A Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood entregou na noite desse domingo (12) os Globos de Ouro para os profissionais do Cinema e Televisão. Com toda pompa e circunstância, a 71ª edição da premiação abriu o calendário de grandes festividades e eventos do audiovisual norte-americano. Novamente, Tina Fey (30th Rock) e Amy Poehler (Parks and Recreation) ficaram a cargo da apresentação, no entanto, as excelentes comediantes estavam um tanto quanto mornas, assim como a cerimônia em si.

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As apresentadoras Tina Fey e Amy Poheler não estavam em noite inspirada

A política de distribuir prêmios entre as diversas produções e a necessidade de dividir em categorias de drama e comédia/musical, não fazem do Globo de Ouro exatamente um termômetro para o Oscar. Confesso que dentre as diversas cerimônias competitivas, a da Associação de Imprensa Estrangeira sempre foi a que mais me agradou, tanto pelo fato de premiar profissionais da televisão, como do cinema, mas sobretudo por ter um júri mais amplo e (supostamente) de mente menos fechada, diferente dos puritanos da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Contudo, acho que no fim das contas a indústria fala mais alto e, mesmo que em menor proporção, exista uma politicagem na escolha dos premiados.

Como é de praxe, boa parte dos filmes concorrente não chegaram ainda às telonas brasileira, dificultando assim os palpites e críticas acerca dos indicados. Bem como no ano passado, quando “Lincoln” (2013) de Steven Spielberg liderava as indicações com 7 prêmios e amargou apenas um, de melhor ator, para Daniel Day-Lewis, o campeão de indicações, “12 Anos de Escravidão”, com sete indicações venceu apenas um prêmio. O longa do Steve McQueen, que segue na mesma linha, falando sobre escravidão, foi eleito o Melhor Filme de Drama. Mas a hegemonia da noite ficou a cargo de “Trapaça” (American Hustler) dirigido por David O. Russel. As atrizes Jennifer Lawrence e Amy Adams levaram pra casa os globos dourados de melhor atriz coadjuvante e melhor atriz em comédia, respectivamente. “Trapaça” também garantiu o prêmio de Melhor Filme de Comédia do ano.

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Sobre a pose da produtora de “Trapaça”, Megan Ellison: “Investi nesse filme, então posso posar com as gatinhas, assim ó”

As campanhas pra determinados filmes ou atores vencerem competições não foram tão evidentes este ano, aliás, minto, uma foi sim. “Capitão Phillips” (veja crítica aqui), filme de Paul Greengrass, é um filme bem feito e com um forte apelo patriota, mas não tinha chances de levar o prêmio de filme do ano, e sim de melhor ator (em drama). Aí então que a campanha para eleger Tom Hanks se iniciou. Hanks é um ator excelente, desde os besterois de sessão da tarde, como o ingênuo Josh de “Quero Ser Grande” (1988), até  Andrew Beckett, o advogado portador do vírus HIV em “Filadélfia” (1993), o norte-americano mostra seu talento e versatilidade. No entanto, em Capitão Phillips ele não está nada demais, salvo duas cenas finais, em que de fato, o ator tem lampejos de genialidade, de resto é absolutamente comum. Hanks tem carisma e influência, não me espantaria nada se ele fosse indicado ao Oscar ou vencesse o Sindicato dos Atores (SAG Awards).

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Elenco de “12 Anos de Escravidão”, vencedor de Melhor Filme de Drama

O primeiro prêmio da noite já dividiu opiniões, o de atriz coadjuvante na categoria de Cinema. A nova queridinha da América e a bola da vez do diretor David O. Russel, Jennifer Lawrence, foi agraciada por seu trabalho em “Trapaça” (2013) com mais um prêmio pra sua recente, porém, recheada, coleção. No feito, vale lembrar que Lawrence derrubou a grandiosa atuação da veterana Julia Roberts em “Álbum de Família”, também concorrente na categoria. A atriz, que até bem pouco tempo não era ninguém em Hollywood, fez aparições em séries como “Monk” e “Medium” e em 2011 já chegou como indicada ao Oscar por sua atuação em “Inverno da Alma” (2010).

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Bonita, talentosa e carismática, Lawrence tem todas as ferramentas para crescer na indústria, ela é sem dúvidas uma das melhores, senão a melhor atriz de sua geração, mas o Oscar de Melhor Atriz por “O Lado bom da Vida” (2013) precoce fez com que muitos cinéfilos e críticos passassem a rechaçá-la e alguns a desmerecê-la. A verdade é que a indústria achou alguém de talento em que pode se apegar, ela é uma ótima atriz, isso é inegável, mas o excesso de exposição da mídia, seja por publicidade ou mesmo pelo elevado número de filmes que vem fazendo, vem começando a desgastar sua imagem.

