Muito tem sido falado de “Frozen”, a nova obra-prima da Disney, que tem encantado crianças, adolescentes e adultos, e seduzido habilmente a crítica e os júris de premiações. O enredo se passa no reino de Arendelle, onde Anna e Elsa, filhas do rei e da rainha, têm uma infância divertida, cheia de bonecos de neves e brincadeiras no gelo. Elsa é a filha mais velha, sempre cuidadosa e carinhosa com a irmã mais nova, Anna, mais afoita e desastrada. Elsa, contudo, possui uma característica especial que diverge da irmã mais nova: ela consegue fazer brotar gelo e neve, bem como manipulá-los.

Obviamente, no contexto infantil, isso é o paraíso e só leva mais emoção e diversão às brincadeiras das duas. Até o dia em que, acidentalmente, Elsa acaba machucando Anna com seu poder. A fim de “protegê-la” e tentar conter suas habilidades, os pais de Elsa resolvem afastá-la de Anna e prendê-la em um armário, digo, em um quarto. Como era de se esperar, afastar Elsa do mundo não adianta de muita coisa, e ela acaba apenas afundando cada vez mais em seus próprios receios e dúvidas e, em vez de conter o poder, ele apenas acentua-se na medida em que os anos passam, como se estivesse acumulado e na iminência de explodir a qualquer momento.

Ilustração de Luiza de Souza inspirada no filme "Frozen"

Ilustração de Luiza de Souza inspirada no filme “Frozen”

Desde 2006, quando a Pixar foi incorporada pela Disney, pudemos perceber uma mudança de postura partindo principalmente da Disney, que começou a produzir plots diferentes daqueles que recheavam o seu catálogo. Dois exemplos de produções resultantes desse período foi Detona Ralph (2012), assinada pela Disney, embora tenha muitos aspectos da Pixar incorporada, e Valente (2012), da Pixar, que detém estética e roteiro dignos da empresa de Walt Disney.

Definitivamente, “Frozen” foge aos padrões politicamente corretos do estúdio de “Branca de Neve” e “Cinderela”. Essa mudança, entretanto, se dá de forma sutil. Ainda temos personagens bonitos, cantorias, romance, príncipes, princesas, reinos e castelos, e “Frozen” se peculiariza pela forma diferenciada como aborda um contexto já tão batido. Boa parte dos argumentos que aqui utilizarei foram originalmente publicados no texto “7 Moments That Made ‘Frozen’ the Most Progressive Disney Movie Ever”, assinado por Gina Luttrell.

A imperfeição de Anna

disneys-frozen-2013-screenshot-anna-bell

Anna, a heroína do filme, irmã mais nova de Elsa e jovem princesa de Arendelle, passa longe de ser perfeita. É afoita, divertida, desajeitada, desastrada, se machuca facilmente, não tem o glamour esperado da realeza e parece nunca ter realmente se preocupado com o fato de que um dia poderia assumir o lugar de seu pai. Admira a irmã, Elsa, acima de tudo e não tem pretensão de ser melhor que ela. Contudo, possui uma coragem que ela mesma não reconhecia. Por mais que pareça focado em Elsa, “Frozen” também é um filme de transição para Anna, que passa a conhecer melhor a si mesma e a suas potencialidades.

Cadê o príncipe?

elsa-and-anna-frozen-25421-1680x1050

Okay, você, leitor, vai me recordar do príncipe Hans, pelo qual Anna apaixona-se primeiramente no filme. Mas quando me refiro à ausência de um príncipe, falo daqueles convencionais da Disney. Não há um príncipe em busca de sua amada, ou alguém que procura pelas florestas uma princesa adormecida para salvar-lhe com um beijo. Inclusive, o filme ainda faz questão de brincar com isso, ironizando suas próprias produções anteriores. Anna apaixona-se repentinamente pelo príncipe que lhe parece maravilhoso, e durante todo o filme é criticada pelos outros personagens por isso. E no momento em que precisa ser salva pelo “amor verdadeiro”, a Disney quebra a sua regra e esse sentimento não vem dos lábios de um homem bonito, alto e forte, com uma espada embainhada.

