Livros e HQ’s: Quem tem medo de Virgínia Woolf?

VIRGINIAEu tinha. Tenho. Terei. Virgínia Woolf me assustava pelo caráter sisudo e depressivo. Eu imaginava que ao ler seus textos minha alegria seria sugada por um buraco negro e eu, fatalmente, me jogaria num rio com pedras no bolso, assim como ela. Provavelmente, essa imagem resultava de filmes como As Horas, que, por focar em seus últimos dias de vida, acabou criando uma figura que não corresponde à realidade; pelo menos não a representa em todos os momentos de sua vida. Hoje, continuo com “medo”, mas por razões diferentes – as verdades que seus textos jogam em minha cara. De todas elas, a minha verdade preferida, marcante em suas composições, é o aviso insistente de que o tempo é curto e fugidio, que a vida passa rápido e que devemos aproveitá-la. Em outras palavras, Carpe Diem. Relendo Mrs. Dalloway, fiquei impressionado com a quantidade de mensagens que sugerem isso; viver aproveitando cada momento, extraindo dele o seu melhor; just for the sake of it.

Peter Walsh, o grande amor de Clarissa Dalloway, logo depois de encontrá-la, sai caminhando por Londres e, sem medo de julgamentos, libertado dele pelo amadurecimento, pensa: “Life itself, every moment of it, every drop of it, here, this instant, now, in the Sun, in Regent’s Park, was enough”¹. Além dele, Clarrissa Dalloway também conclui que a vida vale por si mesma: “All the same, that one day should follow another; Wednesday, Thursday, Friday, Saturday, that one should wake up in the morning; see the Sky; walk in the park; meet Hugh Whitbread; then suddenly in came Peter; then these roses; it was enough. After that, how unbelievable death was! – that it must end; and no one in the whole world would know how she had loved it all; how every instant…”². Em outros termos, sorva tudo o que a vida pode oferecer, mesmo a repetição entediante dos dias, pois o fim é inexorável.

Em outra composição, uma de minhas favoritas, um narrador estático observa a vida acontecer em Kew Gardens, parque no sudoeste de Londres. O narrador observa os raios de luz projetados a partir da copa das árvores e os efeitos destes e das sombras sobre os espaços do parque com interesse que só pode vir de alguém que vive carpindo os pequenos presentes da vida. Ele não vê coisas grandiosas, mas uma sucessão de eventos simples: uma lesma que segue seu caminho; um casal que conversa trivialidades enquanto pensam sobre o passado; a lesma que segue seu caminho; mulheres; a lesma; um velho senhor enlouquecido pela guerra acompanhado por um jovem rapaz; a lesma que segue seu caminho; adolescentes, e finalmente o barulho exterior, o ruído de Londres. A observação dessas banalidades demonstra também o quanto ela valorizava cada momento, o quanto valorizava a vida – simples, colorida, explosiva – como os canteiros de Kew Gardens.

Apesar de seus vários nervous breakdowns, Virgínia Woolf lutou bravamente pela vida, contra a depressão quase que durante as seis décadas em que viveu. Entre as crises, a vida e a criatividade explodiam. Embora não se saiba ao certo o que provocava essas crises, há indícios de que ela foi violentada por um de seus irmãos, por parte de pai. Além disso, ela perdeu entes muito queridos de forma inesperada e foi educada de um modo muito rígido; como mulher, por exemplo, não teve acesso à educação formal. Talvez por lidar com essas crises frequentes, cada momento, cada pequena beleza fosse tão valiosa para ela. Por isso, carpe diem.

Uma versão em português do conto Kew Gardens pode ser lida aqui. A obra completa de Virgínia Woolf pode ser encontrada no Project Gutenberg.

¹Tradução livre: A vida em si mesma, cada momento, cada gota de vida, aqui, esse instante, agora, ao sol, em Regent’s Park, é suficiente.

²Tradução livre: Sempre o mesmo, um dia após o outro; quarta, quinta, sexta, sábado, você acorda de manhã, vê o céu, caminha no parque, encontra Hugh Whitbread; depois, inesperadamente, veio o Peter, depois as rosas; isso é suficiente. Quão inacreditável é a morte! – que a vida terá um fim; e ninguém no mundo inteiro saberá o quanto ela amou tudo isso; cada instante…