Hilda Hilst é uma das figuras mais curiosas da literatura brasileira contemporânea. Dona de um estilo próprio, econômico em termos de recursos, ela é considerada uma das maiores escritoras de língua portuguesa do século XX. Aos 34 anos, abandonou a vida em São Paulo e partiu para o interior do estado, para o Parque Xangrilá, Chácara Casa do Sol – Campinas. A Casa do Sol foi, por ela, detalhadamente planejada para ser um espaço de criação artística e abrigou, além da escritora, pelo resto de sua vida, vários escritores e artistas, dentre eles Caio Fernando Abreu.

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Nos seus quase 50 anos de vida literária, Hilda Hilst compôs um trabalho rico e vasto, que, nas palavras da própria escritora, em entrevista à revista Cadernos de Literatura Brasileira, buscou representar o desejo que um dia viu e sentiu, a sensação de ter visto deus em algum lugar. Por isso mesmo, seu trabalho revela muito das agruras do ser humano, de sua delicada condição.

CapaSenhoraDÉ essa a marca do livro A Obscena Senhora D, que reinventa o jeito de narrar. Hilda quebra tudo; desfaz a lógica da língua de um jeito bem curioso. Não há marcas óbvias dividindo as falas das personagens e a sintaxe é também bem própria. Além disso, o livro não tem uma história, não nos moldes tradicionais. Para Caio Fernando Abreu, ela é simples: “após a morte do amante, Hillé, a Senhora D se recolhe ao vão da escada, ‘um Nada igual ao teu, repensando misérias, tentando escapar, como tu mesmo, contornando um vazio, relembrando’, em direção à própria morte.” De qualquer forma, intuitivamente, a gente consegue seguir e perceber o fluxo textual. Eu me senti dentro do texto; um voyeur. Também não consegui deixar de pensar em outro texto: A Paixão Segundo GH, de Clarice Lispector, que também representa conflitos íntimos, crise existencial, perguntas, questionamentos e a falta de respostas definitivas.

O D de A Obscena Senhora D aponta para a palavra derrelição, que significa abandono ou desamparo. Juridicamente, ela remete ao abandono voluntário de coisa móvel, com a intenção de não mais a ter para si. Em outras palavras, significa deixar pra lá sem querer de volta. A personagem central do livro deixa pra lá o bom senso, o sexo, a vida simples e despreocupada e se lança em especulações sobre tudo; o tempo, sua condição, o significado das coisas, etc., mostrando a vida de uma perspectiva cortante, que pode estar representada na palavra obscena. Conforme Caio Fernando Abreu, a vida foi, para Hilda Hilst, uma aventura obscena de tão lúcida. É, assim, a vida da Senhora D – indecente, contrária à moral e lasciva de tão crua.

ODE_frentePra finalizar, fugindo um pouquinho da crueza da Senhora D, em 2006, Zeca Baleiro lançou um trabalho incrível que é resultado de uma parceria com Hilda Hilst: Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé – de Ariana para Dionísio. Pra quem quer conhecer o trabalho dela, esse disco é uma ótima porta de entrada; os poemas são interpretados por grandes nomes da música brasileira. Nesse link, há uma documentário curto com depoimentos da escritora, do músico e de Zélia Duncan e nesse um depoimento dele sobre o projeto e sua realização.

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Professor de línguas e literatura inglesa, apaixonado por literatura, música, cinema e por tudo aquilo que se pode fazer a partir disso. Escuta a mesma música milhares de vezes e adora viajar. Capricorniano com ascendente em aquários, vive uma permanente confusão entre a estabilidade e a racionalidade do primeiro e a imprevisibilidade e imaginação do segundo. Em outras palavras, é um caos.

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