IMG_1890

Antes de adentrarmos no texto sobre um dos festivais mais aguardados do Rio Grande do Norte e região, vamos confirmar um fato: a música está engolindo esse pequeno estado. Só esse ano, já houve o Sensorium, a primeira edição do Festival Catamaran, a décima primeira edição do Festival Dosol, o Festival Literário de Natal (FLIN), que trouxe Adriana Calcanhotto, o MADA, sem contar com eventos que ainda acontecerão, como o MPB Jazz, o Prêmio Hangar de Música, os recém confirmados Virada Cultural, Circuito Cultural Ribeira e o Natal em Natal. Segundo Marcelo Costa, colunista da MTV, “Natal entra na briga com Goiânia pelo epiteto de capital rock do país”. Nesse meio tempo, novas bandas surgiram e vários artistas reconhecidos nacionalmente vieram, como Raimundos e O Rappa, e outros ainda virão. Esse ano está servindo pra comprovar que não só existe espaço pra música em Natal e no RN, mas mais do que isso, outros espaços estão sendo criados.

Cabe às bandas confiarem no seu trabalho e darem a cara ao tapa, como estão fazendo o Orchestre Noire, Mamute, Talude, Plutão Já Foi Planeta e tantas outras que estão engatinhando. Cabe também ao público abrir a cabeça e aceitar que no nosso estado há músicos e bandas talentosos, autorais, que fazem seu próprio som de maneira única, interessante e dão o sangue pra mostrar sua arte. A maioria dos preços de ingressos pra shows e festivais são baratos (alguns até gratuitos), quase todos os artistas disponibilizam seus trabalhos para download, ou seja, é bem fácil a vida de quem gosta de bandas locais. Não é problema gostar de grandes nomes nacionais da contracultura brasileira, até porque música, como toda arte, é muito relativa, mas se um dia bater a curiosidade, dê uma chance a alguma banda local. Várias delas têm muito a oferecer.

Kung Fu Johnny

Kung Fu Johnny – Foto: Liz Almeida

Sobre o Festival Dosol: Foi polêmico. Houve confusão entre duas bandas faltando poucos dias para a abertura do festival, o que dividiu várias opiniões. Até onde a ideologia de uma banda deve influenciar sua participação em festivais junto com outras bandas e, consequentemente, outras ideologias? Muita gente reclamou dos ingressos esgotados, principalmente nos dias em que Matanza e Pitty tocariam, e muito embora tenha havido a oportunidade de ingressos antecipados e também no dia das apresentações, todo local possui limites quanto ao número de pessoas e de ingressos, então infelizmente alguns acabaram ficando de fora. Houve pouquíssimos atrasos, bom pro festival e complicado pra quem queria ver bandas que estavam tocando no mesmo horário, e esse ano a integridade da Rua Chile e dos locais de shows realmente foi levada a sério, pois havia um batalhão de agentes de limpeza e vários banheiros químicos. Outra surpresa boa foi o aumento da quantidade dos quiosques de bebida e comida, então não houve muito sufoco no quesito pegar uma latinha ou salgado pra chamar de seu. Alguns até passavam no cartão, foi um avanço. Vamos agora pro que houve de melhor em cada dia.

Sexta feira, 7 de novembro de 2014: Foi uma noite calma. Todos os shows foram em um só lugar, acredito que muita gente deixou de ir por causa do Enem, que caiu no mesmo fim de semana. Parecia mais uma celebração ao retorno do festival, uma energia boa de festividade no ar. Talude foi a grande responsável por abrir as portas do evento, sendo o primeiro show do primeiro dia, e posso dizer que me impressionei com a maneira que o nervosismo dos integrantes foi se transformando em um show explosivo, cheio das artimanhas sonoras que o shoegaze noventista traz, a maior inspiração da banda. Eles conseguiram criar vários momentos marcantes e prender a atenção do público. Mahmed também teve seu lugar ao sol, sempre conseguindo imprimir emoção em sua música sem letra. Eles brincaram com as composições de “Domínio das Águas e dos Céus”, e ainda chamaram Fernando Cappi, do Hurtmold, pra uma participação especial. Foi uma sintonia linda, todos os integrantes da banda e o convidado pareciam felizes pelo que estava acontecendo. O Gustavo Nogueira também falou mais sobre esse primeiro dia.

