O contexto cinematográfico no Brasil pré-cinema novo era bastante conturbado devido às tentativas em vão de se estabelecer no país uma indústria cinematográfica capaz de buscar construir um mercado consumidor que pudesse bater de frente com as produções estrangeiras, principalmente advindas dos Estados Unidos. Nesse contexto, podemos destacar como as duas principais representantes de período a Atlântida, com as Chanchadas, e a Vera Cruz, que buscava nos padrões hollywoodianos a forma de produções de suas obras.

Porém, tais indústrias acabaram não logrando êxito e falindo. Um dos principais motivos para isso foi a dificuldade de se distribuir os filmes como também a forma como Hollywood vendia seus filmes, já que muitos exibidores, para poderem ter o direito de exibir os grandes sucessos, eram obrigados a comprar outros filmes (venda de lote), abarrotando a grade de exibição de produções americanas e deixando pouco espaço para as produções nacionais.

Companhia Cinematográfica Vera Cruz: tentativa de americanizar a produção brasileira durou pouco tempo

Companhia Cinematográfica Vera Cruz: tentativa de americanizar a produção brasileira durou pouco tempo

Seguindo esse contexto, era notória a influência da cultura norte-americana nos padrões de vida da sociedade brasileira. Cada vez mais o cinema americano ganhava espaço no Brasil, fazendo com que nossa produção começasse a sucumbir, pois o modelo norte-americano criava na sociedade um sentimento de inferioridade já que sempre buscamos estabelecer um comparativo entre o produto nacional e produto norte-americano. Um exemplo disso é a mudança de pensamento dos brasileiros naquela época, que desejavam que a nação fosse cada vez mais industrial, abandonando a alcunha de pais agrário.

Com a dominação norte-americana e o eminente fracasso da industrialização do cinema brasileiro, jovens e velhos cineastas começaram a discutir novos caminhos para o cinema nacional, cujo principal foco era criar obras com cara de Brasil, resgatando a nossa identidade cultural de forma a estabelecer uma crítica aos valores estéticos e culturais da cinematografia estrangeira.

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“Vidas Secas”: resgate das problemáticas tipicamente brasileira

As primeiras discussões ocorreram em 1952 no I Congresso Paulista de Cinema Brasileiro e no I Congresso Nacional do Cinema Brasileiro, palco de debates sobre os novos parâmetros para a elaboração de filmes nacionais. A discussão sobre esses novos moldes cinematográficos brasileiros se aprofundou ainda mais com o filme de Nelson Pereira do Santos, chamado “Rio 40º Graus”, uma obra bastante influenciada pelo neorrealismo italiano. A obra tem um caráter popular que revelava as entranhas do povo para a própria população. Não havia lugar, na simplicidade desta película, para o artificialismo da fala empolada. A narrativa se desenrola em ambientes naturais, como o Maracanã, o Corcovado, as favelas, praças urbanas, etc.

A partir daí, constrói-se uma nova forma de se fazer cinema cujo foco era expor a problemática do subdesenvolvimento nacional, buscando um tom realista, fazendo o uso de cenários simples ou naturais e colocando a mostra a realidade do povo como ela é, sem que passasse por estúdios, que estavam mais preocupados com o faturamento do que com a cultura nacional. Os filmes agora traziam consigo também uma crítica ao artificialismo e a alienação atribuídos ao cinema norte-americano, ficando conhecido como Cinema Novo.

"Rio 40 graus": marco do Cinema Novo

“Rio 40 graus”: marco do Cinema Novo

Dentre os principais assuntos relacionados à problemática do subdesenvolvimento nacional estava a exploração empreendida pela burguesia rural por meio da figura dos coronéis, uma religiosidade que cria falsos profetas e gera uma alienação tão perigosa levando o indivíduo a cometer atos extremos, a realidade política corrupta e opressora e a dominação da cultura estrangeira.

O Cinema Novo foi dividido em três fases. A primeira fase ocorreu entre 1960 e 1964 e o principal foco narrativo dos filmes eram as mazelas sofridas pelos camponeses nordestinos. Destacam-se filmes como “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, dirigido por Glauber Rocha, e o filme que irei analisar nesse texto: “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos.

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Os filmes de Glauber Rocha tornaram o Cinema Novo um dos movimentos brasileiros mais famosos. Na foto, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”.

Lançado em 1963, “Vidas Secas” é uma adaptação da obra literária homônima escrita em 1938 por Graciliano Ramos. No longa, acompanhamos a história de uma família de retirantes que, pressionados pela seca, atravessam o sertão em busca de meios de sobrevivência. O vaqueiro Fabiano, sua mulher Sinhá Vitória, os filhos e a cachorra Baleia fogem da seca que assola o sertão brasileiro durante quase dois anos. Eles conseguem se assentar em um povoado, até que Fabiano se revolta contra o dono da fazenda em que trabalha e com o soldado da região, sendo espancado e preso. Ele não vê mais perspectiva em permanecer naquele lugar.

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Sinhá Vitória e Fabiano, personagens do filme “Vidas Secas”.

A obra mostra de forma abrangente os problemas básicos da sociedade brasileira, bem como do Terceiro Mundo em geral, através de uma apropriação recorrente no cinema, como a metáfora. O diretor coloca logo de início o “espaço” (Sertão) como um dos elementos principais do filme, uma vez que os personagens são configurados a partir desse lugar, que os torna retirantes, além de que toda a trama se desenrola devido a esse espaço. Tanto é que a vida dos personagens é mostrada através de um aspecto cíclico, que começa e acaba com a família de Fabiano à procura de um lugar para viver. Isso faz com que seja estabelecida uma relação intrínseca ente espaço e indivíduo. Dessa maneira, percebemos os personagens não apenas como figuras representativas de um problema social, mas como pessoas reais, que são transformadas culturalmente através das agruras do Nordeste.

Um outro elemento importante no filme é o uso de uma fotografia em preto e branco, que corrobora intensamente com a caatinga nordestina e enaltece ainda mais a violência do sol e, numa perspectiva ainda mais puxada pela semiótica, percebemos que a cor do filme ainda evidencia os conflitos internos dos personagens, já que para eles todos os pensamentos levam a uma única conclusão: a permanência naquela condição social.

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A cadela Baleia é um dos personagens memoráveis de “Vidas Secas”

O filme se tornou um das principais obras do Cinema Novo, não só pelo tema utilizado, mas por dar vida cinematográfica a uma das mais importantes obras da nossa literatura, ressignificando a obra de Graciliano Ramos aos padrões contemporâneos para  a época.

2 Responses

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    Wendell Marcel

    Valeu o artigo, Cícero.
    Estou produzindo uma Mostra de três grandes títulos do Cinema Novo, dois deles mencionados no seu texto, incluindo Deus e o Diabo, que completa esse ano 50 anos de lançamento.
    Se estiver por Natal em setembro, aparece por lá.
    Nos falemos mais sobre isso pelo face, abraço.

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  2. Avatar
    Cicero Alves

    Muito massa cara! Sempre é bom mostras sobre os clássicos nacionais.

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