“Você não pode se casar com alguém que acabou de conhecer”

elsa-frozen

IDylQUU

Depois de décadas formando casais perfeitos que se apaixonam à primeira vista, a Disney caiu na real e assumiu que “você não pode se casar com alguém que acabou de conhecer”, através do personagem Kristoff, que parece achar impossível que Anna (ou qualquer pessoa) se apaixone por alguém que mal conhece. Há uma cena do filme em que Kristoff faz perguntas simples sobre o príncipe Hans (futuro marido de Anna), como “qual a cor favorita dele?” ou “o que ele gosta de comer?” e Anna não consegue responder a maioria delas. Essa é a Disney finalmente ensinando às crianças que amor verdadeiro leva tempo e permitindo que caia por terra a ideologia do amor eterno que surge em três segundos.

Elsa, Toda Poderosa

msf_frozen_cmi_elsa

Elsa, a protagonista, não tem um marido, em nenhum momento parece querer um, e se autoafirma quando resolve tomar as rédeas da sua vida e não mais se esconder devido às suas habilidades incomuns. Além disso, no filme, as mulheres detêm o poder (seja Elsa ou Anna, em determinado momento) e ninguém questiona isso. Em Frozen, ter uma rainha no poder é tão normal e aceitável quanto ter um rei. Ao contrário de vários outros filmes da Disney, em que aqueles com poder de decisão são sempre homens – a exceção das madrastas malvadas. As protagonistas, embora geralmente deem nome às obras, raramente estão no domínio de suas próprias vidas.

“Let it go” e como a Disney dialogou com o público gay

Disney-Frozen-Let-It-Go-4

Não é à toa que “Let it go”, música tema de Elsa no filme, concorre e é franca favorita na categoria de Melhor Canção Original. Apesar de a música ser uma dessas letras de auto-estima, cantada pela queridinha dos adolescentes Demi Lovato, e com uma melodia digna de um CD de Celine Dion ou Whitney Houston, “Let it go” vem completamente a calhar no filme e eu desconfio de qualquer pessoa que não tenha se emocionado ao menos um pouco durante a “libertação de Elsa”, que acontece tendo a música como pano de fundo.

A canção e a performance de Elsa (a mais drag que já vi em todos os filmes da Disney, convém dizer) dialogam com todos os que se sentem inseguros de alguma forma (em geral, adolescentes), mas de uma maneira muito particular com os gays. Quando diz Don’t let them in, don’t let them see/Be the good girl you always had to be/Conceal, don’t feel, don’t let them know/Well now they know (Não os deixe entrar, não os deixe ver/Seja a boa garota que você sempre teve que ser/Consinta, não sinta, não os deixe saber/Bem, agora eles sabem) é quase impossível não remeter às angústias e receios de um adolescente (ou adulto) que precisa esconder a sua sexualidade por medo da não-aceitação.

Há outras características no filme que acentuam essa relação, para citar algumas: a “prisão” de Elsa e o momento em que ela “sai do quarto”, que seria o mesmo que “sair do armário” para o mundo gay; o fato de Elsa ter terminado o filme sem um príncipe, o que é bastante incomum para uma protagonista da Disney; o próprio percurso de Elsa durante a narrativa, descobrir seu “problema”, esconder-se, depois a auto-aceitação seguida do isolamento por julgar que os outros não a aceitariam, e só então a inserção na sociedade, como alguém normal e respeitada.

A identificação foi tanta que logo foi possível encontrar várias adaptações livres da história (em texto ou ilustrações) que remetiam a um romance entre Elsa e Anna. Abaixo, reproduzo uma delas. E várias outras podem ser encontradas nesse link.

elsa_anna___frozen_by_dreamyartistroxy3-d6xxeto

Por fim, “Frozen” é, além de um filme bonito, um ponto de virada na história das animações da poderosa Disney. Um reconhecimento das novas estruturas sociais por parte da empresa e é impossível não admirar isso. Ah! Para aqueles que assistirão (ou assistiram) à versão brasileira dublada, a melhor parte é a dublagem do ator Fábio Porchat do boneco de neve Olaf. Olaf, à propósito, é o personagem mais divertido do filme. Impossível não amá-lo.

Deixo agora uma das versões mais bonitas que encontrei na internet de “Let it go”, que tem sido quase tão reproduzida quanto o Harlem Shake (tudo bem, exagerei). De arrepiar. Assistam:

4 Responses

Deixe um comentário

Your email address will not be published.