O aguardado novo trabalho de Quentin Tarantino, enfim, entrou em cartaz em Natal ontem, e eu, muito curiosa que sou, fui logo conferir em uma das primeiras sessões. Ao entrar na sala me deparo com entusiastas do diretor, ansiosos. Acho divertidíssimo assistir filme em sessões repletas de fãs, porque ameniza minha chatice e me dá uma perspectiva mais coerente sobre a obra. Dito isso, vamos deixar de egocentrismo e falar do filme, que é o que interessa! A primeira imagem na tela é o símbolo da Columbia Picture vintage e, em seguida, a icônica música tema de Django(western spaghetti de 1966), composta pelo trilheiro argentino, Luis Bacalov, marca a primeira cena, em que vemos escravos em uma locação lindíssima repleta de pedras. Ah Tarantino, seu sacana, você sabe como me ganhar!

Dupla de caçadores de recompensa: Dr. Schultz (Christoph Waltz) e Django (Jamie Foxx)

Norte-americano de Knoxville, Tennessee, Quentin sempre foi fã de faroestes e desde Kill Bill vol.1 que eu já notava um ar de western spaghetti em seus trabalhos. Então, por fim, ele resolveu prestar sua homenagem a um dos mais famosos filmes do gênero, Django (dirigido pelo italiano Sergio Corbucci), um clássico dos anos sessenta, estrelado por Franco Nero. No longa “tarantiniano”, o protagonista é um escravo que é liberto por um dentista alemão, caçador de recompensas, Dr. King Schultz (Christoph Waltz). Estes firmam uma parceria a procura de foras da lei pelos estados escravistas do sul norte-americano. Django (Jamie Foxx) tem um desejo: reencontrar sua esposa, escrava, Brumhilda Von Shaft (Kerry Washington).

O roteiro de Django Livre, trás inúmeras referências tanto ao western de sessenta e seis, como também à cultura nórdica. Dr. Schultz conta ao personagem de Jamie Foxx sobre uma lenda famosa em seu país, que narra o amor de Brulmhilda, uma filha de deuses que desobedece seu pai e é posta em um castelo guardado por um dragão, e por fim é salva pelo herói, Siegfried. Temos então um paralelo entre um homem destemido que enfrenta todos os desafios para salvar sua amada. Outro ponto é a humanidade do personagem de Waltz: ele se sente responsável pelos passos do negro que libertou e vê com grande desprezo a escravidão. Ele ensina não somente Django a matar, mas a ler e ter uma visão mais esclarecida do mundo a sua volta.

Django (Jamie Foxx) ainda escravo

Diferente dos faroestes norte-americanos ou mesmo dos westerns spaguetti, o longa de Tarantino se passa no sul escravista dos EUA, dois anos antes da Guerra Civil norte americana. A escravidão era cruel, violenta e sanguinolenta. Uma das cenas mais inteligentes e engraçadas do filme é a tentativa de emboscada criada por Big Daddy (Don Johnson) quando reúne homens encapuzados com sacos brancos na cabeça – uma nítida referência ao que seria os primórdios da organização racista Ku Klux Klan – que pretendem matar Dr. Schultz e Django. Já vale o ingresso.

Após caçar diversos foras da lei e atormentar fazendeiros, Django quer achar Brumhilda, esta se encontra em uma fazenda de nome pra lá de irônico, “Candyland”, propriedade do maior latifundiário da região, Monsieur Calvin Candie (Leonardo Di Caprio). Sagaz, o Dr. Schultz descobre que o fazendeiro é grande fã de um esporte chamado “Mandingo Fight”, onde dois escravos lutam até a morte de um deles. Isso me lembra outro esporte, bastante venerado em terras tupiniquins. Em uma das cenas mais violentas do filme, temos a participação do Django da versão original, o ator italiano Franco Nero, que faz uma pontinha como dono do escravo que perde a luta.

Django Freeman e Django original

 Candyland proporciona as cenas de maior violência, excelentes atuações e também, temas espinhosos, lá encontramos escravos que são treinados para lutas e também Stephen (Samuel L. Jackson), um escravo que abnega sua etnia em prol do senhor branco que lhe dá autoridade dentro de sua propriedade. Samuel L. Jackson fez um trabalho que merecia mais atenção por parte das premiações,com uma maquiagem e um trabalho corporal que o deixam na forma de um velhinho atrevido, racista e perspicaz, tornando a vida do (anti)herói um tanto mais complicada. Django Livre concorre a cinco categorias no Oscar deste ano: melhor filme; ator coadjuvante (Christoph Waltz); roteiro; edição de som e fotografia.

Com um personagem escrito especialmente para si, Christoph Waltz está formidável, como o caçador de recompensa rápido no gatilho. Jamie Foxx está bem, mas frente aos demais fez apenas um bom trabalho. Leonardo Di Caprio rouba a cena, como o afetado e infame Calvin Cadie. No que diz respeito à parte técnica, eu acredito que de trash só o sangue mesmo, porque o esmero da produção é notável em cada peça do figurino, em cada reconstituição de época e em cada take das belíssimas locações, fora a trilha sonora com músicas que vão de temas clássicos do bang bang, passando pela Black Music até chegar aos dias atuais do hip hop e pode ser conferida aqui.

Calvin Candie (Leonardo DiCaprio) e seu criado, Stephen (Samuel L. Jackson)

Quando falamos de Tarantino, estamos levando em consideração o gênero “explotation”, estilo que aborda de maneira exagerada, apelativa e mórbida o tema tratado. A verborragia dos personagens e seus nomes irônicos; o excesso de violência e sangue; as trilhas sonoras com músicas escolhidas a dedo e o humor negro são característicos do cineasta. Seus filmes são feitos para diversão. Na realidade, a última coisa que o diretor quer é ser politicamente correto e aí é que reside toda a sua criatividade e diferencial.

Django Livre se compromete em garantir a diversão daqueles que assistirem os seus mais de 160 minutos de película, com um roteiro inovador para os westerns; grandes atores em boas atuações, polêmica e bom humor. Tarantino acertou a mão e fez um dos filmes mais divertidos e interessantes do gênero western.

A título de curiosidade, Tarantino, para promover seu filme, criou o: Django Unchained Emerging Artist , que selecionava jovens e promissores artistas no Comic Con de 2012. O HQ/curta,“ MALÁRIA”, trata da história de um jovem mercenário que foi contratado para matar a morte. O tema não é novidade, mas este é diferente, o curta, criado por Edson Oda e com equipe só de brasileiros, reúne de forma extremamente criativa (pra não usar outro adjetivo), várias formas de arte como: ilustração, nankin, Origami, efeitos de tempo e câmera, tudo ambientado em um velho-oeste americano, que vocês podem conferir no vídeo abaixo.

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