Há exatamente 10 anos (10 de dezembro de 2003) morria um dos grandes personagens que já passaram pelas páginas policiais dos jornais do Rio Grande do Norte: Valdetário Carneiro. Como diz o ditado: morria o homem e nascia o mito. Valdetário, membro de uma daquelas famílias que você não sabe se é melhor ser amigo ou inimigo (e por via das dúvidas torce para nunca precisar topar), nasceu em Caraúbas em 7 de março de 1959. Talvez influenciado pelo signo de Peixes, o homem era conhecido entre os familiares por sua calma e serenidade com todos ao seu redor, além de ser um pai dedicado (dos seis filhos que teve, de três mulheres diferentes). Contudo, também característica que a astrologia atribui ao signo, tem um momento em que mesmo o mais contido dos piscianos explode. Foi exatamente o que aconteceu com Valdetário. Depois de ser acusado injustamente por dois crimes, tendo passado quatro anos e seis meses preso em Campina Grande por um deles, o caraubense prometeu a si mesmo que não permitiria mais que seu nome fosse relacionado a atos que ele não cometeu. A saída? Cometê-los.

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Valderário Carneiro, em foto de arquivo pessoal

A partir daí, inúmeros assaltos foram atribuídos a Valdetário, mas sempre com um quê de honra: a lógica seria cobrar do Estado todas as injustiças que lhes foram cometidas, pobres e inocentes não deveriam ser prejudicados. O bando de Valdetário, composto por uma média de seis pessoas, atuou em vários estados do Nordeste, além do Rio Grande do Norte. Os boatos se propagavam, e logo Valdetário passou a ser onipresente: houve quem jurasse que ele estava em uma cidade quando na verdade ele estava há centenas de quilômetros de distância. É o movimento que o professor e pesquisador Edmilson Lopes cita como “neocangaço”  (Revista Cronos, 2006, p. 355). Também foram atribuídos a Valdetário os títulos de autor ou participante em nove homicídios. Durante sete anos foi um dos grandes nomes do crime na região Nordeste, tendo sido destacado em veículos nacionais, como o jornal Estadão e a rede Globo de televisão.

A história de Valdetário, o criminoso, já daria por si só uma recheado relato. Mas os, então, estudantes de jornalismo Rafael Barbosa e Paulo Nascimento, hoje com 24 e 22 anos, respectivamente, decidiram ir além quando em 2011 escolheram-no como tema de seu trabalho de término de curso. A intenção inicial era fazer um encarte de jornal sobre a família Carneiro, mas a ideia foi se desenvolvendo em parceria com o professor orientador Emanoel Barreto e consolidou-se como um livro reportagem sobre Valdetário, abordando não apenas a figura do criminoso, mas também sua vida anterior ao período de crimes e sua relação com familiares e amigos. Apresentado no meio desse ano, o trabalho repercutiu e será lançado como o livro “Valdetário Carneiro – a essência da bala”, em versão ampliada, logo mais às 18h, na Pinacoteca do Estado (Praça Sete de Setembro, Cidade Alta – Natal).

Os autores de "Valdetário - a essência da bala", Rafael Barbosa (à esquerda) e Paulo Nascimento (à direita) | Foto: Editora Tribo

Os autores de “Valdetário Carneiro – a essência da bala”, Rafael Barbosa (à esquerda) e Paulo Nascimento (à direita) | Foto: Editora Tribo

Com uma tiragem inicial de 1.000 exemplares, o livro será lançado com 168 páginas e quatro capítulos organizados em ordem cronológica, partindo do episódio que iniciou Valdetário no crime até as duas versões da sua morte, há dez anos. O livro traz depoimentos de pessoas envolvidas nos mais diferentes níveis com Valdetário, além de fotografias de arquivos. “Valdetário Carneiro – a essência da bala” tem o selo da Tribo, editora há seis meses atuante no mercado natalense e que vem incentivando jovens talentos da literatura. Cada exemplar será vendido a R$ 30.

O Chaplin conversou com um dos autores do livro, o jornalista Paulo Nascimento, sobre o processo de criação da obra e sobre o personagem. Confira abaixo a entrevista:

Como foi para vocês, repórteres ainda jovens, o processo de apuração dessa história, tão grandiosa e delicada?

É realmente uma história muito delicada e ainda tem o ponto de ele ter sido um criminoso. Como abordar a história de um criminoso? A gente, conversando, e com a orientação do professor (Emanoel) Barreto decidimos que queríamos contar a história dele, simplesmente. E por si só a história dele fala quem foi Valdetário Carneiro. Tinha esse problema do como abordar, a gente foi apurando a história dos dois lados, ou dos três, quatro lados que tivessem, porque essa história não tem só dois lados. A gente foi atrás tanto de quem estava combatendo ele quando ele se tornou criminoso e de gente que conheceu ele antes de tudo para construir a figura de Valdetário. Queríamos conhecê-lo, mesmo sem tê-lo conhecido.

Qual o motivo de se contar a história de Valdetário?