Lawrence ainda tem muito chão pra andar e uma carreira para se consolidar, mas esperta, está aproveitando a publicidade para trabalhar. Desde sua primeira aparição em premiações, já fez oito longas e tem mais cinco engatilhados. Se a politicagem do ano passado não deu o famigerado prêmio de Melhor Atriz a Emmanuelle Riva por “Amor” (2013) no Oscar, vejamos se este ano Lawrence não se mete em mais uma polêmica e reafirma seu talento, em sua interpretação de Rosalyn Rosenfeld em “Trapaça”.

Jared Leto poses backstage with his award for Best Supporting Actor in a Motion Picture for his role in "The Dallas Buyers Club" at the 71st annual Golden Globe Awards in Beverly Hills

Jared Leto, como já comentei aqui antes, é um ator talentoso, mas no meio do caminho resolveu engrenar uma carreira como cantor e enveredou pelos palcos com sua banda, 30 Seconds to Mars (que eu particularmente não gosto). Leto levou o troféu de Melhor Ator Coadjuvante por sua atuação em “Dallas Buyers Club”. Sua transformação física foi desde emagrecer vertiginosamente a raspar boa parte dos pelos do corpo, para encarnar Rayon. Também do mesmo filme, Matthew McConaughey, por fim, venceu algo, ou como ele bem disse ao receber o prêmio de Melhor Ator em Drama: “É bom receber esse prêmio depois de ter sido rejeitado inúmeras vezes”. Muitos esperavam e clamavam por um Tom Hanks ou ainda Robert Redford, apesar do seu controverso filme “All is lost” (em tradução livre Tudo está Perdido), mas deu zebra.

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Deixando as controversas de lado, dois prêmios, foram para atores reconhecidamente talentosos e queridos. O novo trabalho do diretor Martin Scorsese, “O Lobo de Wall Street” logrou um prêmio na noite, o de Melhor Ator em Comédia, para Leonardo DiCaprio. Este foi o segundo prêmio do ator, o primeiro foi por “O Aviador” em 2005. DiCaprio encarnou Jordan Belfort, um magnata da Bolsa de Valores. Cate Blanchett confirmou o favoritismo e sagrou-se como Melhor Atriz de Drama, barrando nomes de peso como Judi Dench, Emma Thompson, Kate Winslet e Sandra Bullock. Blanchett, elegante, agradeceu ao diretor, Woody Allen.

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Por falar em Woody Allen, o diretor foi o homenageado com o prêmio Cecil B. DeMille pelo conjunto da obra. Como é de seu feitio, Allen não compareceu a premiação, uma vez que não acredita em competição no que diz respeito a arte. Diane Keaton, uma de suas musas e sua melhor amiga, foi até o palco para receber o prêmio em sua homenagem. Keaton foi muito gentil com o amigo. Responsável por mais de 40 filmes, Allen já foi premiado com o Globo de Ouro de melhor roteiro em 1986, pelo filme “A rosa púrpura do Cairo”, e em 2011 por “Meia-noite em Paris”.

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Como já era de se esperar, o mexicano Alfonso Cuarón venceu na categoria Melhor Diretor, pelo seu excelente trabalho no filme “Gravidade” (2013). O longa concorria ainda em mais duas categorias, de Melhor Atriz (em drama) e  Melhor Trilha Sonora, mas foi preterido para “All is Lost”, vencida por Alex Erbert (vocalista da banda Edward Sharpe & The Magnetic Zeros). Sandra Bullock emprestou sua beleza no tapete vermelho, mas saiu de mãos abanando.

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Uma grata surpresa foi o prêmio de melhor roteiro para Spike Jonze, o diretor e roteirista de “Ela”, e que é uma das cabeças mais criativas do cenário hollywoodiano atual, já deu mostra de seu talento em: “Quero Ser John Malkovich” (1999) e “Adaptação” (2002).

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Outra categoria já esperada foi a de Melhor Canção Original. Apesar das ótimas músicas do musical da Disney, “Frozen”, a relevância de um U2 e de uma morte recente de um ícone mundial, como Nelson Mandela, prevaleceram. “Ordinary Love”, composição de Bono e companhia está na trilha do filme “Mandela”.

