Os Afronautas estão chegando

Meio século atrás, com a corrida espacial no auge, a busca pela exploração interplanetária entre as superpotências da terra ganhou um novo candidato, a Zâmbia.

 
Foto Cristina de Middel

Os cachorrinhos Bruce, Vanilla e outro esquecido na memória dos nomes, tocam uma festa dos diabos. O dono do trio solta um “vamos parar com isso”. Sua ação tem um intuito, manter a atenção de sua busca pelo espaço virtual. Agora, concentrado no esquema do acessa e derruba páginas eletrônicas, meu amigo conversa meio aéreo: “Ei, tu que gosta de Quadrinhos, devia ver isso”.

Passeando pelo site da última edição do “Paraty em Foco”, evento dedicado à fotografia ocorrido entre os dias 18 e 22 de setembro, meu amigo apresenta o ensaio da fotógrafa Cristina de Middel. Convidada ao evento para administrar o workshop “Através do espelho”, a espanhola trabalhou por mais de 8 anos em diversos jornais e ONGs como Médicos Sem Fronteiras e Cruz Vermelha. Mas, em sua carreira, um projeto vem falando alto, é “Os Afronautas”.

Foto Cristina de Middel

Enquanto o ícone na tela nos informa do seu processo de carregamento, sou apresentado a um petisco da história toda. “Cara, o ensaio dela parece um quadrinho, ao passar pelas fotos é como se estivéssemos lendo uma história, quase comprei um livro dela”. Da porta, os cães dedicam atenção ao diálogo.

Em uma galáxia nem tão distante, precisamente em 1964 de uma Zâmbia recém-independente, Edward Makuka, professor de ciências no que ele chamava de “Academia de Ciências e Tecnologia Espacial” tentou dar início a um ousado programa espacial zambiano. O objetivo era levar 12 astronautas e dez gatos de seu país para a Lua e, quem sabe, Marte. Sem o financiamento devido, o projeto fracassou. Há quem diga que o sonho de alcançar o desconhecido também foi eclipsado pela gravidez de uma adolescente, uma dos tripulantes em treinamento no projeto.

Fotos: Cristina de Middel

De posse desse episódio, Cristina tornou real o sonho espacial zambiano através de seu ensaio. Além da avó, responsável por costurar as roupas da tripulação, ela contou com o apoio de Ramon Pez, diretor de arte da Colors, revista ligada à Benetton. Dezessete meses separaram as primeiras fotos e a impressão de mil exemplares do fotolivro, rapidamente esgotado.

“Nós estamos indo para Marte”, afirmou Makuka em um jornal daquele ano. Ainda segundo o professor, um foguete já estaria pronto e era questão de tempo e sete mil doletas pedidos à UNESCO (nunca vieram) para que Estados Unidos e União Soviética comessem poeira cósmica. Lusaka seria não só a capital zambiana, mas do universo.

O trabalho de Cristina é um convite. Lembra um filme, um quadrinho, uma viagem… Com nostalgia e simpatia, ela celebra o espírito aventureiro e ingênuo de uma época passada, onde sonhos grandiosos não foram barrados pelas circunstâncias.

Passeando pelas imagens captadas, administradas e editadas aos olhos de Cristina, outra nave, esta tripulada por dois amigos e três cães, retornava ao sonho daqueles africanos. O objetivo dessa exploração é entender como seria atualmente esta lua que nos vigia, caso os Afronautas chegassem lá primeiro.

Foto Cristina de Middel

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