freaks

“O corpo do monstro é como uma superfície inóspita na qual dificilmente poderíamos nos espelhar ou prolongar o nosso duplo. Nele, é quase impossível morar. Entretanto, aquele corpo monstruoso é, de direito, nosso duplo, como qualquer outro corpo. Daí a vertigem que nos provoca, visto que, com ele, quebra-se a proporção delicada entre simetria e assimetria, a relação adequada entre reversibilidade e irreversibilidade, entre o sentimento de ser mortal e imortal em vida.” (PEIXOTO JÚNIOR, 2010, p.183)

Assisti à Freaks (EUA, 1932) na sala da agência onde trabalho, no horário do almoço. Alguns dos meus colegas não ficaram até o final, precisavam ir ao banheiro, resolver alguma coisa… Outros, que permaneceram assistindo do começo ao fim, em várias cenas não seguravam o riso, não resistiam a uma ou outra piada. O grotesco está nessa mistura do feio com o cômico, não? Na vozinha fina do anão, na forma de andar desengonçada do que não tem pernas nem braços (“homem-cobra”) ou das gêmeas siamesas, na demora do gago ao falar… Não é à toa que essas personagens estão num circo e são atrações dele da mesma maneira que estariam o elefante ou o leão.

“Sujos! Repugnantes! Aberrações!”, é o que grita a Cleopatra na sua festa de casamento. Mas, afinal, o que é mais freak, monstruoso, bizarro? A aparência estranha do outro – que está entre o humano e o bicho, entre o homem e o animalesco – ou a ganância, a tentativa de envenenamento e o casamento por interesse? Fico com a segunda opção. Poderíamos estar todos enjaulados e expostos no circo, não? E é exatamente por isso que destaquei essa citação do Peixoto Júnior, logo no início do texto. Afinal, a estranheza que o monstro nos causa se dá exatamente por nos enxergamos nele, por ele expor a espécie de “obscenidade orgânica” que todos temos, por, ainda, ser “real ao extremo”, como nos diz Cristina Martinho em seu artigo As linguagens da monstruosidade entre o mundo medieval e moderno. Por nos ajudar a revelar quem nós somos. Dá um pouco de medo.

E é essa necessidade que temos dos monstros para nos colocarmos numa posição de normalidade somada a uma contida inveja deles, que subvertem o que a sociedade considera como padrão e normal, o que acredito ser o verdadeiro fascínio que eles nos causam. Por isso tantos filmes, livros, exposições, peças teatrais e danças que os usam como inspiração. Por isso o sucesso de Freaks, que vai mais além ao mostrar as diversas formas por meio das quais os os monstros se apresentam: nas pessoas com deformidades e, ainda e principalmente, nas ditas “normais”.

O que você acha? Vamos conversar! Se ficou interessado pelo assunto, então você também poderá curtir esse link 🙂

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