dualidade entre interior e cidade grande (“Árido Movie”) e um final um tanto abstrato (“Árido Movie”).

Dentre esses elementos destacados acima, o que vem com grande notoriedade é a transgressão, que não está apenas dentro de sua própria história passada nos anos 70, mas nas repercussões de algumas cenas atualmente, em pleno século XXI: mesmo para uma plateia mais elitizada, trechos com sexo quase explícito entre Fininha e Clécio e diversos nus frontais ainda chocam muito. Em entrevista ao blog “Pipoca Moderna”, Hilton Lacerda define “Tatuagem” como uma “ideia para fazer uma reflexão que apontasse rumos” e não tem nada a ver com um filme de época e saudosista. O diretor também aponta que as cenas com nudez genital são realistas, mas menos infames que as sequências de violência gratuita, numa clara crítica à sequência “Tropa de Elite”, sucesso de público, mas nem sempre de crítica.

O Grupo teatral “Chão de Estrelas”: homenagem a vários movimentos marginais dos anos 70

As três personagens centrais do filme são brilhantemente interpretadas pelos atores escolhidos por Hilton Lacerda. Até mesmo o espectador acostumado com o profissionalismo de Irandhir Santos se surpreende como o ator se entrega aos trejeitos do hedonista Clécio. É assombroso perceber como ele convence em “Tatuagem” e em alguns de seus últimos papéis, que são homens do tipo “cabra macho” tais como Fraga (político inimigo do Capitão Nascimento em “Tropa de Elite 2”) e Clodoaldo (um dos seguranças fundamentais na trama de “O Som ao Redor”, outro filme premiadíssimo). No quesito revelação, o destaque vai para o ator Jesuíta Barbosa na pele do sensível e apaixonado Fininha, cuja atuação é marcada pela interpretação tocante e pela excelente expressão facial. Rodrigo García também brilha em cena como o esfuziante e afetado Paulete, espécie de braço direito de Clécio, garantindo as muitas gargalhadas durante os 110 minutos de exibição. (Dica: a cena do “Tem c*, cacofonia com a qual Clécio comanda o término de um dos espetáculos da “Chão de Estrelas”, é hilária). 

Clécio e, ao fundo, Paulete: a personagem mais engraçada

A condução da obra por Hilton Lacerda (que também é roteirista) é maestral e o roteiro escolhido prioriza a linearidade, facilitando o entendimento da história. Vale destacar também o resgate da contracultura da época através da companhia de teatro fictícia – uma clara homenagem ao “Dzi Croquettes”, ao movimento musical dos “Novos Baianos” e ao Teatro Oficina dionisíaco de Zé Celso Martinez Corrêa. Ainda nas homenagens, também é citado num diálogo o grande nome do Cinema Novo: Glauber Rocha, pioneiro em introduzir a expressão teatral no cinema brasileiro. 

O diretor-roteirista Hilton Lacerda

Para abrilhantar ainda mais a obra pernambucana, Lacerda optou por rodar alguns trechos do filme em Super-8, uma formato cinematográfico popularizado na década de 1970 e amplamente utilizados pelas agremiações de esquerda na América Latina. O resultado são cenas que dão a entender que as personagens que vemos filmam elas próprias. Atualmente, o Super-8 se popularizou com os videoclipes da cantora norte-americana Lana Del Rey. Quanto ao roteiro, o encadeamento dos acontecimentos que explicam o título dado ao filme já valem o ingresso.

Nesse sentido, pode-se dizer que “Tatuagem” é um filme completo: tem uma questão política muito forte – que no afã das manifestações efervescentes em 2013 – está sendo reavaliada, mas também mexe com os espectadores que vão ao cinema para ver muito afeto, amor e amizade, desde que essa plateia deixe seus pudores e preconceitos na entrada do cinema. “Tatuagem” veio para mostrar o que estava escondido. Sem pensar muito. Sem censura.