Indomável Sonhadora: Realismo fantástico não encanta

Hushpuppy é uma criança que vê a vida de modo peculiar e fantástico. Ela seria só mais uma garotinha de criatividade fértil não fosse pela sua condição humilde e aonde vive, na região ribeirinha do estado de Louisiana, EUA. O filme do estreante Benh Zeitlin é bacana mas não mais que isso. Com cinco indicações ao Oscar – roteiro adaptado, melhor filme, direção, roteiro adaptado e melhor atriz (Quvenzhané Wallis) – o longa é a empreitada de um diretor a fim de contar uma história dura e ao mesmo tempo poética mas que, no fim das contas, pouco emociona.

Hushpuppy em seu mundo onde fantasia e realidade se msituram

Rodado em 2010, Indomável Sonhadora é baseado em uma peça de teatro homônima de Lucy Alibar, amiga de infância do diretor Benh Zeitlin. O roteiro foi adaptado para narrar a história de uma comunidade fictícia. Hushpuppy e seu pai, Wink (Dwight Henry), vivem num lugar apelidado por seus poucos moradores como a “Banheira”; um ambiente devastado, alagado periodicamente, em que as crendices, a imaginação e as relações humanas são as poucas, e também únicas, maneiras de sobreviver e resistir a pobreza e abandono em que se encontram.

Separados por uma barragem, a comunidade da “Banheira” vive em condições paupérrima. Se fôssemos olhar a situação sob uma ótica racional, todos os moradores teriam morrido há muito tempo, mas no mundo fantástico do filme, as pessoas vivem lá por várias gerações. O longa é narrado por uma garotinha de gênio forte e uma imaginação fértil, assim como o título faz referência, criada para defender e amar sua terra a todo custo.

A pequena Quvenzhané Wallis (não me perguntem como se pronuncia seu nome), que tinha apenas seis anos durante as filmagens, foi a escolhida entre 3.500 candidatas. A menina, que nunca tinha atuado antes, garantiu uma vaga entre as indicadas a melhor atriz no Oscar. Seu desempenho, para uma iniciante, demonstra naturalidade e desenvoltura diante das câmeras, mas nada que a alce aos holofotes como uma futura grande atriz, nem muito menos lhe renda indicações em premiações.

Hushpuppy lutando para sobreviver em meio a inundações

O filme, rodado com muita garra, contou com a colaboração de não atores e fez bom uso do magro orçamento de US$ 1,8 milhão (R$ 3,6 milhões), menor orçamento entre os concorrentes à premiação da Academia. Acumulando dois prêmios, Festival Sundance 2012 – Grande Prêmio do Júri e fotografia -, e também do Caméra d’Or em Cannes 2012, o longa é um dos azarões para a festa de amanhã.

A narrativa nos faz lembrar que em um passado nem tão distante dos EUA: os sobreviventes do furacão Katrina, em 2005, que atingiu a região litorânea do sul norte-americano, especialmente em torno da região metropolitana de Nova Orleans, capital do estado de Louisiana, onde mais de um milhão de pessoas foram evacuadas. O desastre foi responsável pela migração de mais de um milhão de pessoas na costa central do Golfo e em outros lugares nos Estados Unidos, sendo esta a maior diáspora do país.

Ao fim do filme, a sensação que tenho é que os teimosos da Banheira lutavam por seus ideais, mesmo que este fosse o direito de morar num pedaço de terra alagado. A simpatia pela protagonista não é suficientemente forte para aguentar sua curta uma hora e meia de projeção. Em contrapartida, o trabalho do diretor de fotografia, Ben Richardson, feito em super-16 mm, capta o cenário de beleza bruta e de devastação, talvez o melhor e mais interessante aspecto da obra.