No último sábado (10/9), a cantora Khrystal fez um show, na Escola de Música da UFRN, para apresentar as músicas de seu mais novo CD, Não deixe para amanhã o que pode deixar para lá. Esse é o segundo álbum de inéditas para o qual a cantora também compôs algumas músicas e também é o álbum em que a questão da sua origem no Nordeste – a “Nordestinidade” – está presente praticamente de início ao fim do trabalho.

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Créditos: Regina Azevedo/O Chaplin

Tudo convergia para tal temática, do figurino escolhido por Khrystal – dois belos vestidos (bege e vermelho) rendados de saia rodada – aos objetos que compunham o cenário, ou seja, várias pequenas lamparinas que deixavam o local ainda mais aconchegante. Falo em “cenário” porque este é o primeiro – de muitos daqui para frente – show da cantora com uma direção artística, cujo roteiro foi assinado pela poetisa potiguar Sinhá. A origem da artista, para compatibilizar com a temática do show, pesou na escolha, mas também seu gênero e o tipo de poesia (a poesia falada) também contribuíram para Khrystal chegar ao nome da poetisa norte-riograndense.

Queria a poesia falada de uma mulher e de preferência potiguar. Não foi difícil chegar logo ao nome de Sinhá. Ela me enviou um material e escolhi trechos que costuram alguns momentos do show, que representam sentimentos que não sei cantar, mas que preciso dizer e que Sinhá me possibilita, me dá voz.

Não deixe para amanhã o que pode deixar para lá tem espaço para a cantora falar sobre virtudes e sentimentos comuns a todos que, junto a letra que valoriza elementos regionais, tornam algumas músicas alguns dos trabalhos mais pessoais da cantora. É o caso da música Lamparina Acesa que, segundo Khrystal, fala sobre fé, perseverança e renovação. Nesta canção, Khrystal conta com a participação de Lucy Alves e seu acordeon, o que contribui para deixar a faixa ainda mais regional e sensível aos nossos ouvidos. O forró encontra espaço também na música Meu Lugar, um arrasta-pé que homenageia às festividades de São João.

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Créditos: Regina Azevedo/O Chaplin

Engana-se, no entanto, quem acha que a Nordestinidade de Khrystal se resume ao resgate do forró. Os últimos acordes de Cangaceiros de Iemanjá – o título, aliás, transmite um pouco a dimensão da diversidade cultural nordestina – lembra bastante o manguebeat, movimento cultural de contracultura surgido em Recife na década de 1990.

Teve espaço também para os sucessos já consagrados, entoados já próximos ao final da apresentação, como A Carne – música de forte crítica social de Elza Soares, que fica ainda mais vigorosa na voz de Khrystal – e Potiguaras Guaranis, do CD Dois Tempos (2012)composição que ordena vários elementos da cultura popular nordestina embalados por bateria, baixo e guitarras que não fazem feio diante de qualquer outra banda de rock.

Pouco mais de 1h foi o suficiente para Khrystal apresentar seu Nordeste, que tem forró, manguebeat, e ritmos afro-brasileiros. Mas que também é uma região antropófaga e, por isso, Não deixe para amanhã o que pode deixar para lá flerta com o samba e com a MPB, além de conter leves batidas pop (ou levemente eletrônicas, como alguns poderiam dizer). Essa mistura não nega – pelo contrário, reforça ainda mais – que o sangue de Khrystal é mel. É mel de rapadura.

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