Livros e HQ’s: A fúria da poesia de Elisa Lucinda

Faz um tempinho que venho querendo escrever sobre o livro ‘A Fúria da Beleza’ de Elisa Lucinda (2009), Editora Record, mas o fim do período na universidade não me deixava. Seus poemas ficaram reverberando por quase dois meses na minha cabeça, num quase T.O.C., como um efeito colateral do contato que tive com a poeta, na Oficina Poema Vivo, XIV Festival de Artes de Areia – PB, numa dessas semanas em que a vida é bem generosa com você. Fiquei tão encantado que não consegui parar de ler, ora sozinho, ora com amigos. O livro rendeu e animou conversas deliciosas. Ainda rende, na verdade! Agora, finalmente, estou podendo sentar, pensar um pouco e transpor algumas das minhas impressões para o papel. Então, vamos lá!

A poeta, cantora e atriz Elisa Lucinda

Pra começar, a “A Fúria da Beleza” é todo lindo, como sugere o próprio título. As ilustrações são ótimas, felizes, luminosas. Tudo lembra um livro de criança, desses de imaginar… Essa semelhança é esclarecida logo na folha de rosto, onde, ao título, a poeta somou a seguinte frase: “o primeiro livro de adultos para colorir!” Conforme mergulhamos no texto, a passagem vai ficando mais clara e acaba falando muito sobre o conteúdo do trabalho em questão. Fala de suas ilustrações, da estética, do jeito ingênuo e, simultaneamente, meio safado de alguns dos poemas, da opção pela oralidade e pelo tom coloquial, fala da multiplicidade de temas, etc. Fala de todas essas características que marcam o trabalho de Elisa Lucinda e que são bem conhecidas por quem já leu coisas dela.

Capa do livro “A Fúria da Beleza”, de Elisa Lucinda (Ed. Record)

Além disso, a brincadeira que se junta ao título indicia um traço característico da obra – várias citações e referências a outros poetas aparecem em sua construção; várias pinceladas de outras poesias. Eliza cita trechos lindos de poetas como Adélia Prado, Lya Luft, Mario Quintana, Chico Buarque, Viviane Mosé, etc. Algumas citações abrem sessões do livro, indicando seu conteúdo, outras aparecem como referências; intertextos, que vão deixando você com mais vontade de ler o próprio livro e também os outros poetas. Exemplo bem contundente disso é o poema ‘boi tenho’, que já no título remete ao poema Boitempo, de Drummond.

A riqueza do livro não acaba aí. Ele é muito colorido nas representações que traz de vários sentimentos humanos. Tem poema triste, poema alegre, poema feliz, poema de amor, poema de dor, de saudade, de raiva, de tristeza, de chapação, de luxúria… tem poema quase sexo, inclusive. Eu vi, lendo ‘Ele’, a saia da poeta sendo levantada, seus pés sendo beijados, suas clareiras sendo preenchidas, vi lábios frios e língua quente, que me deixaram ouriçado e depois surpreso. Vi tudo isso e muito mais, juro! Ah, há, ainda, espaço para poemas que mostram a relação da poeta com os espaços em que transita – bares, cafés, praias, palcos, ganham uma dimensão afetiva – os espaços estão vivos e preenchidos de vida!

O livro trás ainda poemas maravilhosos: Credo, em que a poeta fala sobre a importância da poesia em sua vida; A fúria da beleza, que me fez chorar, assim, como quem nada quer, ali no meio da oficina Poema Vivo, e Antibélica. Os poemas me parecem descrever certas pessoas e acontecimentos da vida, desses facilmente reconhecíveis – não é difícil se ver neles. A maioria conta uma pequena história, uma espécie de micronarrativa, a partir de um sujeito enunciativo que é ao mesmo tempo ator e observador da ação.

É óbvio que eu gosto muito do trabalho dela. Gosto não, adoro. Acho que o livro pode funcionar bem como uma introdução para quem quer começar a ler poesia, particularmente, aquela que tem sido produzida recentemente. Pode funcionar ainda, pela riqueza das referências, como um guia para outros poetas, indicando quem você pode gostar de ler também. Além disso, acho difícil não cair de amores pela beleza em fúria que pode ser encontrada nele.

P.S.: Quero dividir outro poema, que não é desse livro, mas que é belamente feroz: Cortando Cebola.