A Disney ganhou novo fôlego e fez um musical excelente, “Frozen”. A animação concorria ao lado do pouco inspirado “Os Croods” e da sequência de sucesso, “Meu Malvado Favorito 2”. Diante de tão pouca criatividade, a história das irmãs Ana e Elsa de um congelante reino se sobressaiu. O filme, além das referências interessantes, também tem ótimas canções.

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Apesar de todo o frisón, “Azul é a Cor Mais Quente” não levou o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro. O eleito pelo júri da Associação de Imprensa Internacional foi o italiano ” A Grande Beleza”. Confesso que minha torcida não ia nem pra um nem para o outro, mas sim para o dinamarquês “A Caça”.

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No que diz respeito a TV, algumas surpresas: os merecidos prêmios a Breaking Bad e um péssimo gosto para comédias. Bryan Craston sagrou-se, como já era de se esperar, como melhor ator em série de drama. Breaking Bad, que se encerrou ano passado, também levou o prêmio de Melhor Série de Drama. Elisabeth Moss,  por fim, foi reconhecida, vencendo na categoria Melhor Atriz em Minissérie ou Filme Para TV, por sua atuação na série Top Of The Lake, deixando de lado a sombra de Mad Men.

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O favoritismo de “Behind the Candelabra”(Melhor Minissérie ou Filme Para TV) se manteve, e tanto Michael Douglas (Melhor Ator em Minissérie ou Filme para TV) quanto o filme levaram prêmios. A veterana Jacqueline Bisset fez um discurso emocionado ao receber seu prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante por seu trabalho em “Dancing on the edge”. Outro veterano que se emocionou ao receber seu prêmio foi John Voight, que foi eleito Melhor Ator Coadjuvante por sua participação na série “Ray Donavan”.

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Robin Wright (ex-Penn) sempre foi uma atriz de talento, no entanto, vivia a sombra de seu ex-marido, Sean Penn. Robin desbancou Julianna Margulies (favorita para mim) e a superestimada Kerry Washigton e levou o prêmio de Melhor Atriz em Série de Drama. Amy Poehler, além de apresentar também estava concorrendo na categoria Melhor Atriz de Comédia por “Parks and Recreation”. Minha torcida, contudo, era por Julia Louis Dreyfus (“Veep”), mas fiquei contente com o prêmio, que foi mesmo recebido por Poehler. Inusitada foi a escolha de “Brooklyn 9-9” como melhor série de comédia e de Andy Samberg (da mesma série), como Melhor Ator em Série de Comédia. Confesso que não gosto nem um pouco do trabalho do ator e da série em si, mas enfim, vai entender.

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O rolé tava tão morgado que Tina Fey e Amy Poehler resolveram tomar uns gorós

Discreta, sem bafafás ou grandes momentos, assim foi a cerimônia. O ponto alto da noite foram as justas premiações de Cate Blanchett e Leonardo DiCaprio. Resta agora esperar pela quinta-feira (16) para conferir os nomes que figuraram na seleta lista dos indicados ao Oscar 2014.

3 Responses

  1. SAG Awards: Sindicato dos Atores elege vencedores e fortalece nomes na corrida do Oscar | O Chaplin

    […] A insanidade da júri do Globo de Ouro nas categorias de série e ator para TV não se confirmou, até porque “Brooklyn 9-9″ não foi sequer concorrente.  Julia Louis-Dreyfus, levou o prêmio de Melhor Atriz em Série Cômica por sua atuação em “Veep”. Por outro lado, Ty Burrel (Modern Family) venceu na categoria Melhor Ator em Série Cômica. Os prêmios mais importantes concedidos pelo sindicato são o de Melhor Elenco e a já nem tão engraçada assim Modern Family contabilizou mais uma estatueta para a coleção. […]

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  2. Drama da vida real que Woody Allen teceu: gênio ou monstro? | O Chaplin

    […] Entretanto, as recentes (ou não tão recentes assim) notícias relacionadas com Allen podem render um roteiro para a próxima película dele (ou de Pedro Almodóvar, talvez), uma vez que os fantasmas da sua polêmica separação com a consagrada atriz Mia Farrow voltaram à tona, junto com a acusação de o diretor ter cometido pedofilia com sua filha Dylan (quando tinha sete anos), após a indicação ao Oscar pelo filme “Blue Jasmine” e a homenagem que lhe fizeram na cerimônia do Globo de Ouro. […]

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