Fazer um filme acarreta uma série de responsabilidades e a necessidade da tomada inevitável de decisões. Tais decisões não só dizem respeito a quem, de fato, coloca a mão na massa durante a produção do filme, mas também ao público que o consumirá, aos anunciantes, produtores, críticos, etc. E aí reside uma das grandes dificuldades da vida de um diretor: ser leal a sua obra e ao que se acredita ser o melhor para o sucesso qualitativo da produção ou render-se ao que é esperado (aos moldes do “consumível”) dela?

Em Flores Raras, o mais novo filme do brasileiro Bruno Barreto, o diretor optou pela primeira opção. Desde o início, a proposta da produção encarou conflitos. Foram mais de dez anos até que se conseguisse tirar a ideia dos cadernos de anotação para os sets de filmagem. Montada a equipe, surge outro problema: os patrocínios. Ora, quem diria que um filme dirigido por um dos nomes mais respeitados do cinema brasileiro, com elenco que tem o peso do nome de uma das maiores atrizes contemporâneas brasileiras, Glória Pires, no topo, e ainda com profissionais (e enredo) internacionais envolvidos, encontrasse uma barreira tão intransigente no quesito investimentos. O problema é apenas um: a elite detentora do capital brasileiro, em sua grande parte, ainda olha torto e pensa não só duas, mas inúmeras vezes, antes de decidir por associar o seu nome a uma produção que tem como foco uma relação homossexual. Não importa todos os prós (equipe competente, a beleza e relevância da história, a sensibilidade dos personagens, e até a iminência de destaque em inúmeras premiações), prevalece o contra que surge da ignorância e preconceito aos quais até mesmo a arte ainda está submetida. O que importa é que “Flores Raras” saiu. E saiu apostando todas as fichas na honestidade e sutileza do seu roteiro e no talento de suas atrizes.

Cartaz brasileiro do filme

É verdade, “Flores Raras” não é um filme para todos os públicos, por mais que eu condene esse tipo de afirmação. Quando fui ao cinema, um dia após a estreia, conferir o filme, encontrei uma sala com menos da metade das cadeiras preenchidas por rostos pouco comuns ao que geralmente encontramos nas sessões comerciais de cinema. Nada de adolescentes eufóricos, jovens casais, trabalhadores a fim de distração, famílias em busca de lazer e amigas empolgadas. A grande maioria do público era composto por pessoas (aparentemente) acima de quarenta anos, casais idosos, e suas expressões de interesse me fizeram imaginar que provavelmente boa parte daquelas pessoas já havia tido algum contato com a história antes, fosse através da biografia Flores Raras e Banalíssimas, de Carmen L. Oliveira, da obra literária da escritora americana Elizabeth Bishop, ou talvez do legado arquitetônico deixado por Lota de Macedo Soares na cidade do Rio de Janeiro.

Talvez por já esperar muito do filme, não me surpreendi. Mas justamente por essa grande expectativa, não me frustrar também pode ser considerada uma vitória para a produção. “Flores Raras” conta a história de amor entre a poetisa Elizabeth Bishop e a arquiteta Lota de Macedo Soares. Sem cortes, sem eufemismos, sem medo da censura social. Mas não apenas isso. “Flores Raras” também conta a história, ou ao menos parte dela, de duas grandes mulheres e personagens importantes da história de seus respectivos países. E ainda explora as relações interpessoais de ambas, relacionado-as com as respectivas obras. É mágico ver as grandiosas interpretações de Glória Pires e da atriz australiana Miranda Otto nos fazendo acreditar que estamos invadindo o âmago e a intimidade de personalidades tão incríveis.

Muito já foi falado sobre a interpretação das duas atrizes, e impossibilitada pelo bom senso de fugir do todo, só posso reafirmar a genialidade da parceria entre elas. Bruno Barreto pretende que seus nomes estejam na cobiçada listagem de indicadas ao prêmio mais notável do cinema mundial, o Oscar, da Academia Norte-Americana. Creio que as duas mereceriam o privilégio. Mas dada a dificuldade de encaixar dois nomes de uma mesma produção, que não conta com a vantagem de ser hollywoodiana, na premiação, penso que não seja impossível que ao menos uma das duas talentosas protagonistas compareçam ao tapete vermelho como forte concorrente ao prêmio da noite. Mas isso é assunto para daqui a alguns meses.

Cartaz americano, com destaque para Miranda Otto

O filme tem fotografia e locações belíssimas, além de uma trilha sonora sensível (assinada por Marcelo Zarvos), coerente com o ritmo do filme. As interpretações secundárias também não deixam a desejar: Tracy Middendorf como Mary Morse, Treat Williams como o amigo e editor de Elizabeth, Robert Lowell, e Marcello Airoldi como o político brasileiro e amigo de Lota, Carlos Lacerda. Tudo corrobora para uma produção que funciona do primeiro ao último minuto. O espectador que não teve contato com o enredo anteriormente pode ficar um pouco confuso no quesito mudança temporal que (propositalmente ou não) Bruno Barreto optou por não especificar ao longo do filme. Notamos que o tempo passa apenas pelas poucas aparições de Clara, filha adotada de Mary, “neta” de Lota e “sobrinha” de Elizabeth, mas para os mais desatentos pode passar reta a informação de que o recorte temporal do roteiro é de quinze anos, entre os anos 1950 e 1960.

Embora o filme tenha se baseado no livro “Flores Raras e Banalíssimas” e tenha sido coerente com a obra literária em muitos aspectos, inclusive em sensibilidade, não se trata meramente de uma adaptação. “Flores Raras”, o filme, trás informações a mais, suprime outras e muda algumas. É uma obra própria e original, que não é completamente fiel à história original, mas como já disse em um artigo publicado neste mesmo blog, esperar cem por cento de fidelidade em uma obra cinematográfica é ingenuidade. Portanto, para o leitor que assiste filmes ansiando encontrar uma representação comportada de uma obra escrita, recomento que comece a praticar o desapego artístico e saboreie cada manifestação como um novo prato, com sabores que até podem ter semelhanças, mas, certamente, têm muito mais peculiaridades.

Posso dizer que “Flores Raras” foi, até agora, dos filmes brasileiros que vi, o melhor do ano. Ainda que classificá-lo enquanto filme brasileiro seja restringir e ofuscar a grandiosidade da produção, que envolve muitas outras nacionalidades, começando pela língua em que é falado (inglês,em sua quase totalidade). É bem verdade que poderia ter focado mais nas obras, menos na relação. É bem verdade que poderia ter escolhido um viés mais conservador e reprimido. Mas, felizmente, optou por não fazê-lo. E Bruno Barreto e companhia acabaram por entregar um lindo filme, sobre pessoas, relações e sentimentos.

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