La Partida: filme cubano converge futebol e homossexualidade

O machismo predominante no mundo do futebol faz com que a relação desse esporte com a homossexualidade seja como água e óleo, que não se misturam. Uma demonstração desse contexto aconteceu há três meses aqui no Brasil quando o jogador do Corinthians, Emerson Sheik, divulgou uma foto na internet em que dava um selinho em um amigo. Foi o estopim para que torcedores de outros clubes, ou até mesmo do Corinthians, soltassem frases de cunho homofóbico pela rede. Mas a relação entre esses dois mundos “antagônicos” não é exclusiva do Brasil. O filme “La Partida” (Antonio Hens, 2012) é um exemplo da difícil convivência entre esses dois assuntos.

"La Partida": uma história de amor homossexual precisa conviver com a sociedade machista e a pobreza

“La Partida”: uma história de amor homossexual precisa conviver com a sociedade machista e a pobreza

O longa, penúltimo filme do panorama internacional do 21° Festival Mix Brasil de Cultura da diversidade no Rio de Janeiro, tem como protagonistas os cubanos Reinier (Reiner Díaz) e Yosvani (Milton García), dois grandes amigos que sempre estão juntos para bater uma bola em um dos bairros pobres da capital cubana, Havana. Reinier tem objetivos mais largos: nesses jogos amadores, está sempre à espreita dos olheiros espanhóis que desembarcam em Cuba à procura de talentos; já Yosvani é mais introspectivo e participa apenas para o lazer. Os dois amigos encontram no futebol um amparo, uma válvula de escape na qual não precisam pensar em suas responsabilidades e dificuldades, embora sejam bem jovens.  Reinier é casado e possui um filho, mas se prostitui no Malecón, um local bastante frequentado por turistas homossexuais a fim de “diversão”, de onde o jovem retira o seu sustento e o de sua família, que consente com essa “única opção”. Yosvani trabalha cobrando, nem sempre de maneira pacífica, as dívidas do pai de sua namorada Gemma, por quem é sustentado.

Dois garotos cubanos à beira da marginalidade lutam para sobreviver. Entretanto, ambos conseguem ter tempo para se divertir além do futebol. Numa balada na qual o ecstasy predomina entre os jovens frequentadores, Yosvani e Reinier conhecem o desejo que estava escondido em cada um deles. Depois do beijo entre os dois no banheiro da boate, a amizade da dupla se transforma e os sentimentos que aparecem – os quais até aquele momento estavam profundamente escondidos – permitem que os encontros passem a ser cada vez mais íntimos.

Os amantes não assumem uma relação, levando uma vida paralela. Esse é o argumento – e o maior trunfo de “La Partida”. A narrativa – uma gradual e dramática aceitação da sexualidade – não é nenhuma novidade em filmes de temática gay, mas o longa ganha uma velocidade diferenciada, intensa, por causa da pobreza que caracteriza o país insulano. Os dois rapazes, além das batalhas existenciais, ainda precisam  lidar com a luta pela sobrevivência e o machismo da sociedade latino-americana. Até mesmo quando se prostitui para homens, Reinier impõe limites, entre os quais se recusar a praticar sexo anal, e demonstra o medo de aceitar sua condição sexual com a frase “Yo no soy maricon!” (“Eu não sou viado”, em português). Entretanto, na intimidade, os dois compartilham um universo particular, sendo eles mesmos.

Reinier sonha em jogar futebol profissionalmente; enquanto não atinge seu sonho, precisa se prostituir para garantir o sustento da família.

Reinier sonha em jogar futebol profissionalmente; enquanto não atinge seu sonho, precisa se prostituir para garantir o sustento da família

Milton García (Yosvani) e Reinier Díaz (Reinier), os belos intérpretes do casal, possuem uma veia dramática articulada e convencem nas atuações, ajudados – é claro – pelo movimento das câmeras, detalhando o sentimento mais interior dos rapazes, aqueles que são omitidos para as demais personagens do filme e a que só os espectadores têm acesso. Outro aspecto interessante é que “La Partida” é um filme que tem uma história chocante, mas que não precisa de várias cenas do mesmo tipo para afirmar essa condição. Num contexto cinematográfico mundial em que as produções precisam apelar cada vez mais, o longa cubano prova que a regra fundamental do design pode valer para o cinema: o menos pode valer mais, muito mais.

Sendo assim,  quem assiste a “La Partida” perceberá que o filme vai muito além do pano de fundo futebolístico. O título, na verdade, pode fazer menção a uma série de coisas: desde partidas (significando jogos) complexas que os personagens principais devem realizar para sobreviver no contexto das pressões externas das famílias e da pobreza; ou até o verbo partir conjugado no “particípio”, o qual tem a ver com o final da obra que, evidentemente, não será contado nesse texto. De uma coisa o telespectador terá certeza ao terminar de ver o filme: o jogo do amor e, especialmente, se ele for gay, é muito mais difícil de dominar do que uma bola de futebol.

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