Em alguns dias pontuais (e raros) durante o ano, resolvo sair do circuito de blockbusters comerciais que os cinemas oferecem e das listas de “clássicos para ver” as quais tento acompanhar e revisito alguns sites que indicam produções “alternativas”, ou seja, filmes que não chegam aos nossos olhos através das salas de cinema, geralmente de origem marginal (leia-se, de países cuja produção não é tão vista quanto a norte-americana ou a de alguns países da Europa). Foi assim que descobri “Goddess” (2013), um musical, que também se autodenomina comédia romântica, dirigido por Mark Lamprell e estrelado pela bela Laura Michelle Kelly. O filme é baseado é uma peça de teatro, “Sinksongs”, estrelada e escrita pela roteirista do filme, Joanna Weinberg.

Apesar de aparentemente simpático, “Goddess” não convence, e seus problemas começam em um enredo pouco instigante (para não dizer entediante). Elspeth Dickens (Laura Michelle Kelly) é uma jovem dona de casa, que tem como funções cuidar do lar e do seus dois gêmeos, Fred e Zac, enquanto o marido James (Ronan Keating) viaja em operações marítimas para salvar as baleias do mundo. Frustrada com a distância, a solidão e a rotina, Elspeth instala uma webcam em sua casa para tentar manter contato com o marido. Contudo, quando não obtém sucesso, ela abre uma página na internet em que as pessoas podem acessar os seus vídeos ao vivo. Assim, Elspeth, que é uma exímia cantora e adora realizar performances, começa a fazer pequenas apresentações para um público que aos poucos vai crescendo. Logo, ela é observada por uma importante empresa que deseja utilizar de sua imagem e talento após se tornar uma sensação da internet.

Laura Michelle Kelly como a dona de casa em busca da fama Elspeth

Um aspecto chama atenção desde as primeiras cenas, e foi um dos motivos que me fez continuar firme na missão de assistir ao filme até o fim: a fotografia e a direção de arte. O filme é colorido e as imagens são muito bonitas, apesar de simples. A câmera deixou a protagonista (que já é um espetáculo de beleza e simpatia) ainda mais agradável aos olhos do espectador e, apesar da pouca identificação com a personagem, a quase estreante atriz britânica encanta com sua voz e carisma.

Cartaz do filme

O filme demora a começar, de fato. Até quase a metade do tempo, não parece contar história alguma e as coisas só começam a acontecer de fato quando Elspeth começa a fazer sucesso na internet. Ainda assim, não é suficiente para dizer que o filme se torne interessante. O conto é mais uma versão da Cinderela moderna. Elspeth é uma mulher “comum”, aparentemente sem atrativos ou perspectivas, insatisfeita com a vida que tem levado, e então se torna elegante, famosa e atraente. Isso provoca complicações no âmbito sentimental e familiar, e também faz a personagem repensar seus valores e objetivos de vida.

O ponto forte do filme poderiam ser as cenas musicais. Mas essas também não chamam qualquer atenção e, na verdade, conseguem tornar o filme ainda mais enfadonho. Apesar da bela voz de Laura Michelle, por diversas vezes fiquei tentada a passar as cenas de cantoria, que pouco acrescentam para a trama ou para a percepção do espectador. Não há dinâmica, letras ou performances que justifiquem as canções.

O restante do elenco é completamente aleatório no filme, mas considerando o fraco roteiro já comentado, podemos dizer que os atores estão até compatíveis com o conjunto da obra. Para os mais de cem minutos de filme, a produção tem poucas reviravoltas e momentos marcantes, e ao fim da película, as coisas não estão muito diferentes do que estavam no início.

Elspeth e Cassandra Wolfe (Magda Szubanski), a “vilã” capitalista e desumana da história

Em alguns momentos, “Goddess” lembra filmes infantis, como Mary Poppins, mas o foco no drama de uma pessoa adulta, que se divide entre sua carreira, novas experiências e sua família não parece de fato direcionado às crianças. O diretor se perde no seu público alvo, quando promete uma proposta direcionada a adultos (com conflitos pouco interessantes para crianças) em um formato completamente infantilizado.

“Goddess” é uma produção simplista, e desnecessária. Reconheço o pouco orçamento (pouco mais de 1,5 milhão), mas seu maior pecado está no campo das ideias e da construção da narrativa. Em contra partida, sua maior qualidade é exibir Laura Michelle Kelly, que mesmo com o talento ainda em fase de amadurecimento, tem carisma e presença, que poderão, quem sabe, ser melhor utilizados em uma produção melhor que esta.

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