Muito antes de Bill Gates surgir com seu “Windows”, entre os anos 80 e 90, o cinema já abria suas janelas para o mundo, com todas as possibilidades que elas nos permitem. A tela do cinema não tem, apenas, o formato de uma janela, mas também, de forma simbólica, a sua funcionalidade.

É olhando pela janela, por exemplo, que sonhamos seja com o tempo futuro, com amores perfeitos, ou uma vida em que as coisas dão certo, com finais felizes. É também pela janela que encaramos um mundo, muitas vezes desconhecido, que nos cativa, surpreende, intriga, ou inquieta. Ora, e quando nos sentimos fracos ou amedrontados, ou mesmo incomodados, é através da janela que muita gente escapa da vida, busca a sua fuga. A janela é, também, um lugar de evasão. E quais dessas possibilidades não permite o cinema?

Em “A Invenção de Hugo Cabret” (Martin Scorsese, 2011), por exemplo, os personagens Hugo (Asa Butterfield) e Isabelle (Chloë Moretz) são seduzidos pela curiosidade de conhecer um mundo novo, que a tela do cinema lhes apresentava, e então, escapam do seu mundo de regras e restrições para explorarem, sentados, o novo que se projetava na sala de exibição para onde fugiam.

A questão, porém, é que todas as sensações causadas pelo contato com os produtos da Sétima Arte são ilusórias e daí a frustração do espectador quando a sua ilusão particular não é alcançada. A alma do sonho cinematográfico é a interpretação, que se torna indispensável para a crença no cinema pelo público. Quem assiste busca mais que caras e bocas. Busca, sim, convencer-se com olhares, que dizem mais que diálogos formatados e explicativos. O espectador quer acreditar na mentira. Mas a sua predisposição não é necessariamente um indicativo de que será simples fazê-lo.

Talvez seja esse o motivo do título “indústria dos sonhos”, recebido pelo Cinema. Nós, espectadores, somos iludidos e sonhadores convictos. Fazemos questão de crer no que não existe e, afinal de contas, somos felizes com a nossa admitida ilusão.

 

“Claro que está acontecendo em sua mente, mas por que isso significaria que não é real?”*

*“Harry Potter e as Relíquias da Morte” (J.K. Rowling, p. 562)

Sobre o(a) autor(a)

Andressa Vieira

Jornalista, cinéfila incurável e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Especialista em Cinema e mestranda em Estudos da Mídia (PPgEM/UFRN). É diretora deste site.

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