O título não é nada original! Mas se você está lendo, ele funcionou. Faz alguns dias que venho querendo escrever esse texto, mas só consegui fazer isso hoje – falar sobre sexo e literatura; duas paixões universais em um só texto. Pra fazer isso, resolvi caminhar em torno de três textos que tratam do assunto de formas bem diferentes: A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro; 50 Tons de Cinza, de E. L. James e Bliss, de Katrerine Mansfield, com tradução em português de Ana Cristina César.

Lembro perfeitamente o que despertou o meu interesse pelos dois primeiros. Em uma feijoada, ouvi comentários completamente opostos sobre ‘50 Tons de Cinza’. De um lado, “Eu fiquei com vontade de saber se meu corpo reagiria do mesmo jeito àquelas situações, eu não vou mentir, eu senti isso. Eu senti isso quando li.” E tudo dito com uma expressão maravilhosa. “Eu como marido tive que ajudar, lá em casa todo mundo leu”. Por outro lado, “eu não consegui ler nem os dois primeiros capítulos. Acho degradante a maneira como a mulher é tratada no livro. Não me colocaria na mesma situação de jeito nenhum”. Obviamente que a conversa rendeu um ótimo papo e horas de boas risadas. Rimos loucamente durante um bom tempo com os depoimentos… a feijoada foi um sucesso! Confesso que ainda não o li, mas acho que independente de sua qualidade literária, ele já valeu a pena por ter provocado tudo isso; valeu e vale a pena por ter criado esse clima de tanta descontração e alegria. O livro, que vendeu mais de 10.000.000 de cópias nas seis primeiras semanas, narra a história de uma estudante de literatura virgem, que descobre, através de um relacionamento com Christian Grey, o mundo do ‘sadomaso’, descrito com uma linguagem simples e rica em detalhes sobre sadismo, bondage e masoquismo, discutindo, assim, os limites entre o prazer e a dor. Para quem não quer ler, o livro vai ser transformado em um filme previsto para 2014 e com elenco ainda incerto.

O escritor João Ubaldo Ribeiro, autor de A Casa dos Budas Ditosos

Na feijoada, quando o assunto descambou para a qualidade da obra, alguns disseram que o texto não pode ser comparado com outros, como, por exemplo, A Casa dos Budas Ditosos, que virou um espetáculo encenado por Fernanda Torres. O primeiro não é tão rico… sua narrativa realmente prende, mas os… falta alguma coisa. Depois disso, saí, no mínimo, curioso. Fui procurar e ler o livro de João Ubaldo Ribeiro, cuja narrativa é construída como sendo verdadeira; em tese o depoimento foi entregue ao autor que junto com ele recebeu o direito de tornar a história pública.

Fernanda Torres na peça “A Casa dos Budas Ditosos”

A história de vida (sexual) de uma baiana de 68 anos de idade, que nunca se privou de experimentar todos os prazeres que quis sem a menor sombra de culpa, é narrada em primeira pessoa. Nele, a personagem narradora demonstra, com veemência, suas muitas e variadíssimas proezas – vão de sua primeira vez, das experiências (forçadas por ela) com um ‘neguinho’ da fazenda de seu pai quando ainda era criança, passando pelas técnicas de sedução que ela aplicava até as técnicas que ela tinha que usar para camuflar sua condição de devoradora de homens, seu irmão, o marido da tia, o chefe, o porteiro, o professor, etc. Do ponto de vista das questões do gênero, a narrativa inverte os papéis sexuais tradicionais e a mulher é colocada como a parte ativa em todo o processo; tudo é controlado e feito por ela, mesmo que de forma velada e sub-repticiamente. A conquista, a sedução, o desejo representado, o gozo, etc. são todos apresentados a partir de suas ações. Ou seja, leiam. Além das descrições (picantes, inusitadas, eróticas, com um vocabulário quase pornográfico) das aventuras, o texto ainda garante muitas e demoradas risadas.

Por fim, o conto de Katherine Mansfield. A sutileza é a peça chave… a maneira como Bertha Young é descrita, sua sensação de “êxtase” contínuo, ‘bliss’ em cada momento e em tudo que faz produz uma sensação absolutamente sensual. É como se ela estivesse ‘fazendo sexo’ com o mundo, com a vida. Suas sensações e esse êxtase ingênuo permanente atravessam a história quase que até o final… a árvore, observada de dentro da cozinha, ganha um tom fálico e absolutamente sexual. OMG! Muito bom ler Bliss. Espero que vocês gostem.

Para o título do texto fazer sentido, preciso falar sobre Rock, então ficam duas dicas: “Time of the Season de The Zombies, que tem uma batidinha super sensual, coisa pré-coito, que faz parte da trilha de Bruna Sufistinha, e “Mania de Você” de Rita Lee, de quem peguei emprestado o Roque Enrow.

Sobre o(a) autor(a)

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Professor de línguas e literatura inglesa, apaixonado por literatura, música, cinema e por tudo aquilo que se pode fazer a partir disso. Escuta a mesma música milhares de vezes e adora viajar. Capricorniano com ascendente em aquários, vive uma permanente confusão entre a estabilidade e a racionalidade do primeiro e a imprevisibilidade e imaginação do segundo. Em outras palavras, é um caos.

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