Little Boy - Além do Impossível: Quando os fins sobressaem aos meios
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O cinema é composto por elementos visuais e textuais. O casamento harmonioso entre o “o quê o filme tem a dizer” e o “como é dito” é fundamental na construção narrativa. Porém, muitos trabalhos conseguem destaque sendo eficientes em apenas um desses elementos. É o caso do recente Little Boy – Além do Impossível (2015). Com estreia marcada para hoje (10 de março) em Natal, a produção fora exibida previamente numa sessão para a imprensa, organizada pelo Cinépolis, quando tivemos a oportunidade de conferir o filme.

A trama acompanha o jovem Pepper Busbee (Jakob Salvati). Menor que as demais crianças de sua idade, o pequeno é vítima constante de bullying. Seu único amigo é seu pai (Michael Rapaport, As Bem-Armadas, 2013), com quem mantém uma linda relação de parceria. Tudo muda quando seu parceiro precisa participar da Segunda Guerra Mundial. Buscando aumentar sua fé para ter seu pai de volta, Little Boy realiza pequenas benfeitorias sugeridas pelo padre Oliver (Tom Wilkinson, O Grande Hotel Budapeste, 2014).

A direção de Alejandro Monteverde (Bella, 2006) é imprecisa, contendo erros e acertos. Ao tentar evidenciar o pouco tamanho de seu protagonista, nem sempre o resultado é o mesmo. Em alguns momentos, como na cozinha de Hashimoto (Cary-Hiroyuki Tagawa, Sempre ao Seu Lado, 2009), a criança parece ainda menor que em outras cenas, quando à mesa de casa ou, principalmente, ao usar uma espécie de lancheira para se defender.

Emily Watson interpreta Emma Busbee

Emily Watson interpreta Emma Busbee

Aliás, o elenco mais jovem é bem desinteressante. David Henrie (Segurança de Shopping 2, 2015) e Matthew Scott Miller (A Holiday Heist, 2011), respectivamente o irmão e o “rival” de Little Boy, são muito caricaturais, dificultando qualquer envolvimento por parte da plateia. Jakob Salvati também não pode ser considerado um bom ator (vide suas tentativas de “usar mágica”, resumidas a espremidos irritantes). Entretanto, cheio de ingenuidade, graça e fofura, ele dá conta do papel, que leva de forma divertida e carismática.

Por outro lado, os atores mais experientes dão suporte de luxo. Wilkinson precisa apenas emprestar sua persona para nos conquistar com seu Oliver. O padre é sensato e didático ao tentar orientar a espiritualidade de Pepper. Além disso, ele e Tagawa trazem boa química quando contracenam. O primeiro sempre preocupado com o bem estar do segundo, perseguido por ser japonês e viver no EUA após os ataques nipônicos à Pearl Harbor.

Curiosamente, Tagawa, já imortal pelo papel de Shang Tsung no bacana e nostálgico Mortal Kombat (1995), havia interpretado um comandante em Pearl Harbor (2001). Completando o time de veteranos, Emily Watson (A Menina Que Roubava Livros, 2013) entrega a atuação mais sólida. A atriz é capaz de passar emoção apenas com o peso do olhar ou através de um discreto sorriso.

London, Pepper e James Busbee

London, Pepper e James Busbee

O design de produção é rico. Carros, figurinos, impressos e vídeos nos jogam completamente na década de 1940. Quadrinhos, sessões de cinema e os relatórios audiovisuais sobre o andamento da Guerra mostram eficiência na ambientação. A fotografia de Andrew Cadelago (Bella, 2006) recorre a uma paleta de cores quentes, vivas, escolha agradável que ajuda a acolher o espectador, oferece beleza estética e dialoga com a visão infantil que guia a história.

Escrito pelo próprio Monteverde e pelo estreante Pepe Portillo, o roteiro se torna fundamental pela sua mensagem. O texto não é nenhum primor. Com certa frequência, recorre ao apelo dramático, como nos momentos finais. Entretanto, chega até a funcionar quando explora os efeitos da Bomba Atômica, logo após flertar com o mal gosto ao associar o doce protagonista aos devastadores reflexos da bomba. O apelo dramático contrapõe a reação dos populares que, mesmo coerente, é bem distante da narrativa escolhida.

Ainda que o filme não seja primoroso, ele nos provoca boas reações ao servir de motivação para renovar a fé, seja ela em um Deus ou na força do amor e das boas ações. De forma pouco sutil, princípios religiosos são jogados em tela. Mas é o significado desses princípios que enobrecem a produção. Afinal, não precisamos crer numa entidade superior para tratar o próximo com respeito e humanidade, muito menos para amar os que nos são importantes.

Little Boy – Além do Impossível é uma daquelas peças que não merecem ser jugadas no rigor da técnica. Seus clichês, que não são poucos, deixam tudo muito previsível. Porém, todos funcionam de forma orgânica, sem comprometer. Se ver cinema envolve razão e emoção, aqui podemos dizer que os pecados do primeiro não recairão sobre o segundo. Os meios podem até ser questionáveis, mas os fins trazem valores dignos.

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