Gonzaga – De Pai para Filho: Um filme danado de bom

O ano de 2012 rendeu diversas homenagens a Luiz Gonzaga: de inspiração para o desfile campeão da Unidos da Tijuca no carnaval do Rio de Janeiro a comemorações nas maiores festas de São João do Brasil, em Caruaru e Campina Grande. Mas, sem dúvida, a melhor homenagem feita ao ilustríssimo rei do baião foi o filme “Gonzaga – de pai para filho” (Breno Silveira, 2012), a quarta maior estreia nacional do ano passado. A fim de que muitos milhões de brasileiros a mais pudessem acompanhar a complicada relação entre Gonzagão e seu filho, Gonzaguinha, o filme foi transformado em microssérie pela Globo, que foi exibida nesta semana.

No filme ou na microssérie, tanto faz, a emoção não poderia faltar numa obra com o nome de Breno Silveira. Ela está presente da primeira à última cena e foi reforçada por alguns elementos presentes em outros filmes do diretor, tais como “2 Filhos de Francisco” (2005) e “À Beira do Caminho” (2012): veia biográfica, música e, principalmente, relações familiares intensas. As personalidades fortes desses dois ícones da música brasileira foram retratadas por um elenco muito bem integrado, que não permitiu que a essência das personagens se dissipasse de uma fase a outra. Nesse sentido, merecem reconhecimento Adélio Lima (Gonzagão na maturidade) e Júlio Andrade (Gonzaguinha adulto), que se entregaram ao perfil de resistência que cada uma das personagens demandava. Chambinho do Acordeon (Luiz Gonzaga adulto) encantou ao encarnar um Luiz Gonzaga mais divertido e Ana Roberta Gualda (Helena) destacou-se na interpretação da turbulenta Helena, segunda mulher de Gonzagão e madrasta de Gonzaguinha.

Adélio Lima (à esquerda, interpretando Gonzagão) e Júlio Andrade (à direita, interpretando Gonzaguinha) contribuíram para as sequências mais emocionantes do filme

Quanto ao roteiro, a impressão que se tem é de que ele não poderia ter sido construído melhor. A biografia é iniciada a partir do momento em que Gonzaguinha, já com carreira musical consolidada no final da década de 70, decide encontrar seu pai, com dificuldades financeiras, no sertão de Pernambuco. Lá, as mágoas do filho de Gonzagão borbulham e o rei do baião decide apresentar a sua vida ao filho, permitindo aos espectadores mergulhar nesse flashback. Mesmo parecendo ter sido narrado em primeira pessoa, o filme não deixa de confrontar as cenas da difícil ascensão musical de Luiz Gonzaga com o consequente abandono paterno experimentado por Gonzaguinha. O embate desses trechos, intercalados com diálogos exaltados do encontro em Pernambuco, é que dá dinamicidade e emoção ao filme.

Construído dessa maneira, fica difícil para o público julgar se Gonzagão é o vilão da infância/adolescência de Gonzaguinha e grande colaborador de sua personalidade árida. Também é difícil emitir um juízo de valor quanto à polêmica questão da paternidade de Gonzaguinha (sutilmente abordada no filme, ou seja, mais um êxito de Breno Silveira). Só se pode afirmar com certeza é que o espectador, ao sair da sala de cinema, aprendeu que o destino separou estes dois gênios com características emblemáticas. Mas o talento para música, passado de “pai para filho”, conseguiu uni-los muito bem.