Mahmed

Mahmed – Foto: Rafael Passos

Sábado, 8 de novembro de 2014: Aqui os ânimos já estavam maiores. Começou de tarde, o calor e a cerveja agitaram as coisas, paqueras rolando soltas, bandas e públicos ansiosos. Dentre estas, The Baggios foi um duo sergipano de guitarra e bateria que me impressionou pela capacidade criativa que sai de apenas duas pessoas, trazendo pras terras potiguares um bluesrock que passeava por várias referências, tudo sem muita frescura, um vocal limpo e claro. O ponto alto do dia pra mim, no entanto, foi Joanatan Richard. Cabelo cheio de gel, nenhum fio de barba no rosto, aquela camisa de botão e calça social bem anos 50, o que parecia ser apenas mais um show de rockabilly acabou se tornando um verdadeiro inferninho. Tudo começou com aquele clima retrô, o guitarrista e vocalista tocando “Johnny B Goode”, do Chuck Berry, coisa boa de dançar… Até que quando eu olho pro lado, lá estava ele no meio da plateia, e uma rodinha foi se formando pra dar espaço a Joanatan, que com sua guitarra em mãos, imprimia rajadas de um blues poderosíssimo que logo menos se transformava no rockabilly mais insano que já ouvi ao vivo. Era como se o corpo dele reagisse ao som que saía de sua guitarra, se jogando no chão, desdobrando em contorções, caretas, pedindo que dançassem e batessem palmas… Muita gente saiu encharcada de suor por causa do calor e das danças frenéticas, foi incrível. Drakula também roubou a cena: cinco mascarados causando rodas de pogo com uma mistura de garage rock, punk e hardcore que deu muito certo. Lotou o lugar e empolgou muita gente, inclusive essa que vos fala.

Joanatan Richard - Foto: Bento Gomes

Joanatan Richard – Foto: Bento Gomes

Domingo: Todo mundo fardado de preto, alguns até mesmo usando roupas de couro (eu ri e admirei a coragem desse povo ao mesmo tempo) pra entrar no clima de metal, punk e hardcore que tomou conta desse domingo tropical. NTE é uma das mais antigas bandas de punk/hardcore de Natal, criam letras com críticas duras e bem objetivas aos problemas da sociedade na qual estamos inseridos, principalmente a sua cidade sede, com o intuito de colocar o público pra refletir sobre essas questões. Tudo isso incrementado pelo carisma, sarcasmo e teatralidade do vocalista Alexandre Falante, se houver a oportunidade de ver esse show, não deixe de lado. Fuzzly trouxe um metal com raízes no psicodelismo setentista e no stoner, fazendo contraste até mesmo com as outras bandas de metal, um som bonito, sem muita pressa, cada nota sendo bem apreciada pelos músicos e público. E quanto a Matanza, posso dizer que admiro a capacidade que eles têm de arrastar multidões pra verem seu show, e olhe que era o quarto deles com o mesmo repertório. Foi o único lugar onde entrei e tava mais lotado que o circular da UFRN. Muito calor, suor e gente descamisada pra ver a banda e mesmo assim, todos estavam enlouquecidos. Fiquei só olhando mesmo, de longe, nada contra.

Matanza - Foto: Geni Laís

Matanza – Foto: Geni Laís

2 Responses

  1. Avatar
    Joanatan Richard

    Uma super postagem, Clara Monteiro!! Muito grato pelo comentário que fez sobre meu show, é gratificante receber um “feedback” desse!! Abração e sucesso!!

    Responder

Deixe um comentário

Your email address will not be published.