“É uma roda de jamanta na banguela/ É mais ou menos assim o meu amor por ela”, esse verso da canção “Côco Pra Mãe do Mar”, do primeiro disco da cantora, Khrystal, “Coisa de Preto” (2007) define bem o meu agrado pela artista. Criativa, ousada e uma apaixonada pelo som de raiz, a potiguar conseguiu surpreender, superar as expectativas e mandou os fantasmas do segundo álbum pra bem longe com o seu “Dois Tempos” (2012). Uma das cantoras mais queridas e criativas do estado, Khrystal Saraiva, ou somente Khrystal, está na ativa no cenário potiguar há um bocado de tempo, mas só ganhou visibilidade em meados de 2007. Com sua simpatia, sua nordestinidade, seu talento e carisma, a cantora caiu no agrado do público e é uma das cantoras favoritas dessa que vos escreve.

Diferente do primeiro, em que a cantora interpretava músicas de outros artistas, seu segundo trabalho é autoral e várias mudanças são sentidas. O côco que foi carro-chefe de seu primeiro disco continua presente e com muita força, porém outros ritmos que já se faziam presente com menos intensidade, como a MPB, o samba e o baião, ganharam maior espaço, oferecendo aos apreciadores da boa música brasileira uma das melhores obras dos últimos anos. Em “Dois Tempos”,  Khrystal continua cercada por um naipe de músicos de tirar o chapéu, parceiros de boteco e violão, que lhe ajudaram a fazer algo ainda maior. Elevando seu nível musical, suas letras e seus arranjos, a cantora firmou-se como um nome de grande talento na música nacional. Tem côco na guitarra, baião com riff de guitarra, tudo com o jeito expansivo e verdadeiro da artista.

Estigmatizada como cantora de côco, a potiguar mostrou que seu talento vai além das rimas capciosas, intrincadas e dançantes, Khrystal também é capaz de cantar suave, colocar sua voz forte e cheia de energia em melodias, doces, sambas, com arranjos bem trabalhados, como o sambinha abre-alas do disco “Na Lama Na Lapa” de autoria sua em parceria com a cantora/compositora e colega de Projeto Retrovisor, Valéria Oliveira. Munida de seu violão que dá o ritmo e o gingado da música que convida até os mais tímidos a arriscar alguns passos, a faixa concorre na categoria Música do Ano no Prêmio Hangar de Música. O clima de samba-canção é desfeito com “Aranha-Céu” (Ricardo Baya/Khrystal). Sua letra traz o desabafo de um trabalhador de vida difícil. O destaque da faixa vai para o guitarrista Ricardo Baya, que ditorce sua guitarra, dando um tom pesado à música.

Quando menos estamos preparados, eis que Khrystal dispara um forró  pé de serra de sua autoria com o seu parceiro e amigo Luiz Gadelha, “Bem ou Mal”, que fala das coisas de nosso agrado mas que de certo modo nos fazem mal, ao melhor estilo “Ilegal, Imoral ou Engorda” da dupla mais atrevida da Jovem Guarda, Erasmo “Tremendão” Carlos e Roberto “Brasa-Mora” Carlos. A música que dá título ao disco “Dois Tempos” é uma das três canções assinadas apenas por Khrystal, um sambinha que fala das dificuldades de ser artista. Curiosamente a mesma faixa foi gravada pela excelente Liz Rosa e ganhou uma roupagem bossa-novística e por essa interpretação concorre na categoria melhor Música do Ano no Prêmio Hangar.

A voz do Rio Grande do Norte no programa global The Voice desta segunda temporada, Simona Talma, é a autora da letra de “Sendo Corrego”. O samba com direito a cuíca, pandeiro e tamborim é um dos destaques de qualidade musical, uma das minhas faixas favoritas do disco. As palmas contagiantes, os versos repetidos, “Se eu tenho uma estela ela é do mar”, certamente irão grudar no seu juízo. Uma das faixas mais icônicas dentre as treze que completam o álbum é: “Zona Norte Zona Sul”, assinada por Ricardo Baya. A letra que pode incomodar os hipócritas natalenses que ignoram ou mesmo veem com olhos de classe-média superior àqueles moradores que moram do outro lado da ponte de Igapó, e habitam a Zona Norte da cidade: “Eu quero unir a Zona Norte a Zona Sul/ Quero atravessar a ponte me sentir num lugar só/ Quero tomar banho de rio quero tomar banho de mar/… Não tape o sol com a peneira/ Maquiando o cartão postal/ Me olhe dentro do meu olho/ Me trate de igual pra igual/ De que lado mora o seu preconceito?/Atravesse a ponte que eu vou lhe mostrar”.

 

Outra faixa que merece destaque no álbum é “Esse Meu Baião” (Khrystal). Essa é minha favorita, a música é um misto de todos os ritmos que fazem do Nordeste uma das regiões mais ricas culturalmente do país. Tem pandeiro, violões, percussões e uma fusão que só Khrystal consegue fazer. Não me admira que a crítica especializada do país tenha caído nessa malandragem descontraída da cantora, não há como ficar indiferente a tamanha criatividade e brasilidade.

 

Khystal soa irresistivelmente criativa em seu novo disco, “Dois Tempos” (2012), mais madura e mais eclética também, dando assim um novo passo em sua carreira, marcando de vez seu nome no cenário musical natalense, potiguar e brasileiro de um modo geral. Àqueles que já assistiram aos concertos da moça sabem bem de sua energia e alegria no palco. A líder em indicações do Prêmio Hangar de Música deste ano é, na minha humilde opinião, a favorita e uma das maiores artista do estado. Tá duvidando? Então confira o seu novo disco aqui.

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