Algumas pessoas chegaram a questionar que fazendo isso poderíamos estar incentivando o crime ou coisa do tipo. A ideia da gente era contar um pouco do que aconteceu antes, já que não tínhamos a mínima ideia do que tinha acontecido antes de 97, e depois focar na atividade criminosa. Mas vimos que, tanto antes dele entrar para o crime como depois, eram histórias bastante diferentes, mas igualmente interessantes. A gente se encantou pela figura dele, independente do que ele fez ou deixou de fazer, era uma figura interessantíssima de se conhecer, de saber o que ele fez ou deixou de fazer, o que ele gostava, o que ele não gostava. Era peculiar.

Vocês consideram ter extraído o máximo que vocês poderiam da história dele ou acham que ficou faltando alguma coisa?

Sempre falta alguma coisa, por conta da história dele, das atribulações, de ele ter sido preso injustamente. Várias pessoas que estiveram envolvidas nesse processo de acusação e de prisão não quiseram falar, talvez em defesa dele, mas eu fiquei com o sentimento de não ter contado a história de Valdetário por completo porque algumas pessoas preferiram não falar devido a ser relativamente recente ainda (a morte dele tem 10 anos). Algumas pessoas ficaram receosas de citar nomes de outras que ainda estão vivas, e que estiveram envolvidas em caso x ou y. Eu acho que tenha faltado, mas eu penso que o conseguimos foi o suficiente para contar uma boa história.

Como foi o contato com a família e os amigos dele?

Inicialmente teve um certo receio, mas depois eles perceberam que a nossa intenção não era denegrir a imagem dele e nem muito menos exaltá-lo. A gente queria apenas contar a história e, a partir desse momento, os familiares dele foram muito solícitos conosco, e eles também têm a vontade de contar a história dele, relatar quem era Valdetário Carneiro, que era muito querido por enorme parte da família, alguns poucos que não gostavam dele. Mas ele era um cara muito querido, independente de tudo o que tenha feito, principalmente pela vida dele anterior ao crime.

Paulo Nascimento, um dos autores do livro | Foto: Andressa Vieira

Paulo Nascimento, um dos autores do livro | Foto: Andressa Vieira

Valdetário pode ser comparado com algum grande nome da história do Brasil ou mesmo da ficção?

Eu acho que ele tem um pouco de Lampião e Robin Hood, um pouco dos dois personagens. Tal qual Lampião, na época dele, ele chegava nas fazendas, tinha os fazendeiros que apoiavam ele. Também tinha toda essa questão de ele não roubar pobre, ele roubava banco, e dizia que roubava por ser uma vingança contra o Estado. Ele dizia que o Estado devia a ele por ter sido preso injustamente, esse foi um dos fatores que fez com que ele entrasse na criminalidade. E por ela lógica torta ele fazia essa cobrança. Ele tinha um pouco dessas duas figuras controversas.

Fora esse lado da criminalidade, qual na sua opinião é a característica que mais chama atenção em Valdetário?

A calma, a tranquilidade. Todo mundo fala que ele era muito tranquilo, sereno, não se exaltava, nem com os filhos, nem com ninguém, nem com as mulheres. Sempre foi muito calmo.

Há quem diga que ninguém conhece melhor um biografado que o biógrafo porque você tem uma visão geral, conversa com todo mundo que fez parte da vida daquela pessoa e enxerga ângulos diferentes. Então, na sua visão de biógrafo, quem foi Valdetário Carneiro?

Valdetário foi um cara romântico, conquistador de mulheres, um pai carinhoso, tal qual foi um assaltante meticuloso, organizado, planejador e um homicida cruel. Ele era mais ou menos o médico e o monstro. Quando ele saía da redoma dos amigos e familiares para as ações de crime que ele cometia, ele se tornava outra pessoa completamente diferente. Ele prezava muito pela palavra, se traíssem ele e faltassem com a palavra, ele não ia gostar muito não.

"Valdetário Carneiro - a essência da bala" será lançado hoje às 18h na Pinacoteca do Estado

“Valdetário Carneiro – a essência da bala” será lançado hoje às 18h na Pinacoteca do Estado

Que dica vocês dão para os jovens estudantes que querem fazer suas próprias grandes apurações mas que não encontram estímulo ou confiança para isso?

É querer fazer, independente das dificuldades. É querer fazer a grande reportagem. Porque a biografia, eu vejo, acima de tudo, como uma grande reportagem. Uma grande apuração. Mas é querer fazer e ter vontade de fazer, escolher uma grande figura; não necessariamente uma figura conhecida do grande público. As grandes histórias estão em qualquer lugar, se você conseguir encontrar essa grande história, é meter a cara e fazer. Tendo a vontade, ninguém vai conseguir lhe impedir. É importante achar alguém para lhe apoiar, um professor, ou um companheiro, como eu encontrei Rafael, nós tivemos um ao outro, e o professor Emanoel Barreto que nos ajudou enormemente nesse processo de produção. Ter uma base de leitura boa é o básico, não só biografias e reportagens.

Vocês conseguem se ver como escritores, jornalistas, ou os dois?

Não, escritores não. Jornalistas, mesmo. Jornalistas e biógrafos, por um período, agora. O que a gente quer é contar histórias, e eu vejo isso como o básico do jornalismo. Independente do que seja, contar a história, sair da versão e chegar ao fato. Foi isso que a gente tentou com esse livro, mostrar quem era o fato Valdetário Carneiro, não só de versões e lendas que a gente ouvia.

E vocês já têm outra grande história em mente para contar?

Ainda não (risos). Por enquanto só Valdetário, que já deu muito trabalho.

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