Em 1954, os japoneses foram apresentados a um personagem que, posteriormente, ocuparia o imaginário coletivo da população mundial. Surgido da Toho Film, Godzilla (ou Gojira) se firmou como ícone da cultura pop e como o precursor dos gêneros Tokusatsu, expressão japonesa para filmes de efeitos especiais nascida da junção das palavras Tokushu Satsuei, e Kaiju Eiga, que significa filme de monstro. Além disso, o rei dos monstros tem um vínculo emotivo com seu público de origem.

Godzilla

Poster de Godzilla (1954) dirigido por Ishirô Honda

Assim como a série 24 Horas e o filme Bastardos Inglórios representam, respectivamente, os traumas do “11 de setembro” e do nazismo, o Godzilla é a representação do trauma japonês às bombas de Hiroshima e Nagasaki. Nos filmes clássicos existem inconsistências quanto à origem de Gojira, mas quase sempre o vemos como um monstro pré-histórico despertado pela Era Atômica, marcada pelas explosões nas cidades do Japão e pelos testes nucleares realizados no Oceano Pacífico. E é nesse contexto que, 60 anos depois, o ícone japonês ganha uma releitura-homenagem em Hollywood.

Na trama, a descoberta de um fóssil nas Filipinas e um acidente numa usina nuclear no Japão estão diretamente ligados. Não aceitando o ocorrido como acidente, o cientista Joe Brody (Bryan Cranston, de Breaking Bad) decide pesquisar. 15 anos se passam e os indícios que o fizeram duvidar do acidente na usina reaparecem e revelam uma força da natureza desproporcional a tudo já visto pelo homem, um monstro chamado pelos humanos de MUTO, e que põe em risco a população mundial.

Sem fugir do lugar comum de filmes-catástrofe, a nova versão do Godzilla encontra um ponto importante e eficiente em seu roteiro. Apesar de uma trama simples e totalmente propensa ao espetáculo (ou espetaculoso), o roteiro de Dave Callaham (Os Mercenários 2) e Max Borenstein (Swordswallowers and Thin Men) consegue costurar o filme sempre levando-o  pra frente. Porém, algumas coisas são difíceis de engolir, como o fato de os cientistas Ishiro Serizawa (Ken Watanabe, de A Origem) e Vivienne Graham (Sally Hawkins, de Blue Jasmine) declararem que nunca conseguiram estudar os MUTOs, mas sempre sabem exatamente como orientar as forças armadas, como se antevissem onde essas feras estarão.

Ken Watanabe e Sally Hawkins

Outro exemplo de quão vago o roteiro consegue chegar a ser é quando o Godzilla nada em direção aos Estados Unidos, e Ishiro, depois de todo o esforço do exército em parar as ameaças, olha para o almirante e diz: “deixe eles brigarem!” Não que isso, por si, seja um grande problema. Afinal, essa frase não é mais do que um fanservice e é por isso que boa parte do público foi ao cinema. Mas ver todo o esforço no segundo ato ser descartado com uma frase dessas me deu a sensação de ser enganado, no mau sentido, pelo filme.

A direção de Gareth Edwards (Monstros) é competente. Apesar de críticos apontarem como defeito, a característica de evitar o monstro durante os dois primeiros atos e, enfim, mostrá-lo sempre sob a ótica dos humanos me agradou muito. Mesmo sabendo que o astro é o Godzilla (e que este é mais carismático que o protagonista humano!), a plateia precisa se identificar com algo em tela. Daí que vejo de forma positiva a aparição do rei dos monstros sob os olhos dos civis que tentam se salvar ou dos militares que tentam impedi-lo.

A fotografia do filme também é eficiente ao trazer algumas cenas plasticamente bonitas, embora algumas delas só existam por pura estética, ignorando a função estrutural que têm dentro de um roteiro. Por exemplo, a cena vista nos trailers onde soldados saltam de paraquedas e descem próximo ao Gojira; o artifício do salto é totalmente desnecessário para a missão que os soldados precisam realizar, podendo chegar ao trajeto sem precisar tomar um avião e saltar. A cena acaba sendo uma forma bonita de criar suspense, mas vazia.

O diretor Gareth Edwards, à direita, preparando uma das cenas de ação.

Edwards mostra boa capacidade em realizar cenas de ação, principalmente quando envolvem as bestas gigantes. Corroborando com o clima das cenas está o ótimo trabalho de Alexandre Desplat (indicado ao Oscar® 2014 por Philomena), que faz uma trilha eficiente, totalmente dentro do contexto da obra e que ainda remete à original.

O ponto mais controverso da película vem de seu elenco. Dispondo de nomes como Juliette Binoche (Cosmópolis), David Strathairn (Lincoln) e os já citados Sally Hawkins, Ken Watanabe e Bryan Cranston, por algum motivo que não é plausível, o protagonista humano é Aaron Taylor-Johnson (Kick-Ass 2), que tem o carisma de um prédio. Aliás, de um prédio não, já que os prédios devastados na produção conseguem passar mais sentimento que o ator. O próprio Godzilla pareceu esboçar duas ou três expressões faciais a mais que Taylor-Johnson (ok, exagero. Mas vocês entenderam meu ponto).

Bryan Cranston conduz com talento o primeiro, e melhor, ato do filme.

Binoche e Strathairn fazem participações especiais e Hawkins tem um papel totalmente inútil cujas falas poderiam ser adicionadas ao também subaproveitado Watanabe. De todos os coadjuvantes, quem brilha é Cranston ao conduzir o primeiro ato com a dor e a paixão necessárias ao seu personagem. Embora tenha funcionado bem no primeiro Kick-Ass, Taylor-Johnson só consegue desenvolver alguma química com Cranston (ba dum tiss). De resto, suas interações são apáticas. E pra piorar, seu personagem carrega o sobrenome Brody, para a tristeza dos produtores de Homeland!

Gojira – 1954

A estrutura do filme tenta brincar quanto ao seu protagonista. Enquanto o astro de Breaking Bad comanda o primeiro ato (curiosamente o melhor desenvolvido) e o de Kick-Ass comanda o segundo, o terceiro ato e o clímax são do verdadeiro dono da película, dando novo vigor à produção.

Gojira – 2014

Com efeitos inacreditáveis e uma semelhança física ao monstro de 1954, o novo Godzilla é assustadoramente majestoso e impecável. Sua interação com as cidades e com os MUTOs é de tirar o fôlego e dá ao fã do gênero o real motivo para estar no cinema. Características originais foram atribuídas ao rei dos monstros que, apesar de seu tamanho e peso, consegue se movimentar com agilidade nos dando a sensação de que a física que deveria envolver algo assim foi respeitada (ou idealizada de forma coerente.). Pena que ele brilhe por pouco tempo.

Godzilla não é o filme que nos foi vendido em seus trailers e acaba se pondo como mais um do gênero. Porém, ele cumpre sua função de forma absoluta, que é entreter o público que sabe muito bem o que encontrará na sessão.

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