Idos de 2005. Como de costume, resolvi abandonar aquela laboriosa tarde enfurnado em sala de aula, e trocá-la pela “escotilha” escura e sufocante que era o meu quarto naquela época. No caminho para casa, travava-se um duelo em minha consciência: parte dela mantinha-se serena e encorajava-me a deixar a escola sem remorso; a outra, assinalava-me um futuro cheio de intempéries devido à irresponsabilidade dos meus atos. 


Amiúde, descortinava-se em minha mente um futuro em que eu seria um proletário fracassado, apenas um número, um tijolo, um desajustado que não conseguiria sobreviver às engrenagens bravias do sistema capitalista; para atenuar minhas preocupações, eu recorri a um filme que jazia empoeirado sobre minha cômoda, e que, ironicamente, após assisti-lo, constatei que em parte, sua trama conjugava-se e atenuava alguns de meus anseios. 

O título da fita: “Se meu apartamento falasse”, do diretor Billy Wilder, e que segundo a sinopse, era uma espécie de comédia romântica, “a melhor de todas”, atestava o texto. Tudo o que eu precisava naquele dia! O melhor ansiolítico que se pode ter quando se está em estado de torpor é uma comédia romântica!

A trama da película poderia ser resumida assim:  Baxter é um escriturário solteirão que empresta seu apartamento para as aventuras sexuais de seus chefes, porém, ele acaba se apaixonando por Fran, a amante do presidente da empresa, uma encantadora e problemática ascensorista de um dos elevadores do edifício. Nessa premissa simplória, está contido todo um influxo de críticas ao trato dos poderosos para com os mais fracos, a impessoalidade das relações humanas, a solidão, a banalização do amor. 

  

O filme inicia-se com uma narração em off, que nos conduz a um imenso escritório onde enfileiram-se dezenas de escrivaninhas, no qual indivíduos apáticos e robóticos entregam-se à labuta. Como que tentando focalizar um grão em meio a uma imensidão de areia, a câmera nos apresenta ao personagem de C.C. Baxter, apenas uma gota minúscula naquele mar de impessoalidade.

Baxter, ao contrário dos arquétipos das comédias românticas clássicas, não é um personagem ingênuo, maniqueísta; o mesmo está ciente de que a curto prazo, a única forma de ascender a um alto cargo na empresa é se dobrando ao assédio moral dos seus chefes. Somente assim ele escapará do peso de ser apenas mais um empregado medíocre, ordinário. A situação exposta no filme é algo recorrente, e até institucionalizado em certas empresas: o estímulo a concorrência desmedida entre funcionários, a bajulação, as chantagens, o alpinismo social, as trocas de favores escusos, e toda uma sorte amoralidades profissionais. 


 

Quanto mais Baxter deixa-se envolver por essas teias, mas vê-se perdido, submerso por uma névoa de solidão, que se acentua ainda mais quando está perto de Fran; e quando percebe que não pode tê-la. Ela é a “mulher objeto” do presidente da empresa, alguém desprovida de sentimentos, conteúdo e valores. Para Baxter, a jovem é o escape de sua ermidão. Em determinada passagem, declara: “Sabe, eu costumava viver como Robinson Crusoé. Quer dizer, um náufrago no meio de oito milhões de pessoas. Então um dia vi uma pegada na areia e ali estava você”. Toda a narrativa é permeada por essa atmosfera de melancolia. Lá está ela, no escritório onde centenas de pessoas vão e vão, mas sequer se falam, se olham ou se tocam. Lá está ela, no apartamento aconchegante, ordeiro; uma ilha de solidão, que abriga toda a extensão da rotina laboriosa do herói. 


 

Além de metáforas sobre a lassidão das relações humanas, há críticas sutís a certos veículos da “vida moderna”; por exemplo, na cena em que o protagonista se frustra ao assistir TV após cansar da enxurrada de comerciais a respeito de produtos supérfluos – frustração que sinto cada vez que me deparo com um spam em minha caixa de email. Vemos ali situações cotidianas, que em maior ou menor grau, alguma pessoa adulta já vivenciou: a angústia de por ventura nunca conseguir um melhor emprego, ou mesmo um amor, que no filme, não é servido como um coquetel de pieguice – o que é comum em Hollywood -, mas como um drink ácido e inebriante; nada acalentador.

Wilder conseguiu perfeitamente emular no expectador os sentimentos e anseios do par central. Os personagens libertam-se da forma retangular da tela, e um pequeno simulacro de suas emoções atingem nossos pensamentos. Nos sentimos tão desajustados e solitários como Baxter; confusos e problemáticos como Fran, e todo o resto que nos rodeia, ou seja, o mundo, parecem-nos um mar de solitude. Cabe a cada náufrago encontrar e seguir uma pegada; talvez assim consigam sair da ilha. 

Sobre o(a) autor(a)

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Abandonou a escola logo cedo porque não conseguia aprender nada. Cursou História na UFRN, para mais uma vez descobrir que as instituições de ensino são "gulags" que destroem todo e qualquer sentido genuíno de saber. Hoje, exilado em Campina Grande-PB, dedica-se ao anarquismo espiritual.

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One Response

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    Raylane

    É um ótimo filme, Jack Lemmon tem um jeito cativante que prende o espectador. É divertido e nada forçado. Uma comédia romântica daquelas! 🙂

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